Um fado tropical, ou talvez não…

De um lado, o «povo» solidário e esforçado, do outro, o «polvo» dos contratos com o Estado. Depois, «Juntos por todos», como no concerto. Pela alma lusa.

Créditos / Rádio Boa Nova

Concerto «Juntos por todos» em homenagem e apoio às vítimas do incêndio de Pedrógão Grande.

Uma «emissão histórica», simultaneamente transmitida pelas três cadeias da TV e por todas as emissoras de rádio nacionais, com mais de duas dezenas de artistas e uma multidão de apresentadores, comentadores, técnicos e colaboradores, um milhar de voluntários.

Catorze mil presentes na MEO Arena e muitos outros milhares que, embora longe, compraram bilhetes ou doaram de diversas formas mais de um milhão de euros, parte dos quais veio de pequenas contribuições de quem pouco tem.

A escolha (da União das Misericórdias) para a distribuição dos donativos é mais que discutível, mas não o espírito solidário dos milhares e milhares de portugueses que contribuíram.

Somos um pequeno ou «grande» país que se sabe unir na desgraça do seu fado. Não somos o único assim, há muitos outros assim, mas somos assim.

«Somos assim, bem o sabemos. Assim como?» – interroga-nos o título de um dos capítulos do último livro de Manuela Cruzeiro, A nossa fada Morgana – viagem pelos imaginários da Revolução de Abril.

Precisaremos, como diz Eduardo Lourenço, de «uma autêntica psicanálise do nosso comportamento global, um exame sem complacências que nos devolva o nosso ser profundo… ao arrancar-nos as máscaras que confundimos com o rosto verdadeiro»?

Na realidade, no meio dos repetidos louvores à nossa invulgar capacidade de ajuda, à nossa unidade na desgraça, às características únicas de um povo generoso capaz dos maiores feitos, vai-se apagando o que passámos e consentimos para aqui chegar. E o aqui, é a rotina trágica dos incêndios de Verão como resultado da desestruturação de uma política pública que se dilui na defesa de interesses privados, causa quase esquecida nas manifestações de apoio e solidariedade depois de consumado desastre.

Para alguns, essa exaltação poderá integrar-se na invocada doença bipolar lusa, na tendência de passar da depressão à exaltação, nas análises que vão do complexo de inferioridade à «hiper-identidade nacional», também analisadas no referido livro.

É talvez essa contraditória ideia mítica da doce e lacrimosa nostalgia do nosso fado, conjugada com a dureza equívoca das ideias de grandeza de um país cujo povo há muito navega entre a esperança e o desespero, que se pode perceber no «Fado Tropical» de Chico Buarque e Ruy Guerra, escrito em 1973 quando Brasil e Portugal tinham ditaduras, assumindo depois uma interpretação inversa, com a nossa Revolução dos Cravos acontecida no ano seguinte:

«Sabe, no fundo eu sou um sentimental/Todos nós herdámos no sangue lusitano/uma boa dose de lirismo/mesmo quando as minhas mãos estão/ocupadas em torturar, esganar, trucidar/meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…/… Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se num imenso Portugal».

Contudo, para pensadores como Fernando Madaíl, também citado por Manuela Cruzeiro, estas são apenas ideias «das pessimistas elites intelectuais, que andam a pensar sobre a viabilidade nacional desde os finais do século XIX, do ultimato inglês, até ao último alargamento da União Europeia».

Na opinião mais prosaica e assumidamente redutora (mas não totalmente despida de realismo) de uma amiga minha, muitos dos estudos «psicológicos» dos sentimentos do «povo», são tão redundantes como concluir que, se os europeus estão mais altos, então usam calças mais compridas.

Para ela, o que mais conta, é que a grande maioria dos portugueses vive e sobrevive do seu trabalho ou emigra para fugir à miséria e ao desemprego e, por isso, fica optimista quando a vida corre melhor e os seus direitos são respeitados, e fica pessimista quando percebe que os mitos que lhes foram impingidos sobre os benefícios do «Império» ou da «Europa» servem apenas para os esfolar ainda mais, enquanto uma pequena minoria enriquece à sombra do Orçamento do Estado.

De resto, tão simples como o reconhecimento da generosidade do povo luso, é a constatação que, numa sociedade dominada pelos «mercados», as necessidades mais básicas, entre as quais as da habitação, saúde e segurança, são apenas «oportunidades de negócio» aproveitadas com sucesso pelos winners dos bancos e das grandes empresas, sobrepondo-se aos interesses da grande comunidade de gente «normal».

E sempre que uma iniciativa toca o coração pela benignidade dos seus objectivos (e sem diminuir o valor dos que desinteressadamente nela colaboram), essa separação de interesses desvanece-se na aparente unidade de um ambiente amalgamado pela sua implícita bondade, e o escrutínio das causas que a originaram baixa a fasquia, menorizando culpas e responsabilidades e o que se podia ou devia ter feito para evitar as perdas e construir um futuro melhor.

«535 milhões?

Uma espantosa cláusula que livra de responsabilidades quem fornece um serviço de comunicações em situação de catástrofe, caso ele não funcione se houver uma catástrofe?»

