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Regresso ao infinito!

A memória dos mestres do jazz cósmico no mais recente álbum de originais dos enigmáticos King Khan & The Shrines.

King Khan & The Shrines
King Khan & The ShrinesCréditos / Facebook

Por detrás de uma qualquer paixão há sempre uma história e esta que vos trago não é diferente. Há uns anos atrás, a caminho das férias com uns amigos para quem era dificil demais virar as costas a uma boa noite de farra e música, parámos num festival de Verão alentejano. O plano original não era aquele mas ficar de fora não era hipótese. Afinal éramos um grupo de amigos e ali estava uma nova ocasião para dar uso a máximas antigas.

Depois de entrarmos algo de estranho aconteceu, quando o ritmo primitivo de uma bateria que marcava o seu rock com a mecânica dançante da soul me atraiu como um íman gigante que em cada batida me engolia para dentro da tenda, onde me esperava uma das mais memoráveis actuações a que assisti. Em palco um grupo de gajos semi-selvagens atiravam-nos com uma explosiva mistura de rock, soul e rhythm n blues que tomou de assalto a multidão que acorria à tenda debaixo de um céu alentejano. O suor era agora parte do som e os risos faziam parte da paisagem.

No palco, uma figura meio louca dava corpo a todas as referências que alimentam os sonhos juvenis dos amantes do lado negro da música e os golpes de bateria, guitarras e teclado, faziam crescer um ritual frenético misto de voodoo e rock n roll num exorcismo de todos os blues do mundo. O seu nome exótico parecia retirado de um filme de Tarantino, ou podia ser ele próprio um gigante kebab assassino, vindo de um qualquer sci-fi série Z made in Bollywood? Não importava , desde então tornou-se objecto de culto… eram os insanos King Khan & The Shrines.

King Khan é uma das mais misteriosas figuras do universo da chamada música alternativa dos últimos anos. Nascido no Norte da Índia, emigrou com os seus pais para o Canadá quando tinha 12 anos onde cresceu e se alimentou de cultura pop, cinema underground e música negra. Anos mais tarde move-se para Berlim com a sua família onde actualmente reside e continua a explorar as suas multiplas personalidades musicais, mas também projectos de activismo e solidariedade global, mas já lá vamos.

Nascido no submundo do garage rock, essa cave imensa onde o rock n roll , a soul e o psicadelismo se fundem para criar uma banda sonora explosiva para adolescentes de todas as idades, este indo-canadiano e cidadão do cosmos desdobra-se há vários anos em múltiplos disfarces para se entregar às suas paixões caleidoscópicas que acabam por derrubar barreiras e preconceitos. Assumindo que é da música negra que vem o rock n roll, basta pensarmos em Little Richards ou Chuck Berry, já para não falar das referências essenciais de todo o universo do rock que são Muddy Waters, Howlin Wolf ou Robert Johnson, King Khan é capaz de cruzar o punk, o garage, o experimentalismo, a soul e o rhythm n blues sem perder um pingo de credibilidade, sem deixar de injectar em cada projecto a sua visão estética, sem perder a essência de cada uma dessas culturas urbanas em que se envolve.

Apaixonado pela história do movimento pelos direitos civis negros na América da década de 60, King Khan tem desenvolvido projectos de solidariedade internacional e activismo, onde se destacam o Just Insuline Initiative em parceria com o ex-black panther Malik Rahim, com o propósito de angariar fundos para adquirir insulina a fim de distribuir pelos necessitados de Algiers, New Orleans, neste período de devastação pela crise da Covid.

Com o mesmo à vontade de uma black mamba na selva, King Khan reinventou-se em mestre de tarot, tendo aprendido directamente com Alejandro Jodorowski, exactamente o histórico realizador chileno de Montanha Sagrada (1974). Com a ajuda do artista irlandês Michael Eaton, criou o seu próprio Black Power Tarot onde Tina Turner, Sun Ra, Erykah Badu, James Brown, Malcolm X ou Richard Pryor, entre muitos outros, nos ajudam a descobrir um novo arcano de homens e mulheres que fazem parte da cultura, da política e da história afro-americana, bem como da luta contra o racsimo.

King Khan já assumiu por isso vários personagens. Tal como Sun Ra, que alterava o nome das suas orquestras em função das formações, das energias que emanavam, ou das inspirações que perseguia, Khan tem assumido ao longo da sua carreira várias peles e vários nomes, mas é com os seus The Shrines que hoje é objecto de um culto fiel por todo o globo. E agora, acabam de nos surpreender com mais um novo desenvolvimento na sua busca pela cura dos males do mundo através da música, o disco de jazz The Infinite Ones, editado no dia 30 de Outubro.

O seu mais recente disco de originais é antes de mais um tributo aos grandes mestres do jazz que o têm inspirado nos 23 anos de carreira como compositor. Aqui, são as ressonâncias das arquitecturas erigidas por Sun Ra, Alice Coltrane, Roland Kirk ou Art Ensemble of Chicago que servem de rampa de lançamento para um disco de jazz apontado às estrelas como um foguetão.

É nesse espaço «lá fora» que King Khan espreita uma sintonia própria com os «infinitos» mestres da arte curandeira através da música. Os grandes nomes do jazz modal e do free jazz da segunda metade da década de 60, o black power e o espiritualismo oriental, surgem neste The Infinite Ones enquanto criações terrenas como sempre o foram, com os quais King Khan & the Shrines nos acenam para comunicar com essa via da música como terapia dos males do universo. Estamos perante jazz cósmico portanto, livre como escape do negativismo, mas determinado como uma resolução positiva.

Os históricos saxofonistas Marshall Allen e Knoell Scott da Arkestra de Sun Ra participam neste The Infinite Ones a atestar o valor espiritual do jazz de King Khan & The Shrines. Mas não é só de jazz, como seria de esperar, que é construído o seu novo disco. É também o imaginário do cinema underground (o revolucionário cineasta Melvin Van Peebles é um assumido mentor para King Khan), do activismo negro americano, das bandas sonoras para filmes e da memória do som analógico neste tempo do efémero e do digital que se reflectem neste universo particular de intemporalidade, rumo ao desconhecido e para lá das linhas com que se cose o mercado. Uma feliz memória dos mestres do infinito, para ouvir todos os dias e descobrir neste ano de 2020 que mais parece retirado a um bizarro episódio de ficção científica.

King Khan & The Shrines, The Infinite OnesErnest Jenning Record Co./ Khannibalism, 30/10/2020

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