Burkini

Uma tão empenhada perseguição ao excesso de vestuário feminino, simbolizado por essa peça inventada na Austrália há alguns anos, o burkini, insere-se, avaliando o pulsar dos tempos, na multifacetada guerra contra o terrorismo.

Os comportamentos de Hollande e seguidores traduzem o cumprimento da agenda xenófoba que vai sendo preenchida
Os comportamentos de Hollande e seguidores traduzem o cumprimento da agenda xenófoba que vai sendo preenchida CréditosKhalid Albaih

Se nos distantes anos sessenta um flick de St. Tropez, em nome dos bons costumes e do secularismo republicano, ousasse pedir a Brigitte Bardot, a sensual BB, para remover dos cabelos louros o lenço Chanel com que os protegia do vento e do sol, a sua carreira policial acabava ali: perdia distintivo, arma, divisas, farda, emprego, era ridicularizado na comunicação social, caía em desgraça. Ou se o cabo-do-mar de Cannes ordenasse à diva Claudia Cardinale para desatar da cintura a écharpe Dior com cujas franjas acariciava as pernas esculturais, o seu destino seria igual ao do flick anterior. A repressão inicial do ousado bikini, considerado um desafio à decência civilizacional, já passara à história e as vestes de praia liberalizavam-se de uma maneira imparável.

Imparável?

Cinquenta anos depois, o neto do flick de antanho, actuando, por sinal, na não menos cosmopolita Promenade des Anglais, em Nice, foi aplaudido em pleno areal, e pelos seus comparsas distribuídos pela comunicação social, por ter obrigado uma veraneante a despir o excesso de roupas através das quais, no seu entender, insultava, de uma vez só, a moral, os bons costumes e o secularismo da República. A atitude do dedicado agente foi sustentada e esmiuçada pelo presidente Hollande e pelo primeiro-ministro Valls: tais vestes faziam proselitismo de uma religião, o Islão, pelo que, além do insulto à moral republicana, havia por ali uma encoberta intenção terrorista.

Quer isto dizer que, se acaso a insuspeita e fervorosa católica senhora dona Clementina, dos perdidos interiores beirões, fosse visitar a família emigrada em Nice e se juntasse aos filhos e netos nos requintados areais, usando as negras e eternas vestes de viúva cobrindo-a da cabeça aos pés, o mais certo era ser multada e sujeita a humilhante strip tease para que assim se respeitassem a moral, os bons costumes e o secularismo republicano, que em lado algum se diz tão fundamentalista como em França. Pelo que a pacífica e beata senhora dona Clementina não escaparia a ser apontada como uma invasora islâmica ao serviço das hordas terroristas.

«(...) Hollande-da-triste-figura e das perseguições religiosas mediante as quais mina o próprio conceito de laicidade do Estado, integrou a troika que se recolheu recentemente numa ilha italiana para «repensar» e «refundar» a União Europeia.»

Uma tão empenhada perseguição ao excesso de vestuário feminino, simbolizado por essa peça inventada na Austrália há alguns anos, o burkini, insere-se, avaliando o pulsar dos tempos, na multifacetada guerra contra o terrorismo que mobiliza os nossos dirigentes internacionais com um afã tão obsessivo que só é ultrapassado pelo apego à austeridade. Por tal razão, o burkini-maníaco governo de Hollande e Valls é o mesmo que, igualmente à luz do estado de excepção, fez entrar em vigor, à revelia do Parlamento, a lei laboral que deposita o mercado de trabalho e os trabalhadores nas mãos dos grandes patrões. Estas coisas andam sempre ligadas, razão pela qual o ministro da Economia, Emmanuel Macron – o padrinho da contestada lei – acaba de se demitir para iniciar a corrida à presidência tentando suceder a Hollande. Assim sendo, com Sarkozy ou Macron a França não correrá o risco de se desviar das trágicas gestões em que tem vivido.

Acresce, parece oportuno lembrá-lo, que Hollande-da-triste-figura e das perseguições religiosas mediante as quais mina o próprio conceito de laicidade do Estado, integrou a troika que se recolheu recentemente numa ilha italiana para «repensar» e «refundar» a União Europeia. Os europeus conhecem por experiência própria os resultados nefastos das troikas que os vão perseguindo; por maioria de razão já sabem o que devem esperar de uma refundação engendrada por políticos – Merkel, Hollande e o invertebrado Renzi – que dizem pretender ressuscitar o cadáver adiado de que organizaram o velório.

À luz dos episódios de perseguição em França contra o vestuário que simboliza «uma religião» – assim o dizem os dirigentes gauleses – devemos esperar que as freiras católicas, os monges budistas ou os judeus ortodoxos revejam agora as indumentárias, devendo optar livre e secularmente por roupas de estilistas famosos: decotes generosos, saias curtas, fatos e gravatas e cabelos ao vento trabalhados segundo a griffe dos celebrados artistas parisienses. Com as religiões assim postas nos seus lugares, por certo não haverá mais nenhum atentado terrorista.

Ou então seremos levados a concluir que os comportamentos de Hollande e seguidores traduzem o cumprimento da agenda xenófoba que vai sendo preenchida em velocidade uniformemente acelerada ao ritmo imposto pela Frente Nacional de Le Pen e as suas congéneres pontificando na Europa, do Báltico a Espanha, muito incisivas na Polónia, na Ucrânia, na Hungria, na Eslováquia. De Hollande e Valls não se conhecem quaisquer remorsos em relação a este caminho.

Recordo apenas as conhecidas tendências segregacionistas do primeiro-ministro francês, passadas à prática com o desmantelamento arbitrário de acampamentos de ciganos e declarações insultuosas para com os refugiados; lembro ainda que o secularíssimo presidente Hollande escolheu para seus conselheiros de confiança, tal como fizera Sarkozy, um ortodoxo cristão da linha ultrafundamentalista do cardeal Lefèvre, além de um general fascista na reserva identificado com as práticas criminosas coloniais durante a guerra na Argélia.

Com tais conselheiros, além dos amigos americanos e dos confrades israelitas – exemplos acabados de laicismo –, não haverá burkini nem terrorismo que resistam a Hollande e Valls.