Na realidade, não se conhece tudo o que condicionou a tragédia de Pedrogão. Mas sabe-se que se mantêm factores favorecedores e que as comunicações entre os diversos agentes no terreno falharam.

O concurso para o agora famoso Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), iniciado por Guterres e Durão Barroso, arrastou-se em voltas e reviravoltas até ser despachado à pressa, em 2004, três dias depois das eleições, pelo governo de gestão de Santana Lopes, aproveitando o período áureo dos negócios manhosos, quando o demissionário está a sair e o novo ainda não tomou posse.

O contrato em forma de parceria público-privada, no valor de 538 milhões de euros (cinco vezes o que realmente valia, segundo os críticos), foi ganho pelo único consórcio que avançou, tendo os restantes quatro desistido por considerarem o processo viciado à partida.

Santana Lopes, perguntado há dias numa entrevista ao Público (27-6-17) «qual era a pressa?», respondeu:

«… Na altura eu também não acompanhei o processo. Sabe 10 ou 12 anos depois é muito difícil as pessoas lembrarem-se».

Depois de nova insistência – «não se recorda das razões para haver pressa?» –, Santana Lopes continuou:

«Não. Houve coisas que eu soube já depois de sair do governo… os ministros produziram despachos que nem deram conta ao primeiro-ministro.»

Mais à frente, reagindo à admiração do jornalista que ironizou – «Mesmo a cláusula que diz que o SIRESP não é responsabilizável em caso de catástrofe? É uma cláusula um bocadinho original...» –, Santana Lopes confessou:

«Sim. Sim. Essa cláusula é. Mas vamos ver: o Ministro da Administração Interna de então (N.A. Daniel Sanches) era procurador, tinha sido director do DIAP, adjunto da PJ, quer dizer… era uma pessoa… Mesmo depois do governo só tive razões para ter boa ideia dele. Hoje em dia, se formasse governo, ia por um método ao contrário: passava a desconfiar de toda a gente.»

Podemos assim ver como tudo se passa na origem. 535 milhões? Uma espantosa cláusula que livra de responsabilidades quem fornece um serviço de comunicações em situação de catástrofe, caso ele não funcione se houver uma catástrofe? Um contrato surreal tendo como principal accionista a Sociedade Lusa de Negócios - SLN (dona do falido BPN), onde trabalhava o ministro Daniel Sanches que para lá voltou logo depois de o ter assinado?

Tudo normal. Nada que o ex-primeiro-ministro se lembre, porque «não acompanhou o processo». Um pormenor irrelevante. Tão insignificante como o mal-educado traque de Salvador do Sobral. Para a próxima vai desconfiar de toda a gente…

Em 2006, anulado esse primeiro concurso do SIRESP pela Procuradoria-Geral da República, António Costa, estão Ministro da Administração Interna no Governo de Sócrates, teve a excelente oportunidade de mandar tudo às urtigas, mas preferiu manter a tortuosa parceria público-privada com a tal estranha cláusula das catástrofes, baixando 50 milhões no custo, mas tirando-lhe despesas e obrigações, ganhando mais fama do que proveito.

Depois, o negócio manteve-se na segunda linha dos escândalos caídos no adequado limbo do conhecimento/esquecimento, e o SIRESP fartou-se de falhar em incêndios (Sardoal, 2016; Pedrógão, 2017) e tempestades (2013).

Agora, segundo o anunciado, o governo vai comprar, por ajuste directo, um serviço de satélite. Casa roubada, uma tranca, pelo menos, à porta. Uma mostra de que houve uma total insensibilidade para com as vidas humanas que podiam ficar em risco.

Que cientistas, organizações e partidos, todos devidamente apelidados de «esquerda radical», tenham denunciado os negócios e tráfico de influências que pululavam à volta dos incêndios, e os interesses da fileira da floresta e da indústria de papel que transformaram Portugal no maior eucaliptal da Europa em valor absoluto (812 mil hectares), e no maior do mundo (em proporção à superfície do país), quarto depois de «pequenos» como a Índia, Brasil, China e Austrália, pouco parece ter riscado.

Voltando à bela descrição dos sentimentos da elite colonizadora lusa do fado de Chico Buarque.

«Se trago as mãos distantes do meu peito/é que há distância entre a intenção e o gesto/ E se o meu coração nas mãos estreito/assombra-me a súbita impressão de incesto.»

Ao Estado, dizem, falta «vocação» para tratar da floresta e dos incêndios, como também da Banca, do Ensino, da Saúde ou da Segurança Social. Serve apenas para contratar empresas de aviões, de helicópteros, de comunicações (como o SIRESP), de estudo e análise, de cuidados de saúde (o Centro de Saúde de Castanheira de Pera, para onde se dirigiram as ambulâncias, estava fechado e teve de ser arrombado) e receber as dádivas que sobram da mobilização popular.

De um lado, o «povo» solidário e esforçado, do outro, o «polvo» dos contratos com o Estado. Depois, «Juntos por todos», como no concerto. Pela alma lusa.

«Meu coração tem um sereno jeito/e as minhas mãos o golpe duro e presto/de tal maneira que, depois de feito Desencontrado, eu mesmo me contesto.»

E o coração do PSD e do CDS, mas também do PS, «fecha os olhos e sinceramente chora».

Por eles, depois da choradeira, fica tudo na mesma.