A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou para «nível de criticidade» o risco de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026.
Num relatório reservado enviado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, o órgão aponta para uma escalada das pressões do governo de Donald Trump sobre o Brasil e relaciona a actuação de Washington com uma estratégia mais ampla para reorientar politicamente a América Latina, refere o Brasil de Fato.
O documento, intitulado «Ameaças ao processo eleitoral de 2026», foi encaminhado às autoridades no fim de Agosto e as informações nele contidas foram reveladas este sábado pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo.
De acordo com o relatório, há uma «tendência de escalada de pressão sobre o Brasil» e uma «intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA», ainda que dentro de um padrão histórico de influência norte-americana sobre a região.
A texto da Abin – indica a fonte – não se refere a manipulação das urnas ou a alteração do resultado eleitoral, mas aborda a possibilidade de pressões políticas, económicas e diplomáticas interferirem no ambiente institucional e no debate público durante o processo eleitoral.
A agência civil brasileira situa essas acções no contexto da estratégia adoptada pelo segundo governo de Trump para reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina.
De acordo com a análise, documentos estratégicos divulgados pelo governo norte-americano entre Novembro de 2025 e Maio deste ano apontam como objectivos reduzir a influência de potências consideradas rivais e impedir o seu acesso a «ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas» da região.
A Abin identifica a China como um dos principais alvos dessa política, afirmando que Washington pretende ampliar o seu controlo directo ou indirecto sobre esses recursos, seja por via do governo norte-americano, seja com recurso ao capital privado do país.
Apoio a governos conservadores
O relatório dedica atenção especial à actuação do secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos EUA, Marco Rubio, cuja política para a América Latina tem um componente ideológico e visa «influenciar e reorientar a política externa dos países da região».
Essa estratégia passaria por afastar os países latino-americanos da China e promover uma reorientação política interna «por meio de apoio à ascensão de governos conservadores».
A agência cita uma audiência de Rubio no Senado norte-americano, em Junho, na qual o secretário relacionou a recuperação da hegemonia dos Estados Unidos na América Latina à presença de governos alinhados a Washington.
Na ocasião, Rubio afirmou que a região tinha passado a contar com diversos governos «amigáveis» para os Estados Unidos durante o segundo mandato de Trump, apontando Brasil, Colômbia, Cuba, Nicarágua e Venezuela como excepções.
O documento também regista declarações de Rubio a responsabilizar o presidente Lula da Silva pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, sob a alegação de que o Brasil não teria negociado «de boa-fé».
Para a Abin, essa abordagem atribui carácter pessoal às pressões sobre o país e tem potencial para repercutir no debate público brasileiro durante o período eleitoral.
Brasil, um alvo por defender autonomia estratégica
No entender da agência, o Brasil ocupa uma posição particular na estratégia dos Estados Unidos por ter um governo com «maior disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica» face às pressões de Washington por concessões e realinhamento geopolítico, indica o Brasil de Fato.
Mesmo após momentos de distensão nas relações entre Lula e Trump, as medidas adoptadas pelos Estados Unidos desde Maio apontam para uma tendência de aumento das pressões, de acordo com o relatório.
Entre os episódios referidos estão a tentativa de enquadrar organizações criminosas brasileiras como terroristas e as sanções anunciadas em Julho contra dois brasileiros e empresas sediadas no Brasil e em Portugal, acusados pelo governo norte-americano de ligações a redes de lavagem de dinheiro relacionadas ao Primeiro Comando da Capital.
Para a Abin, essas sanções representaram uma «mudança de fase» porque fizeram a pressão dos Estados Unidos produzir efeitos concretos sobre pessoas e empresas brasileiras.
«Com isso, a ação de interferência externa dos EUA passa a incidir diretamente sobre relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar, operações internacionais e exposição de terceiros a riscos de sanções secundárias», diz o trecho do relatório divulgado pela jornalista da Folha de S. Paulo.
De acordo com a análise, a estratégia ocorre de forma «gradual, combinada e adaptativa», com a associação de organizações brasileiras a ameaças à segurança nacional norte-americana, seguida de medidas capazes de produzir efeitos sobre empresas, bancos e outras instituições do país sul-americano.
A agência alerta que este tipo de sanção pode levar agentes económicos brasileiros e estrangeiros a alterar decisões por receio de perder acesso ao sistema financeiro dos EUA ou de serem atingidos por sanções secundárias.
EUA fizeram exigências sobre eleições brasileiras
O relatório também se insere num contexto de atritos entre Brasília e Washington directamente relacionados com as eleições de 2026.
Em negociações realizadas o ano passado, o governo de Trump apresentou ao Brasil uma minuta de declaração conjunta que previa um compromisso brasileiro de não deter, prender ou limitar «arbitrariamente» a participação de «dissidentes políticos» no processo eleitoral.
A proposta dizia que o Brasil deveria comprometer-se a realizar eleições «livres e justas», e a garantir a participação dessas pessoas na contenda.
Na quinta-feira passada, Lula da Silva afirmou em entrevista à rádio Itatiaia que a proposta se tornou «arquivo morto» para o governo brasileiro. O presidente também rejeitou a possibilidade de conceder aos Estados Unidos tratamento prioritário no acesso às riquezas minerais do país.
O relatório reservado – lembra a fonte – aprofunda uma preocupação que já tinha aparecido em análises públicas da Abin, nomeadamente num documento divulgado este ano sobre os desafios de inteligência para 2026.
Nele, a agência apontou a interferência externa como risco à soberania e alertou que a combinação de dependência tecnológica, desinformação, espionagem e coerção pode permitir que actores estrangeiros influenciem o debate público e processos de decisão no Brasil.
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