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A ascensão e o declínio dos EUA

Os EUA chegam aos 250 da sua existência numa fase de declínio, no plano económico, social, político e até militar. Declínio que as suas classes dominantes se recusam a aceitar e que procuram contrariar por todos os meios.

Créditos CJ Gunther / EPA

A ocupação europeia da América do Norte e subsequentes 250 anos dos Estados Unidos da América são um exemplo claro de desenvolvimento de um sistema capitalista desde a fase de acumulação primitiva até à fase imperialista, com tudo o que isso implica de expropriação e exploração, desigualdade e opressão, de violência e guerra.

Uma violência, desde logo, quando começaram a chegar os colonos europeus com as suas armas, doenças e cultura de conquista, legitimada por pretensa superioridade racial. As Américas pré-Colombianas estavam longe de serem terras desocupadas ou habitadas por populações humanas num estádio primitivo. Havia uma grande diversidade de culturas, uma ciência e tecnologia bem desenvolvidas, e sistemas económicos e políticos complexos. O colonialismo de povoamento trouxe a marginalização, expropriação, deslocamento em massa e a morte. Uma limpeza étnica das populações nativas responsável por um colapso demográfico na ordem dos 90% face às populações pré-colombianas.

Em paralelo, na Grã-Bretanha, o processo de privatização da terra e expulsão dos camponeses para as cidades contribuiu não só para garantir mão-de-obra barata para a indústria emergente no centro do império, mas também para alimentar a expansão colonial nas Américas. Em Julho de 1776, já a população das treze colónias britânicas na América do Norte atingia os dois milhões de colonos mais meio milhão de escravos, face a cerca de 8 milhões na Grã-Bretanha. A vida económica colonial correspondia a uma sociedade proto-capitalista, assente na propriedade privada e na produção e troca de mercadorias. Os produtores, comerciantes e donos de terra sentiam crescentemente os limites colocados pelo império britânico na forma de impostos, taxas aduaneiras, e regras comerciais. Estava gerado o conflito entre os interesses da classe burguesa emergente nos EUA e a monarquia britânica, que a Guerra da Independência. Lénine refere-se a ela como «uma das grandes guerras, verdadeiramente libertadoras, verdadeiramente revolucionárias». Mas não obstante a retórica do Iluminismo espelhada na Declaração de Independência —«todos os homens são criados iguais, e são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade»—, a nova Constituição institucionaliza a escravatura e alienava as populações nativas.

O tráfico transatlântico de escravos para a América do Norte iniciou-se no século XVII, mas foi no século seguinte que se deu o grande fluxo. Estima-se que dos mais de 12 milhões de africanos transportados para as Américas como escravos (entre 1525 e 1866), cerca de 2 milhões tenham morrido na «passagem do meio». Dos sobreviventes, apenas 4% foram levados para o actual território dos EUA. Em 1808, a importação de escravos tornou-se ilegal nos EUA, mas o tráfico doméstico continuou.

«As Américas pré-Colombianas estavam longe de serem terras desocupadas ou habitadas por populações humanas num estádio primitivo. Havia uma grande diversidade de culturas, uma ciência e tecnologia bem desenvolvidas, e sistemas económicos e políticos complexos.»

A poucos meses do início da Guerra Civil Americana (1860-1865), existiam cerca de 3,5 milhões de escravos no Sul; a população total nessa região era de 9 milhões. A secessão dos estados esclavagistas do Sul (a Confederação), no seguimento da eleição de Abraham Lincoln como presidente, em 1861, foi o culminar de uma série de conflitos políticos entre as duas regiões com sistemas económicos contrastantes. Nos Estados do Norte (a União), desenvolvia-se rapidamente uma sociedade industrial capitalista, assente numa classe trabalhadora «livre» (num duplo sentido, podendo vender a sua força de trabalho a qualquer capitalista e obrigado a fazê-lo por estar destituído de meios de produção). No Sul predominava a produção agrícola, em plantações de tabaco, arroz e algodão, assente na mão de obra de escravos.

Os sistemas económicos do Norte e Sul entram em conflito em torno dos novos territórios a oeste, em particular estes poderem ou não ser estados esclavagistas. A plataforma eleitoral de Lincoln não se propunha abolir a escravatura onde ela estava estabelecida nos estados do Sul, mas sim limitá-la a estes estados, evitando assim a sua expansão para os territórios a oeste.

