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|Beth Olegário

Centro(s) e Periferia(s): um ciclo de conversas para pensar a cidade

O ciclo de conversas Centro(s) e Periferia(s), integrado no âmbito do projeto artístico Vozes das Independências – Lugar das Novas Nações, promovido pela BOTA – Base Organizada da Toca das Artes, propõe-se como um espaço de escuta, diálogo e reflexão crítica sobre as múltiplas formas de habitar, criar e transformar a cidade.

Créditos / BOTA – Base Organizada da Toca das Artes

A cidade não é apenas um conjunto de ruas, edifícios e infraestruturas. É um território onde se inscrevem memórias, desigualdades, disputas e formas de pertença. É um espaço vivido, produzido pelas relações sociais, pelos modos de habitar e pelas diferentes formas de apropriação do território. Partindo desta compreensão do espaço urbano como uma construção social e histórica, o ciclo de conversas Centro(s) e Periferia(s), integrado no âmbito do projeto artístico Vozes das Independências – Lugar das Novas Nações, promovido pela BOTA – Base Organizada da Toca das Artes, propõe-se como um espaço de escuta, diálogo e reflexão crítica sobre as múltiplas formas de habitar, criar e transformar a cidade.

Acreditamos que pensar a relação entre centro(s) e periferia(s) implica reconhecer que as periferias não são apenas áreas localizadas fora dos núcleos urbanos, definidas pela distância ou pela posição geográfica. As periferias são territórios historicamente produzidos por processos sociais, económicos e políticos que revelam formas desiguais de organização da cidade. Nesses territórios, inscrevem-se disputas pelo direito à habitação, à mobilidade, à memória, à representação e à participação plena na vida urbana.

Neste ciclo, ao debatermos esses conceitos, reconhecemos que a segregação socioespacial e o racismo estrutural influenciam a forma como determinados territórios são representados, administrados e vividos. As periferias são frequentemente atravessadas por processos de precarização, racialização e estigmatização que não dizem respeito apenas aos territórios em que estão situadas, mas também às narrativas mediáticas construídas sobre esses espaços e as populações que os habitam. Essas representações orientam modelos de intervenção urbana baseados mais no controlo e na vigilância do que na garantia de direitos, contribuindo para a reprodução de desigualdades históricas. 

A atualidade desta problemática foi promovida por uma investigação divulgada no jornal Público, em parceria com o podcast Fumaça e a revista digital Divergente, que revelou que a classificação policial de zonas urbanas sensíveis (ZUS) assenta frequentemente mais em critérios socioeconómicos do que em indicadores de criminalidade. A violência policial incide, deste modo, sobre bairros e habitação social e territórios habitados por populações racializadas e de baixos rendimentos. Logo, essas classificações contribuem para reproduzir formas de estigmatização e de vigilância territorial.

Esta perspetiva foi igualmente sublinhada por Ivan Coimbra, um dos convidados do ciclo para quem: «as zonas urbanas sensíveis constituem uma das táticas mais fortes do racismo geográfico, na medida em que contribuem para associar determinados bairros e populações ao risco e à insegurança». A partir da sua experiência enquanto habitante tanto do centro da cidade como da periferia, Ivan Coimbra afirmou: «As desigualdades territoriais expressam-se sobretudo na distribuição desigual de recursos, oportunidades e direitos. Também o exercício do direito de voto e a participação política são condicionados por estas assimetrias socioespaciais».

Milton Santos, geógrafo brasileiro, afirma que o território não é uma superfície neutra. É o resultado de relações sociais, políticas e económicas que se materializam no espaço. As desigualdades, portanto, não existem apenas nas relações entre indivíduos e grupos; elas encontram-se também inscritas na própria organização urbana, condicionando quem pode habitar, circular, permanecer e exercer plenamente o direito à cidade. Pensar a cidade a partir da(s) periferia(s) é, assim, reconhecer esses territórios como lugares de produção de conhecimento, cultura, memória e resistência, onde se constroem outras formas de imaginar e transformar o espaço urbano. 

