E de súbito saiu de cena a podridão trazida parcialmente à superfície pelo muito pouco que ainda se conhece sobre os chamados «documentos Epstein». Os depravados, corruptos e predadores sexuais que neles constam assumiram agora a sua faceta de heróis salvadores da humanidade numa nova cruzada para tentar erradicar os hereges do planeta e fazer valer os inquestionáveis «valores ocidentais». Se possível, sobretudo, para tentar garantir a posse eterna e plena das terras e das riquezas mundiais que nos foram ofertadas por mandato divino.
A trama criada por um obscuro professor do ensino médio pedófilo, não muito inteligente mas com uma esperteza imensa e o dom inato da chantagem, é algo de tenebroso muito diferente do que já se conhecia. Não é uma sociedade secreta, uma máfia organizada, um culto, uma clique em busca de poder, uma fraternidade, uma entidade conspirativa ou golpista guiada por padrões comuns.
Tal como é possível apurar até agora, momento em que as malhas censórias tecidas pelo capitalismo clandestino dominante apertam cada vez mais a divulgação substancial da teia, os documentos Epstein põem a nu as alienações entranhadas na superestrutura globalista do sistema transnacional da «democracia liberal». Revelam os desvios comportamentais e a insensibilidade da elite mundial governante, corrupta, sem princípios e que abusa, sem pudor nem limites, sexual e socialmente, dos mais fracos, discordantes e indefesos. Os factos conhecidos demonstram que as âncoras deste sistema de poder absoluto, desde os regimes políticos, militares e financeiros dos Estados Unidos, Reino Unido e Israel a extractos das cliques governantes e diplomáticas de países da União Europeia e da NATO, se alimentam da guerra, do roubo indiscriminado de fundos nacionais, depósitos bancários e matérias-primas, do terrorismo, das mega fraudes fiscais, com desprezo absoluto pela vida humana, a lei e as instâncias internacionais. Façamos uma excepção para a Espanha de Pedro Sánchez, que dá uma lição de independência a todas as marionetas de Washington e Telavive.
Epstein tinha um enorme talento, neste ambiente marcado pelos atropelos neoliberais, para trabalhar os egos imensos, a gula, a ganância e a amoralidade das minorias influentes e determinantes, para quem o dinheiro e o poder valem tudo, sob a cobertura do conceito aberrante de mercado livre. E para manipular e tirar proveito desta ambição desmedida, organizava convívios de conluio e decisão nos quais os ilustres convidados podiam também refastelar-se em orgias sexuais, sobretudo de carácter pedófilo, que lhes permitiam dar largas às depravações e à impunidade de cada um e cada uma.
Neste quadro, as agências de inteligência faziam os seus jogos recorrendo aos eficazes instrumentos de que dispõem, desde escutas, filmagens, espionagem directa, criando um acervo de material de chantagem para que o sistema se alimentasse a si mesmo num doentio ciclo vicioso. Aliás, alguns dos documentos e o «Livro Negro» agora expostos, contra a vontade de Trump, estavam em poder do FBI há oito anos.
«Epstein tinha um enorme talento, neste ambiente marcado pelos atropelos neoliberais, para trabalhar os egos imensos, a gula, a ganância e a amoralidade das minorias influentes e determinantes, para quem o dinheiro e o poder valem tudo, sob a cobertura do conceito aberrante de mercado livre.»
Epstein funcionava assim como um mestre de cerimónias de um convívio global onde se cruzavam os altos e poderosos de todas as áreas de actuação – políticos, banqueiros, banksters, os ricos dos ricos, de Musk, Branson ao «benfeitor» Gates; congressistas, senadores, deputados, reitores de universidades da Ivy League, presidentes, ministros, príncipes, princesas, sheiks e emires; velhas famílias do establishment, CEO's, administradores, escritores, pivots de TV, comentadores, ideólogos, directores de jornais e jornalistas afamados; donos dos principais fundos abutres, celebridades do jet set, finórios da moda, vedetas de Hollywood, sem esquecer os gangues Rothschild, Rockefeller e Maxwell; e ainda os serviços secretos e dirigentes de Israel, até ao cargo de primeiro-ministro. Enfim, a nata da governação, da comunicação e da «cultura» do Ocidente.
