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A multiculturalidade e a capacidade da arte questionar o presente

Exposições «Terras e Raízes» em Corroios, «Brigada Naval» de Miguel Palma e «Cartas do Mau Encontro» de Emiliano Dantas em Lisboa, e «Transversalidades 2021 – Fotografia sem Fronteiras» em Braga.

Fotografia do portfolio «Las Catedrales de la Nostalgia» de Rodrigo Illescas. Exposição de fotografia «Transversalidades 2021 - Fotografia sem Fronteiras» no Teatro Municipal de Braga, até 30 de maio  <br /><br /><br /><br /> 
Fotografia do portfolio «Las Catedrales de la Nostalgia» de Rodrigo Illescas. Exposição de fotografia «Transversalidades 2021 - Fotografia sem Fronteiras» no Teatro Municipal de Braga, até 30 de maio  



 
Créditos / Rodrigo Illescas

«Terras e Raízes» é o título da exposição coletiva que vai estar na Galeria Municipal de Corroios1 até 18 de junho. As três artistas representadas nesta exposição são Erika Jâmece, Irene Felizardo e Leda Baltazar, tendo duas delas, Erika e Leda, origens culturais africanas e Irene nasceu em Portugal, mas desde muito cedo emigrou para França.

«Na exposição Terras e Raízes, os trabalhos das três artistas são apresentados, num ato de partilha sincera e profundo, abrindo as suas vidas e o seu lado mítico e insondável, em que a riqueza da fusão e da multiculturalidade são bem patentes… os seus trabalhos de expressão artística são um tributo à vida e à humanidade… fundindo influências multiculturais que a todos nos sensibilizam e enriquecem, passando a fazer parte do acervo da humanidade, pois a todos sem exceções, são dirigidos. Terras e Raízes é uma exposição inicial, a que outras seguirão, todas integradas como partes de um notável projeto de divulgação de arte», como refere o texto de Erika Jâmece. A organização da exposição é da AAGA – Associação de Apoio à Comunidade de Língua Oficial Portuguesa, com o apoio da Câmara Municipal do Seixal.

Exposição coletiva «Terras e Raízes» na Galeria Municipal de Corroios até 18 de junho / CMS
 
Créditos

No Clube Naval de Lisboa2, Miguel Palma3 apresenta a instalação «Brigada Naval», que pode ser visitada até 5 de junho. Esta exposição é organizada pela Ocupart – arte, que desenvolve projetos culturais em espaços improváveis e não convencionais. Segundo o texto do curador, Miguel von Hafe Pérez, o artista apropria-se de elementos encontrados no Clube Naval «para criar uma instalação que conjuga alguns dos princípios orientadores da sua prática artística, aqui em diálogo com elementos arquitetónicos e decorativos historicamente determinados».

Acerca da instalação apresentada no Clube Naval, o curador revela-nos que «é um barco à vela suspenso numa pequena grua. A embarcação, de construção americana e datada de 1943, tem como pano de fundo uma impressiva pintura mural apologética dos descobrimentos portugueses que terá sido realizada por altura da famosa Exposição do Mundo Português, realizada em 1940 na zona de Belém em Lisboa. Máquina de propaganda colonialista, a ideologia da exposição ressoa neste mural, agora curto-circuitado pela intervenção de Miguel Palma. Na verdade, o artista vai transformar aquilo que é uma embarcação de recreio numa peça híbrida por via de uma vela feita a partir de tecido de uma tenda militar. O carácter lúdico do barco fica em suspenso pela agressividade deste material militar, onde o artista desenha "marcações de vitória", que são ícones de abatimento de material inimigo (normalmente pintados em aviões e barcos de combate)».

A «Obra nostálgica, “Brigada Naval» fala-nos da perda da inocência, da necessidade de olhar o passado com sentido crítico e, em última análise, da capacidade de a arte erigir territórios que questionam o presente…» sugere ainda o curador da instalação de Miguel Palma.

Instalação «Brigada Naval» de Miguel Palma no Clube Naval de Lisboa até 5 de junho / CNL Créditos

O Museu do Aljube4, em Lisboa, apresenta a exposição de fotografia-instalação «Cartas do Mau Encontro», do fotógrafo Emiliano Dantas5, até 12 de junho. Num texto de artista é referido que os cartões de visita, álbuns, postais, cartazes eram «instrumentos imagéticos que tornaram a fotografia em uma ferramenta muito operativa para a propaganda colonial, criando, por um lado, a visualidade dos símbolos do progresso europeu, e por outro, desenhando as colónias como lugares exóticos», enquanto os mapas, segundo o fotógrafo, «serviram para o ministério das colónias dividir, invadir, organizar e tentar controlar cultural e economicamente o Outro, o suposto selvagem primitivo». 

Quanto às fotografias e mapas apresentados nesta exposição, segundo Emiliano Dantas, «trazem nas cores, nas linhas, no metal, nas junções, uma narrativa para despertar o olhar, os sentidos e a perceção dos processos de opressão e resistência».