Esse ciclo também dialoga com pesquisas recentes sobre as periferias em Portugal. Como observam Raposo et al1. (2026), foi a partir dos anos 2000 que a produção académica portuguesa começou a ampliar o olhar sobre esses territórios, superando gradualmente uma abordagem centrada na exclusão social e na precariedade. Mais recentemente, em diálogo com os estudos decoloniais, os movimentos negros e a produção artística afrodiaspórica, as periferias em Portugal passaram a ser compreendidas também como espaços de produção cultural, elaboração de saberes, resistência política e afirmação de identidades. 

Segundo os autores, esse deslocamento aproxima-se das reflexões desenvolvidas no Brasil, que contribuíram para redefinir a periferia como um lugar de criação, conhecimento e ação política, e não apenas como um espaço de carências. Nesse sentido, o reconhecimento académico das periferias como territórios de produção cultural, conhecimento e resistência consolida-se apenas quando essas formas de afirmação já vinham sendo construídas e reivindicadas pelas próprias comunidades, pelos artistas e pelos movimentos negros e periféricos.

É precisamente esse deslocamento que inspira Centro(s) e Periferia(s). Mais do que reafirmar uma oposição entre centro e periferia, o ciclo convida a questionar essas categorias e as relações de poder que as produzem. Afinal, quem fala da periferia pode estar a falar do seu centro: do lugar onde se constroem vínculos, memórias, formas de criação e modos de viver a cidade. 

Nesse sentido, centro e periferia não são categorias fixas nem apenas geográficas, mas posições relacionais, históricas e políticas que se transformam conforme as experiências e os modos de habitar o espaço urbano. Ivan Coimbra chama a atenção para a natureza relacional das categorias de centro e periferia. Recordou que: «Lisboa apesar de ocupar uma posição central no plano económico, político, social e cultural de Portugal, permanece situada numa posição periférica na economia capitalista global quando comparada com outros centros de poder. Lisboa é uma cidade periférica da Europa». 

«Afinal, quem fala da periferia pode estar a falar do seu centro: do lugar onde se constroem vínculos, memórias, formas de criação e modos de viver a cidade.»

Para Coimbra, esta relação entre centro e periferia não se limita à dimensão económica ou geográfica, mas manifesta-se também nas formas como os próprios habitantes percebem e constroem os seus territórios. Segundo o ativista, «continua havendo uma distinção clara, fortalecida pelo próprio sistema e que é ensinada. Portanto, é algo intrínseco nas próprias pessoas». 

A partir do exemplo de Chelas, um dos bairros periféricos de Lisboa, explica que muitos dos seus habitantes reconhecem aquele território como um centro de referência: «a malta que mora em Chelas (...) diz que a capital de Portugal é Chelas». Para Coimbra, essa perceção resulta de uma hierarquia territorial invisível, aprendida socialmente, através da qual a periferia constrói os seus próprios espaços de pertença e de centralidade: «o seu próprio país dentro do país». 

Assim, a periferia não deve ser entendida como ausência ou exterioridade, mas como um território onde se produzem identidades, memórias e formas próprias de organização da vida urbana. Ao mesmo tempo, Coimbra sublinhou que: «a diversidade de Lisboa se estende muito para além do seu centro histórico, abrangendo territórios como a Margem Sul, Odivelas ou a Linha de Sintra». 

Num contexto europeu marcado pelo avanço da cidade-mercadoria, pela gentrificação das cidades, pelo aumento do valor das rendas e pelo aumento das pressões sobre populações vulnerabilizadas, Lisboa atravessa profundas transformações nas suas formas de apropriação da cidade. 

À semelhança de outras cidades europeias, como resultado da pressão turística, do investimento imobiliário internacional, da reconfiguração dos mercados habitacionais e da atração de capitais para áreas urbanas valorizadas, a cidade tem assistido ao aumento dos preços da habitação e das rendas, à precarização das condições de permanência e à intensificação da mercantilização do solo urbano.

