A hipocrisia também mata

Depois de a União Europeia ter subornado a Turquia para travar os que fogem da guerra, este ano pode vir a ser o mais mortífero no Mediterrâneo

Refugiados sírios numa embarcação da Guarda Costeira grega após serem resgatados no Mediterrâneo, junto a Lesbos
Refugiados sírios numa embarcação da Guarda Costeira grega após serem resgatados no Mediterrâneo, junto a LesbosCréditosAndrew McConnell / Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

Os dados divulgados na terça-feira pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) puseram a nu que o drama das centenas de milhares de migrantes e refugiados que, anualmente, procuram a Europa continua.

Nos primeiros nove meses do ano, atravessaram o Mediterrâneo 300 mil pessoas, metade das quais provenientes de apenas três países: Síria (28%), Afeganistão (14%) e Iraque (9%). Em 2010, antes do início da agressão à Síria, existiam 28 mil refugiados sírios em todo o mundo, número que chegou a perto de 4 milhões em 2014, a que se somavam outros 7,5 milhões de deslocados internos.

Estes três primeiros trimestres de 2016 mostram números muito abaixo do ano passado, em que, recorde-se, mais de um milhão de pessoas tentaram atravessar o Mediterrâneo. Mas o que a estatística mostra na verdade, após uma leitura atenta, é que foram as chegadas à Grécia que diminuíram bruscamente, particularmente a partir de Março, data do acordo entre a União Europeia (UE) e a Turquia. A troco de 6 mil milhões de euros, os migrantes chegados às ilhas gregas passaram a ser enviados para a Turquia e postos em lista de espera.

Para lá de uma gritante hipocrisia, fica evidente que o acordo UE-Turquia não é mais que um «pagar para não ver» as consequências das acções de desestabilização do Médio Oriente, com a participação activa de vários países europeus. Do que se trata é de subornar o porteiro para que não deixe entrar os que fogem das bombas de quem paga – ainda esta semana, o ministro da Defesa do Reino Unido reconheceu a participação de drones da RAF (Força Aérea britânica) num dos mais recentes bombardeamentos na Síria.

Mas o resultado que é, provavelmente, mais chocante nesta política de desresponsabilização chega nos números de mortos e desaparecidos enquanto tentavam dar o salto até à costa europeia. Se o número global de refugiados e migrantes baixou, até Setembro, os que ficaram pelo caminho são quase tantos como em todo o ano de 2015. Nas palavras de um porta-voz do ACNUR, «neste ritmo, 2016 será o ano mais letal já registrado no Mar Mediterrâneo».

Como vimos no passado, o efeito prático do levantamento de barreiras a quem foge da guerra é aumentar o risco de que a sua viagem termine a meio, de forma trágica.

Foi o que, até Setembro, aconteceu a 3211 pessoas que tentaram atravessar o Mediterrâneo em busca de um dia-a-dia que não seja vivido ao som de tiros e explosões.