Mafalda Peres Couto após uma visita que fez à exposição acompanhada pelo artista descreve-a como uma exposição de continuidade do seu projeto, apresentando «uma dualidade maravilhosa nas suas obras, entre a felicidade daqueles que fotografa, a beleza dos lugares e dureza das ideias que transmite», a qual, mesmo sendo uma exposição em que o antropólogo, fotógrafo e artista «nos mostre cartas de um mau encontro não deixa de ser um encontro necessário».

Nas obras apresentadas, «o artista coloca em justaposição não só conceitos passados e retificações presentes, mas também materiais como mapas, fotografias, folha de ouro e até mesmo linhas», assinalando ainda Mafalda Couto, que esta exposição nos leva «a questionar paradigmas e ideias/conceitos que devem e podem ser mudados sobretudo através da linguagem artística que tem esse poder não só de mudança mas de chegar à população em geral e de provocar o questionamento.»

Exposição de fotografia-instalação «Cartas do Mau Encontro», do fotógrafo Emiliano Dantas, no Museu do Aljube, em Lisboa, até 12 de junho /Emiliano Dantas Créditos

O Pequeno Auditório do Teatro Municipal de BragaPequeno Auditório do TMG - Rua Batalha Reis, 12 6300-668 Guarda. Horário: segunda a quarta-feira, 8h-18h; quinta e sexta, 8h-22h, e sábado das 9h às 13h. recebe a exposição de fotografia «Transversalidades 2021 – Fotografia sem Fronteiras» até 30 de maio. A exposição da décima edição do Concurso Transversalidades «reúne os portfólios vencedores de uma seleção de fotografias submetidas por cerca de 886 concorrentes, provenientes de 89 países, num total de 4.618 imagens, organizada em torno de quatro núcleos temáticos: Património natural; Paisagens e Biodiversidade; Espaços Rurais; Agricultura e Povoamento; Cidade e Processos de Urbanização; Cultura e Sociedade: Diversidade Cultural e Inclusão Social. A presente mostra faculta, assim, uma viagem por amplas e diversas geografias e permite ler e interpretar as paisagens naturais, económicas, sociais e culturais representativas de distintos contextos dos cinco continentes», segundo o texto da entidade organizadora.

Destacamos o trabalho do fotógrafo argentino Rodrigo Illescas, sobre o qual Eduardo Álvarez escreveu que, «através de uma linguagem requintada, teatral, quase cinematográfica, Illescas consegue transmitir ao espetador a perplexidade existencial; uma atmosfera invisível que anuncia uma sequência inesperada. Não sabemos se o que sucedeu ou o que vai acontecer depois do que vemos, será bom ou mau, mas o que sentimos é uma predisposição para completar a história com uma cena anterior ou posterior. Não importa que em alguma cena só possamos adivinhar um único fragmento de pele, que é suficiente para nos recordar a vulnerabilidade do humano face aos limites do que não se conhece». O fotógrafo Rodrigo Illescas foi o grande vencedor com o portfolio intitulado «Las Catedrales de la Nostalgia», um conjunto de fotografias recolhidas no Paraguai.

O projeto Transversalidades – Fotografia Sem Fronteiras é organizado pelo Centro de Estudos Ibéricos e teve início em 2011 com os objetivos de aproveitar o valor estético, documental e pedagógico da fotografia e através deste projeto valorizar os territórios com menos visibilidade e de fomentar o diálogo.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1. Galeria Municipal de Corroios – R. Cidade de Leiria 2855, 2855-367 Corroios. Horário: terça-feira a sábado, das 15h às 19h.
  • 2. Clube Naval de Lisboa-Doca de Belém, Av. Brasília, 1400-038 Lisboa. Horário: Quarta a sexta, das 17h às 21h, sábado e domingo, das 15h às 21h.
  • 3. Miguel Palma (Lisboa, 1964) vive e trabalha em Lisboa e é um artista português que expõe regularmente desde o final dos anos 1980. «Os temas do seu trabalho estão ligados à temporalidade, aos avanços tecnológicos, à resolução funcional dos objetos. A sua obra desenha-se sobretudo através de construções, mecanismos, acumulação e apropriação de objetos que recolhe. Trabalha em vídeo, desenho, colagens e principalmente instalação. O seu processo artístico insere-se num contexto de temáticas universais, onde a arte comunica um questionamento político e social da realidade contemporânea atual.» (texto do projeto de curadoria «ProjectoMap» da Associação Cultural Colectivo de Curadores)
  • 4. Museu do Aljube-Resistência e Liberdade – Rua de Augusto Rosa, 42 – Lisboa. Horário: terça a domingo, das 10h às 18h (última entrada 17h30).
  • 5. Emiliano Dantas, nasceu em Olinda-Pernambuco no Brasil, é fotógrafo desde 1998 e em 2003 despertou o gosto pela pesquisa de imagem, integrando várias equipes como fotógrafo de pesquisa antropológica. Em 2014 é docente das Faculdades Integradas Barros Mello/AESO, onde esteve até 2016, quando migrou para Portugal, para fazer o seu doutoramento. Em Lisboa, participou como assistente convidado na equipe docente do ISCTE-IUL, para as disciplinas de Antropologia e Imagem e na pós-graduação em Culturas Visuais Digitais. Já realizou algumas exposições, com fotografias de pessoas, suas habitações e a vida em sociedade de um modo geral, dando origem a publicações em diversos formatos.

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