É também neste cenário que nasce Centro(s) e Periferia(s), um ciclo de conversas que procura questionar a forma como a cidade produz centros e margens, visibilidades e invisibilidades. Mais do que compreender centro e periferia como lugares definidos apenas pela geografia, o ciclo propõe pensar estes conceitos enquanto construções históricas, discursivas, políticas e simbólicas que organizam formas de reconhecimento, circulação e participação na vida urbana.

Inserido nas comemorações dos 50 anos das independências dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), Vozes das Independências – Lugar das Novas Nações parte da Lisboa contemporânea para refletir sobre as marcas da história colonial presentes nos territórios, nas relações sociais e nas experiências quotidianas de quem vive e atravessa a cidade. O ciclo propõe deslocar o olhar sobre as periferias, reconhecendo-as não como espaços secundários ou exteriores à cidade, mas como territórios de produção de novas centralidades.

«É também neste cenário que nasce Centro(s) e Periferia(s), um ciclo de conversas que procura questionar a forma como a cidade produz centros e margens, visibilidades e invisibilidades.»

O ponto de partida do projecto encontra-se na freguesia de Arroios, onde a BOTA está sediada, numa zona em que a própria toponímia revela algumas das contradições da Lisboa contemporânea: uma Praça das Novas Nações situada no coração de uma região ainda associada ao antigo Bairro das Colónias. 

Estes nomes, inscritos no espaço urbano, revelam como diferentes camadas da história permanecem presentes na urbe e continuam a influenciar as formas como os territórios e as suas populações são representados. Lisboa é uma cidade onde a memória colonial permanece inscrita no espaço urbano, nas toponímias, nas narrativas oficiais e nas formas desiguais de reconhecimento dos seus habitantes. 

Apesar da presença plurissecular das populações negras que participam há séculos na construção social, cultural e económica da cidade. As presenças africanas, afrodescendentes e migrante continuam frequentemente invisibilizadas. A colonialidade não se manifesta apenas como herança do passado. Ela permanece nas formas contemporâneas de organizar o território, definindo pertenças e estabelecendo quem é reconhecido como cidadão português.

Ao longo do ciclo, as conversas decorrerão na Praça das Novas Nações, em Arroios, Lisboa; no Spot Dentu Zona, na Cova da Moura, na Amadora e no Centro Comunitário Terraço da Ponte, na Quinta do Mocho, em Sacavém. A proposta é reconhecer que as periferias não estão fora da cidade, mas são partes constitutivas da sua história, da sua cultura e das suas possibilidades de futuro.

Participam no ciclo: Marta Lança (Portal Buala), José Sinho Baessa de Pina (Noz Stória), Flávio Almada (Moinho da Juventude e Vida Justa), Ivan Coimbra (Vida Justa), Vânia Vanessa Vaz (Associação Mocho +), Lua Semedo (Técnica de Intervenção Social e Comunitária e fundadora da Associação Juvenil Esperança da Quinta da Princesa) e a moderação estará a cargo de Elizabeth Olegário, investigadora e consultora de pesquisa do projeto Vozes das Independências – Lugar das Novas Nações. Todas as sessões têm início às 17h30.

Para além do ciclo de conversas, Vozes das Independências – Lugar das Novas Nações inclui uma chamada aberta para uma residência de criação com os músicos André Xina, Juninho Ibituruna, Francesco Valente e Rui Galveias em espaços de trabalho em Arroios, na Cova da Moura e na Quinta do Mocho. O trabalho imersivo de criação coletiva desdobrar-se-á na forma de um espetáculo e de um disco cuja estreia acontecerá em novembro de 2026, durante a World Music Week organizada pela BOTA.

Através da arte, da música e do pensamento crítico, Vozes das Independências propõe criar espaços de escuta e encontro, convidando a experenciar a cidade para além das cartografias coloniais que ainda organizam visibilidades, pertenças e deslocações. O projecto procura reconhecer as vozes, memórias e práticas que emergem dos seus territórios, afirmando que as margens não são exteriores à cidade. São lugares de criação, conhecimento e produção de novas centralidades.

A autora escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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