Ehud Barak, o último chefe do sionismo trabalhista, um dos exterminadores do «processo de paz» e carrasco de Gaza, tinha «escritório» numa mansão de Epstein em Manhattan, Nova York. Barak solicitou ao anfitrião que lhe desse pareceres sobre os seus escritos públicos, incluindo o livro de memórias intitulado Meu País, Minha Vida: Lutando por Israel, Buscando a Paz. A «paz» que está à vista de todos.
Quanto a Robert Maxwell, imperador da imprensa/propaganda anglo-saxónica, tinha laços directos a Epstein através de uma filha, Ghislaine Maxwel, alcoviteira de luxo associada a este obscuro ex-professor. Está detida e viva, por enquanto. Maxwell era também um financiador directo do regime sionista; morreu prematuramente, e em condições misteriosas, em consequência do suspeito naufrágio do seu iate. No funeral, realizado em Jerusalém Ocidental, compareceram Shimon Peres, que foi primeiro-ministro e presidente de Israel, e dois ex-directores da Mossad.
Uma das figuras centrais dos documentos divulgados até ao momento é Peter Mandelson, também conhecido como «príncipe das trevas», por ter sido o principal conselheiro do vigarista e criminoso de guerra Anthony Blair na transformação do Partido Trabalhista britânico no novo «Partido Trabalhista» neoliberal. Mandelson idealizou e montou a campanha de calúnias contra o dirigente trabalhista de esquerda Jeremy Corbyn, que o forçou a abandonar a direcção do partido e o próprio partido.
«Ehud Barak, o último chefe do sionismo trabalhista, um dos exterminadores do "processo de paz" e carrasco de Gaza, tinha "escritório" numa mansão de Epstein em Manhattan, Nova York.»
No quadro da ligação íntima e directa que cultivavam, Mandelson informou Epstein cinco horas antes de a União Europeia anunciar, em plena crise de 2010, que iria desbloquear 500 mil milhões de euros para «salvar» a Zona Euro, mergulhada em crise existencial. Foi o maior delito de iniciados de que há memória.
Victoria Harvey, companheira nestas andanças de André, irmão do rei de Inglaterra, declarou um dia: «Quem não estiver nos documentos Epstein é porque é um looser» (fraco, incapaz, perdedor).
Epstein não era um frequentador entusiasta do Fórum de Davos, o cenáculo neoliberal globalista, onde «se perde muito tempo» mas, no entanto, «se encontram pessoas fascinantes».
Entre essas pessoas «fascinantes» e frequentadoras do Fórum Económico Mundial estavam o diplomata norueguês Roed-Larsen, um dos mediadores iniciais do Acordo de Oslo entre israelitas e palestinianos, e Børge Brend, que em Fevereiro renunciou ao cargo de presidente daquela instituição. Em tais ocasiões, de acordo com documentos tornados públicos, os convivas concluíram que «a ONU não serve para nada» e o direito internacional é «um entrave». O Fórum de Davos deve substituí-la e permitir que a elite mundial dite a sua lei, uma espécie de privatização dos mecanismos de gestão da legalidade internacional.
O primeiro ensaio desta «solução» é o chamado «Conselho de Paz» para Gaza, inventado por Trump e no qual os países que pretendam aderir serão obrigados a pagar mil milhões de dólares.
Trump e os outros
A divulgação dos documentos Epstein incidiu, sobretudo, no facto de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ser um dos participantes nos eventos proporcionados pelo «doutor financeiro para os ricos», como se intitulava o facilitador, na sua ilha privada de Little Saint-James. Nada que surpreenda: Trump tem o perfil ideal dos amigos e convivas depravados de Epstein.
Trump ficou colocado, deste modo, no epicentro do escândalo, apontado a dedo por adversários políticos que pouco ou nada diferem dele.
