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Tancos: o oportunismo à solta

As propostas de PSD e CDS de acareação entre generais com responsabilidades recentes no topo da hierarquia do Exército reflectem a irresponsabilidade, o oportunismo e a falta de sentido de Estado.

CréditosArmando Babani / EPA

As inusitadas e inesperadas propostas do PSD e do CDS, apresentadas na Comissão Parlamentar que visa o apuramento das responsabilidades políticas no caso de Tancos, de acareação entre os generais Rovisco Duarte, Faria Menezes e José Calçada, a propósito de declarações ali prestadas pelos três militares, são para os partidos da direita uma forma de atingir os seus fins sem olhar a meios.

O furto de material militar dos paióis de Tancos e a tentativa de agora lavar a «roupa suja» do Exército servem para PSD e CDS alimentarem a campanha mediática contra o Governo e, de forma indirecta, contra a actual solução política, mas que, objectivamente, contribui para o caldo da cultura populista cujas consequências não atingirão apenas o Governo, mas a própria democracia.

Aliás, PSD e CDS, dentro e fora do governo, nunca deixaram de agitar o papão da coesão e da disciplina nas Forças Armadas sempre que as associações profissionais de militares esboçaram acções em defesa dos direitos daqueles que representam, mas não se inibem de propor uma acareação entre os generais que no passado recente eram os responsáveis de topo na hierarquia do Exército.

Pelos vistos, para PSD e CDS, arrastar para a lama a imagem do Exército não põe em causa a sua coesão!

Falta saber em que medida a exibição pública de tal diferendo permitirá apurar responsabilidades políticas no caso em apreço, sendo que PSD e CDS não é isso que procuram e não os preocupando que a exibição pública deste diferendo provoque, com estrondo, a queda da imagem de uma instituição milenária que, por ser também um pilar do Estado e um elemento estruturante da nossa soberania, deve ser preservada.

As audições destes generais mostram também as mazelas não apenas do Exército, mas de umas Forças Armadas que, por via das alterações legislativas de sucessivos governos, têm sido vítimas de um processo perigoso de governamentalização, quando não de partidarização, que se traduz, nomeadamente, na escolha das chefias militares e nas promoções entre oficiais generais, mas também na atribuição ao ministro da Defesa Nacional da responsabilidade de nomear e exonerar, por exemplo, os vice-chefes de Estado-Maior dos ramos, os comandantes operacionais dos três ramos, os comandantes das academias e da Escola Naval e o director do Hospital das Forças Armadas.

Destas audições fica também a pergunta: qual é o papel de um Chefe de Estado-Maior que perde a confiança no general comandante operacional que está na sua dependência hierárquica, mas cuja nomeação é da responsabilidade do Governo?

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