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Arqueólogos descobrem novas gravuras com mais de 23 mil anos no Vale do Côa

Apesar das cheias artificiais e periódicas que deterioram o material arqueológico, novas gravuras do Paleolítico Superior foram descobertas no Sítio do Fariseu.

Créditos Francisco Pinto / Agência Lusa

Os novos achados foram feitas na chamada «Rocha 9» do Sítio do Fariseu, no Parque Arqueológico do Vale do Côa, dando seguimento a um trabalho iniciado em 2020 com a descoberta do «maior auroque do mundo», uma imagem de um bovino primitivo e já extinto.

À Lusa, o coordenador científico da Fundação Côa Parque, Thierry Aubry, explica o que se passou no terreno: «Após descoberta do maior auroque do mundo em 2020, houve uma acumulação de sedimentos devido às cheias no rio [Côa], ao longo dos últimos seis anos, e agora, com novos trabalhos de prospeção arqueológica, foram colocadas a descoberto novas gravuras que representam bois, vitelos, cervas, cavalos, cabras, entre outros, que ainda não estão totalmente identificados».

Junto ao famoso auroque de 3,5 metros de comprimento somam-se agora duas novas gravuras completas, num total de 40 já conhecidas na Rocha 9, que sozinha, com seus dez metros de comprimento representa um dos principais núcleos de arte rupestre no Parque Arqueológico do Vale do Côa. Parque, este classificado como Monumento Nacional, e inscrito na Lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

De acordo com Aubry, as novas descobertas permitem afirmar uma homogeneidade estilística das gravuras, «neste momento podemos ver uma associação entre um auroque fêmea e uma jovem cria repetidas várias vezes na mesma rocha. Há também argumentos do ponto de vista técnico, onde, ao que parece, foi utilizado o mesmo tipo de ferramenta para fazer estas novas gravuras».

Os riscos ao património arqueológico

«Decidimos remover todos os sedimentos que se acumularam em torno desta rocha, para manter a integralidade dos motivos gravados. Não se pode correr o risco de se perderem, em caso de outras cheias. E assim apareceram novas gravuras que estavam por baixo da camada de terra, que de imediato despertaram a atenção», explicou Thierry Aubry.

As cheias em questão são as inundações artificiais que fazem a manutenção da ensecadeira da barragem do Côa, abandonada há anos. Em 2023, o arqueólogo Miguel Almeida já afirmava que a existência da ensecadeira acelerava em 50 vezes o ritmo de degradação das pinturas rupestres.

Apesar da existência gravuras e até da descoberta das ferramentas utilizadas, ainda não há vestígios de ocupação humana na região durante esta fase do período Solutrense. Para já, no âmbito de uma tese de doutoramento em curso, estão a ser investigadas as camadas geológicas próximas deste local, a 50 metros do rio Côa, o que permitirá desenvolver novas sondagens. Mas a tarefa de prospecção arqueológica está limitada em função das mesmas cheias que põem em risco a perda do património arqueológico. Aubry sublinha que «só com a remoção das duas ensecadeiras do Côa, que ficaram após o abandono da construção da barragem, se pode seguir em frente» e avançar com as descobertas.

Desde Agosto de 1996, quando da criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa, já foram identificadas 1600 rochas com arte rupestre, espalhadas em 104 sítios arqueológicos e num total de 15 650 motivos, predominantes do período Paleolítico. De acordo com o presidente da Fundação Côa Parque, João Paulo Sousa, só este ano 60 novas gravuras foram identificadas no parque.
 

Com Agência Lusa

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