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As Cidades e os Músicos

O contributo de Pedro Gonçalves para a nossa vivência do espaço público manifestou-se na subtileza poética que caracteriza os grandes artistas.

Dead Combo
Créditos / comunidadeculturaearte.com

Há uns meses decidi oferecer um bilhete para os últimos espetáculos dos Dead Combo ao meu amigo D. Não que fosse um tema habitual nas nossas conversas, como o são Caetano Veloso ou Mind da Gap. Talvez tenhamos passado por lá, sim, mas não havia nada de muito óbvio a justificar este presente. O que estava subentendido nesta partilha era uma outra paixão, que ambos vamos construindo e desenvolvendo em cada pedaço de conversa, em cada passeio, em cada cerveja servida em copo de plástico ou no mais elegante príncipe. Tudo isso, para nós, é um movimento urbano, que compõe o nosso quotidiano, e a música uma inescapável dirigente sonora.

A morte de Pedro Gonçalves, no início do mês de dezembro, anteciparia o fim do anunciado fim dos Dead Combo. Nesses dias, pensei muito no papel do Pedro Gonçalves na música portuguesa contemporânea e até mesmo na forma como o seu contributo foi decisivo para a vivência do meu tempo e do espaço que habito. Gonçalves foi mais do que um mero instrumentista ou executante. Da ponta dos seus dedos finos, da curvatura da sua cervical, saíam tensões que reproduziam aquilo que é, hoje, a cidade de Lisboa. Não há uma esquina desta cidade, um pedaço de asfalto ou um milímetro de metal, vidro ou betão que não pertença ao som dos Dead Combo. Da languidez trágica do arco do contrabaixo aos tropeções da melódica, da rigidez das alavancas no momento de rasgar as cordas das guitarras ao mais profundo respeito pelo silêncio, o contributo de Pedro Gonçalves para a nossa vivência do espaço público manifestou-se na subtileza poética que caracteriza os grandes artistas.

«Gonçalves foi mais do que um mero instrumentista ou executante. Da ponta dos seus dedos finos, da curvatura da sua cervical, saíam tensões que reproduziam aquilo que é, hoje, a cidade de Lisboa. Não há uma esquina desta cidade, um pedaço de asfalto ou um milímetro de metal, vidro ou betão que não pertença ao som dos Dead Combo.»

São estas características que definem um músico que, abdicando de uma certa popularidade individual, se dedica à sua cidade; que transporta para a sua arte aquilo que a sua cidade lhe transmite. Ele recolhe da cidade um conjunto de sensações que acabarão por ser «a sua mais completa tradução». E nós, que beneficiamos dessa generosidade, dessa dedicação, dessa atenção, temos agora uma banda sonora que funciona como um código ou um mapa sociocultural do nosso tempo.

A música dos Dead Combo, como de tantos outros artistas do último século, na música popular contemporânea, é um instrumento crítico necessário a qualquer cidade. As cidades beneficiam com os artistas que, nos interstícios das fachadas, veem o detalhe da sua realidade, bebem as suas camadas de aparência nas mesas dos cafés e dos bares e encontram nas conversas o guião para a criação artística. Sem recorrer ao lugar-comum, o músico que vê na cidade o seu motivo será sempre responsável pela forma como nos passamos a relacionar com ela. A música não é mera banda sonora estética, como se pretende com o som de rua autárquico nas festividades; ela é um estímulo para a nossa consciência.

Quando passeamos pelas ruas de Lisboa, do Porto, de Coimbra ou de Ponta Delgada há em nós um conjunto de sentimentos artificiais introduzidos por objetos artísticos ou de entretenimento que se limitam a caricaturar as cidades (repare-se, por exemplo, na forma como imaginamos Nova Iorque, Buenos Aires ou Paris). Mas qualquer um daqueles lugares está mais presente numa pintura de artistas como Maria Helena Vieira da Silva ou num poema de Cesário Verde. Da pintura à literatura, passando pelo cinema, as artes tiveram sempre quem, na abstração, conseguisse trazer até nós os elementos definidores da sua realidade. A música popular contemporânea teve mais dificuldade em chegar a esse registo e quando o consegue é transformada em música de elevador. São poucos os que permanecem como narradores do seu tempo, das sensações e do pensamento do seu tempo e espaço.

«Sem recorrer ao lugar-comum, o músico que vê na cidade o seu motivo será sempre responsável pela forma como nos passamos a relacionar com ela.»

Não querendo aqui cometer nenhuma injustiça, há em Portugal – na música portuguesa contemporânea – pouca atenção ao que as cidades nos transmitem para além das quatro paredes caiadas e das pedrinhas da calçada. Mas ela existe, muitas vezes longe, muito longe, do mainstream. Acontece que, quanto menos rua tivermos, quanto menos lugares de sociedade, de comércio, de cafés e bares existirem, também serão menos as possibilidades que teremos de encontrar as nossas cidades e através delas criarmos com honestidade aquilo que vemos e que sentimos.

Na música dos Dead Combo vemos uma Lisboa menos habitada e com mais necessidade de habitação, lamentamos a extinção das personagens de bairro e do comércio engolido pela gentrificação, sentamo-nos «à beira do mar ouvindo as ondas rolar», esperamos eternamente pelo barco que nos há-de levar à outra margem do nosso dia, absorvemos o ruído na pele e no osso, ambicionamos mudar de vida, enquanto nos arrastamos num movimento tendencialmente perpétuo. E é neste movimento que a música nos esclarece e nos traz à tona e nos devolve o amor pelas cidades.

Quando abandonamos o vício da sofisticação, o wishful thinking, fica em nós um retrato cru e rude do sítio onde vivemos; fica à nossa frente, exposta, a vida dos outros misturada com a nossa e todas as contradições e dilemas que isso nos traz. Como diz Caetano: «E quem vende outro sonho feliz de cidade/ Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso». Há, nesse despertar, um recomeço. Ele é o ponto de partida para uma nova alegria em viver aquilo que, de facto, existe.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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