Vejamos o caso do casal Clinton. Ele, William, o carniceiro dos Balcãs que pulverizou a Jugoslávia a ferro, fogo e sangue, era uma espécie de convidado de honra e prestigiador dos saraus de Epstein na sua ilha, aos quais se seguiam voos em jactos privados para outros jardins de delícias. O ex-presidente democrata norte-americano era mesmo um dos amigos que sugeria nomes a convidar para os festins na ilha ou outros paradeiros. Ela, Hillary, esquartejadora da Líbia e da Síria, pertencia também ao círculo de amigos do mestre pedófilo, o qual, segundo a versão oficial, se suicidou na prisão em 10 de Agosto de 2019. Um suicídio muito conveniente.
Os Clinton continuam no escalão mais elevado da hierarquia do Partido Democrata, que agora reclama a sua superioridade moral para atacar Trump. Por muito que se esforce, esta outra face do partido Estado norte-americano nada tem de santidade em tão repelente evangelho.
Num email a Peter Thiel, chefe da empresa de corrupção e conspiração Palantir, financiada pela CIA, Epstein elogiou a «confusão no Médio Oriente», por ser tudo o que Obama queria. Por isso, acrescentou em relação ao processo sangrento que culminou com a entrega da capital da Síria à al-Qaida, «teremos de admitir que foi uma estratégia executada com brilhantismo» – obra lançada e chefiada no terreno por Hillary Clinton. Antes disso, a secretária de Estado de Obama tinha conduzido pessoalmente a criminosa implantação da anarquia terrorista na Líbia – transformado num país falhado.
Parece agora, no entanto, que ninguém se dava com Epstein, a não ser em encontros esporádicos, fugidios, mesmo fortuitos; ou, pelo menos, os seus amigos simulam que desconheciam as actividades de pedófilo e de proxeneta de luxo para as elites.
No entanto, é difícil acreditar que um qualquer frequentador das actividades deste facilitador das elites, que na sua ilha ajudava os ricos e os advogados de grandes fortunas a manter milhões e milhões de dólares à margem das leis fiscais, não conhecesse o seu comportamento pedófilo. Não era possível que ignorasse o facto de Epstein ter cumprido pena de prisão por abuso sexual de crianças e pornografia infantil entre 2009 e 2010.
«Como vai a tua vida afortunada e dissoluta?», perguntou-lhe, em 2017, o democrata e antigo secretário do Tesouro da Administração Clinton, Larry Summers. Ao que Epstein respondeu: «Quando nos encontrarmos vou esforçar-me por te fascinar com histórias loucas de Washington».
«Parece agora, no entanto, que ninguém se dava com Epstein, a não ser em encontros esporádicos, fugidios, mesmo fortuitos; ou, pelo menos, os seus amigos simulam que desconheciam as actividades de pedófilo e de proxeneta de luxo para as elites.»
Ariane de Rothschild, chefe do grupo bancário francês Edmond de Rothschild, mantinha amigáveis conversas com Epstein. «A turbulência na Ucrânia deve proporcionar-nos muitas oportunidades», dizia. E, por outro lado, depois do golpe em Tripoli, quando «os líbios passaram a ser "legítimos"», haveria de ter atenção especial aos milhões dos seus activos congelados. Epstein confessou-lhe então que «estava a trabalhar» com o MID, a direcção de inteligência militar de Israel, e também com a Mossad, para «identificar activos roubados e recuperá-los». Os serviços secretos israelitas, claro, negam que tivessem qualquer relação com Epstein. Sem dúvida um credível desmentido. Tudo isto se passava durante a administração democrata de Barak Obama.
É muito improvável que o conteúdo de milhões e milhões de documentos espalhados pelos armazéns e residências de Epstein venha a ser conhecido na sua plenitude e gere quaisquer medidas contra os predadores identificados. Os indícios de censura à documentação surgiram logo no início da divulgação, e de uma maneira que revelou o espírito doentio das próprias autoridades judiciais: muitos dos arquivos foram expostos de maneira a que seja possível identificar algumas vítimas, enquanto rostos e nomes de predadores são ocultados. Os abusadores não manifestaram qualquer piedade pelo sofrimento das crianças, ou mesmo adultos, que torturavam, meros objectos para satisfação de depravações humanas, o que corresponde à recrudescência do desprezo pelas pessoas nas deformadas sociedades modernas, como é próprio do sistema capitalista. «Sobretudo nunca peçam desculpa», era o conselho habitual de Epstein aos seus ilustres clientes.