A Guerra Civil foi uma das guerras mais sangrentas da História até então, com um total de 600 mil mortos numa população de 30 milhões. É durante a guerra que Lincoln emite a Proclamação de Emancipação (1863) declarando livres mais de 3,5 milhões de escravos nos estados confederados. Marx descreve-a como «o mais importante documento na história dos EUA desde o estabelecimento da União, equivalente ao rasgar da velha Constituição». A escravatura só é efectivamente abolida em todo o país com a aprovação da 13.º Emenda da Constituição, ratificada já finda a guerra. Mas o racismo e discriminação continuaram sendo um eixo estruturante da sociedade até aos dias de hoje, e com particular acuidade até às grandes lutas pela igualdade da década de 1960s.

Após a vitória da União na Guerra Civil, a balança do poder político tornou-se favorável aos interesses económicos do Norte. A guerra havia estimulado a industrialização da produção de armamento, mas dá-se também um grande desenvolvimento da grande indústria e transporte ferroviário. No pós-guerra, formam-se grandes monopólios no sector petrolífero, na produção do aço, e no sector financeiro.

Beneficiando dos seus enormes recursos naturais e dum relativo isolamento face ao centro capitalista europeu, os EUA tornam-se, em finais do Século XIX, numa grande potência económica mundial. Em 1890, o seu PIB ultrapassa o da Grã-Bretanha, tornando-se o maior do mundo (posição cimentada após a Primeira Guerra Mundial). O capitalismo estado-unidense atingia a sua fase imperialista. Há um investimento crescente de capital no Caribe, América Latina, e Ásia-Pacífico. Entre 1798 e 1895, os EUA já tinham levado a cabo mais de 103 intervenções noutros países para impor os seus interesses. Em 1898, ensaia um confronto com outra potência imperialista na guerra Hispano-Americana, após a qual os EUA assumiram o controlo de Cuba, Porto Rico, Guam e Filipinas (onde de seguida reprimiram de forma particularmente sangrenta um movimento independentista). O país fundado por um movimento anti-colonial transformava-se ele próprio numa potência imperial.

A guerra sempre fez parte da matriz dos EUA. Se contarmos todas as operações militares em que os EUA estiveram envolvidos desde a sua independência, o país esteve em guerra durante 92% da sua história, deixando apenas cerca de 20 anos de paz desde 1776. Após a II Guerra Mundial, da qual saiu fortalecido face aos seus rivais europeus, o grande capital dos EUA afirmou a sua hegemonia no seio do mundo capitalista. Para combater o poderoso ascenso do movimento de libertação nacional e social (revoluções socialistas, crise e derrocada dos impérios coloniais europeus), os EUA subordinam as restantes potências imperialistas e desencadeiam uma contra-ofensiva global, que ficou conhecida como Guerra Fria.

Hoje os EUA têm cerca de 750 bases militares em 80 países e territórios estrangeiros (cerca de 80% de todas as bases militares em território estrangeiro, a nível mundial). Em 2025, o seu orçamento militar superava os 900 mil milhões de dólares, representando cerca de um terço da despesa militar global, e quase o dobro da soma das despesas da China e Rússia. Apesar do seu claro domínio militar, são muitos os sinais de perda de hegemonia mundial em termos económicos.

«A guerra sempre fez parte da matriz dos EUA. Se contarmos todas as operações militares em que os EUA estiveram envolvidos desde a sua independência, o país esteve em guerra durante 92% da sua história, deixando apenas cerca de 20 anos de paz desde 1776.»

A nível doméstico, a concentração de capital tem acelerado drasticamente, levando a um dos maiores níveis de desigualdade económica entre as nações desenvolvidas: o 1% mais rico da população detém quase 32% da riqueza do país (55 biliões de dólares), um valor equivalente ao da riqueza de 90% da população. Politicamente, o país encontra-se polarizado, havendo uma desconfiança crescente nas instituições políticas e nos grandes monopólios. Os movimentos de massas contra a exploração e militarismo, e em defesa da democracia e justiça social têm ocorrido esporadicamente. Mas são sustentados por alianças pontuais ou por forças políticas que não contestam o sistema de poder, não tendo por base estruturas orgânicas que garantam um trabalho de consciencialização e mobilização mais sistemáticos. As práticas corruptas e autoritárias de Trump e Co. exigem a construção de uma ampla frente, que vá além da mera alternância entre dois partidos representando diferentes facções da classe dominante, e que lute por uma efectiva mudança do sistema democrático e económico.

Os EUA chegam aos 250 da sua existência numa fase de declínio, no plano económico, social, político e até militar. Declínio que as suas classes dominantes se recusam a aceitar. E que procuram contrariar por todos os meios, gerando os imensos perigos de guerra e confrontação global com que hoje a Humanidade está confrontada.

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