Em entrevista à agência Anadolu, Francesca Albanese alertou que o nível de destruição, a fome persistente e a deterioração das condições nos territórios palestinianos ocupados exigem medidas que vão além da condenação diplomática.
Quando a guerra genocida levada a cabo por Israel entra no quarto ano, a situação na Faixa de Gaza está «para lá do que as palavras podem descrever», disse, questionando a resposta dada pelo mundo e o alinhamento de certos governos com Israel.
Albanese disse que a caracterização dos palestinianos como «sobreviventes do genocídio» pode ser enganadora, passando a ideia de que o perigo acabou, quando «70% da faixa está sob controlo do exército, que está a arrasar tudo o que pode».
Entre destruição e fome
O alerta dado por Albanese coincidiu com as afirmações da relatora especial da ONU para o direito à alimentação, Sofía Monsalve Suárez, que enfatizou o facto de a ajuda humanitária não estar a entrar livremente no enclave ou nos níveis requeridos, agravando a crise alimentar que os palestinianos enfrentam.
Em declarações à Al Jazeera esta quarta-feira, Monsalve Suárez alertou que a persistência das restricções à ajuda humanitária está a exacerbar a «crise humanitária» na Faixa de Gaza.
A funcionária das Nações Unidas afirmou que a ajuda não está a chegar aos palestinianos com a liberdade necessária nem em quantidades suficientes, mantendo-se níveis elevados de insegurança alimentar em toda o território.
De acordo com a Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC), prevê-se que mais de 1,4 milhões de pessoas – cerca de 67% da população do enclave – enfrentem insegurança alimentar aguda (fome), ao nível de «crise» ou pior, entre Julho e Dezembro deste ano.
Destruição continua
Apesar do anúncio de cessar-fogo, há um ano, Israel violou-o de forma sistemática e, desde então, foram mortos pelo menos 1467 palestinianos e 5161 ficaram feridos no território.
Questionada sobre o genocídio em Gaza, Albanese estabeleceu comparações com o extermínio de povos indígenas no período colonial, nomeadamente o dos povos nativos das Américas ou dos povos aborígenes da Austrália. E sublinhou que a forma como este genocídio será lembrado «depende de quem escreve a história». «Neste momento, não sabemos. Não sabemos porque estamos numa encruzilhada», declarou.
Albanese referiu-se também a Gaza como espaço de uma confrontação mais ampla entre duas forças opostas: uma que procura dar continuidade ao genocídio, à exploração e ao apagamento da Palestina, e outra que o procura travar.
Colocou os EUA, Israel e os seus aliados no primeiro campo, enquanto no lado oposto estão sobretudo os povos e alguns governos.
A relatora especial disse ainda que o genocídio em Gaza alterou a «percepção pública», tendo sublinhado que «não se pode massacrar crianças e fazer-se de vítima», que é isso que os dirigentes israelitas fazem e que alguns na Europa copiam, sem que os seus argumentos se aguentem junto da opinião pública.
Cisjordânia ocupada cada vez mais atacada
Albanese chamou também a atenção para a Cisjordânia ocupada, onde a situação se deteriora cada vez mais, entre assassinatos, detenções arbitrárias, demolições e restricções impostas às comunidades palestinianas.
Desde o início da guerra genocida contra a Faixa de Gaza, os ataques de colonos e tropas israelitas aumentaram na região, incluindo Jerusalém Oriental, tendo provocado pelo menos 1210 mortos e 13 350 feridos. Cerca de 26 mil palestinianos foram detidos no mesmo período.
Neste contexto, Albanese congratulou-se com as medidas anunciadas por 12 países ocidentais, no sentido de restringir as relações comerciais com os colonatos e postos avançados ilegais, mas questionou a abrangência da sua aplicação efectiva.
Críticas à política norte-americana
Abordando as relações entre os Estados Unidos e a Europa, Francesca Albanese afirmou que a guerra contra Gaza expôs o custo da dependência europeia em relação a Washington.
Também instou os governos de países no Médio Oriente a encararem seriamente as ligações entre a política externa norte-americana e o projecto do «Grande Israel», alertando que já há indícios da sua implementação e não apenas na Palestina.
Sanções dos EUA
Albanese também abordou as sanções que os EUA lhe impuseram em Julho do ano passado, depois de Marco Rubio a ter acusado de levar a cabo uma «campanha de guerra política e económica» contra os EUA e Israel.
A relatora explicou que as sanções lhe limitam o acesso a serviços bancários e financeiros, e lhe afectam o trabalho, a possibilidade de viajar e as despesas do dia a dia.
Neste momento, não pode entrar nos Estados Unidos. «As sanções impedem-me de exercer as minhas funções como representante da ONU, como especialista das Nações Unidas e como mãe. Tudo está comprometido», disse.
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