A nova hora dos heróis
Toda esta cáfila de delinquentes que sofrem de comportamentos desviantes saltaram, num ápice, da secção de escândalos da comunicação social globalista para a dos heróis. Bastou-lhes seguir o criminoso Benjamin Netanyahu, também relacionado com Epstein e a contas com um mandado do Tribunal Penal Internacional, na injustificada e ilegal guerra contra o Irão.
Nesta transição temática existe, em comum, o desrespeito pela lei e pelo Direito Internacional – uma recomendação de Epstein aos seus ilustres hóspedes, de modo a entregar ao Fórum Económico Mundial (de Davos) a gestão dos assuntos mundiais.
Caprichando nas sevícias contra civis, entre os quais centenas de crianças, os heróis que fossavam em orgias pedófilas estão, no entanto, a sentir mais dificuldades na guerra do que aquelas a que o estatuto de impunidade os habituou.
Pela primeira vez, o Estado sionista prova a sério do veneno letal que durante quase 80 anos tem forçado outros a ingerir, sobretudo os palestinianos. O Irão independente dá sinais fortes de continuar a resistir, como conclui a própria imprensa de «referência» do regime norte-americano ao reconhecer que nenhuma das bases militares dos Estados Unidos em países do Golfo Árabe-Pérsico está habitável e funcional.
Trump, sem rumo e continuando a crer no realismo das suas próprias e voláteis ilusões, anda numa dobadoira prometendo o ataque final contra Teerão enquanto, juntamente com o aparelho sionista de agressão, vai falando em negociações e ficando com escassez de munições numa guerra de desgaste que parece não ser-lhes favorável.
Aos heróis directamente envolvidos nos ataques juntam-se os outros de sempre, com maior ou menor discrição, no apoio ao crime sangrento. Entre eles, o Governo de Portugal, cúmplice da agressão ao disponibilizar a Base das Lajes como plataforma de guerra. A vida dos portugueses corre sérios riscos em consequência da cegueira dos seus governantes, do seguidismo e do papel de capacho dos Estados Unidos e do selvático sionismo. Culpemos apenas Montenegro e os seus asseclas do «arco da governação» pelo drama que é o facto de o território português estar sob mira do Irão – por muito que tentem fazer-nos crer que isso não acontece.
«Pela primeira vez, o Estado sionista prova a sério do veneno letal que durante quase 80 anos tem forçado outros a ingerir, sobretudo os palestinianos.»
Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é. Teerão apenas tem apoiado os massacrados palestinianos e outros povos desprotegidos da região, numa estratégia que manteve Israel em respeito.
Se levarmos Jeffrey Epstein a sério, amanhã não será a véspera do dia em que o assassino Donald Trump cai do trono, apesar das ameaças que surgem de vários azimutes e que não passam disso: ameaças verbais. Nas conversas íntimas que tinha com o confidente Peter Mandelson, o pedófilo e proxeneta de luxo gabava-se do poder que tinha sobre Trump: «sou o único que pode fazê-lo cair».
«Aos heróis directamente envolvidos nos ataques juntam-se os outros de sempre, com maior ou menor discrição, no apoio ao crime sangrento. Entre eles, o Governo de Portugal, cúmplice da agressão ao disponibilizar a Base das Lajes como plataforma de guerra.»
Verdade, soberba, farronca ou confiança de chantagista emérito, Epstein já cá não está; mais do que suicídio, talvez alguém o tenha «suicidado». São coisas que acontecem nos meandros da «democracia liberal».
Além disso, mesmo que Trump perca o pé, não estamos seguros de que não seja substituído por outro ou outra da mesma laia. Em boa verdade, apesar dos que gostam de espalhar ilusões para aparentar uma absurda superioridade moral e política, Trump não é apenas a pessoa de um sociopata, é o próprio sistema. O sistema de «democracia liberal» aparentada com o fascismo no qual os Epsteins desta vida podem ser mestres ou, em português anglo-saxónico, superdotados influencers globais.
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