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Análise

Ataque a Infantino não esconde a convivência com a financeirização do futebol

A UEFA, a Concacaf e a AFC emitiram uma carta aberta em oposição a Gianni Infantino. Estruturas invocam o cariz popular do «desporto rei», mas são cada vez mais coniventes com fundos de investimento de risco que destroem o futebol popular. 
 

Na senda da mais recente polémica em torno da privatização do Mundial da FIFA, um plano secreto congeminado por Gianni Infantino, as confederações asiática (AFC), norte‑americana (Concacaf) e europeia (UEFA) divulgaram uma carta aberta dirigida à «família do futebol».

O documento, que opta por não mencionar directamente o presidente da FIFA, contesta o estilo de liderança da entidade máxima do futebol mundial e afirma que «o futebol é a maior paixão partilhada do mundo», e que «não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição», mas sim «aos jogadores, aos adeptos, aos clubes, às Associações Membro e a todas as instituições encarregues de salvaguardar o seu futuro».

Neste sentido, as três estruturas continentais afirmam que o crescimento da modalidade «nunca foi obra de um único indivíduo», mas fruto de um trabalho colectivo realizado por diversas entidades. As críticas vão mais longe com as três confederações a reiterarem que «já pediram a distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA para fortalecer ainda mais o investimento no desenvolvimento das Associações Membro».

Apesar do ênfase na questão monetária, lê-se no documento que a motivação da carta pretende-se com «algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para liderá-lo», numa crítica indirecta a Infantino.

Advogar o cariz popular do futebol num contexto de financeirização

A verdade é que à medida que o tempo passa e as polémicas em torno da FIFA e de Gianni Infantino se multiplicam, vai ficando cada vez mais claro que da parte da UEFA há um posicionamento táctico que aproveita o sentimento dos adeptos como forma de descredibilizar a actual direcção que dirige a estrutura máxima da modalidade.

Tanto nesta carta conjunta como em comunicados individuais, a UEFA tem invocado o carácter popular do «desporto rei», e manifestado uma oposição aos interesses mercantilistas que o cercam cada vez mais. Acontece, no entanto, que é também nas malhas da confederação europeia que essa contradição se tem acentuado cada vez mais.

De acordo com a PitchBook, uma empresa que recolhe dados e informação de mercado direccionada para investidores, mais de 36% dos clubes de futebol europeus das cinco principais ligas, no início da época de 2025/2026, contavam com o apoio financeiro de fundos de capital privado, capital de risco ou dívida privada.

Veja-se que neste contexto, clubes centenários passam a ser encarados como activos financeiros onde a lógica de mercado se sobrepõe à tradição desportiva, onde os valores dos clubes são desvirtuados e os adeptos encarados como meros clientes. Exemplos não faltam. Fundos como a Oaktree Capital, que passou a controlar o Inter de Milão através de uma tomada hostil; a Elliott Management, que fez o mesmo com o AC Milan; e a Clearlake Capital, sócia maioritária do Chelsea, operam com uma mentalidade de private equity, ou seja adquirem clubes em dificuldades financeiras, reestruturam a sua gestão e procuram a sua valorização para revenda futura.

Além destes casos, há ainda gigantes como a CVC Capital Partners que injectaram milhões nas ligas espanhola e francesa em troca de fatias dos seus negócios comerciais, enquanto a Arctos Partners, agora parte da KKR, detém participações minoritárias no PSG, Liverpool e Atalanta. Este último caso começa a ser cada vez mais um padrão, verificando-se a normalização da propriedade multi-clube, como o City Football Group, detido pela Abu Dhabi United Group, Silver Lake Partners, CITIC Group, ou a Red Bull GmbH, detida pela família Yoovidhya e Mark Mateschitz.

Ante estes exemplos, entre outros que começam a ser cada vez mais a norma, a UEFA actua como uma mera entidade reguladora incapaz de fazer frente aos grandes grupos económicos. Através do Fair Play Financeiro a UEFA criou um mecanismo que institucionaliza a desigualdade e protege os grandes investidores, limitando-se a exigir meros equilíbrios contabilísticos facilmente contornáveis através de manobras financeiras.

O fosso entre estas estruturas privadas e os clubes que se mantêm na posse dos sócios e adeptos começa a ser cada vez maior, uma vez que além da ausência de bloqueios e fiscalização efectivos, o dinheiro da Liga dos Campeões não só acaba por ser distribuído, na sua esmagadora maioria, pelos os mesmos, como aumenta o valor de mercado desses clubes, gerando um ciclo vicioso.

Perante este elemento, é com estranheza que se tem lido documentos da UEFA que afirmam coisas como o futebol «não pertence[r] a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição», quando no seu seio há uma tendência crescente que contraria essas mesmas posições.

Sendo certo que da parte de Infantino o que estava em causa era a privatização da maior competição do mundo, da parte da UEFA também há um progressivo afastamento do futebol das suas bases populares. Trata-se, portanto, de uma luta política no seio das instituições que gerem o futebol, na qual o legítimo interesse dos adeptos torna-se apenas arma de arremesso. 
 
A propósito deste tema, no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, está neste momento uma exposição intitulada «Fintar a Vida: Caniço, Futebol e o Estado Novo», que nasce da curadoria de Nuno Domingos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e Gonçalo Amaro, director do Museu. Nesta exposição lê-se o seguinte trecho de um poema de José Craveirinha que diz: «O futuro do futebol está nos subúrbios. / Desporto nos subúrbios é futebol, só futebol. / Futebol jogado apenas num campo. / Campo de areia. Campo sem bancada. / Mas campo cercado de zinco. E lá que se tenta no fim-de-semana ‘fazer futebol’».

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