O grito de Nagasaki!

Paramos o estrondo dos tambores da guerra que o exército americano continua a espalhar pelo mundo, para escutar o grito de Nagasaki, hoje, 72 anos depois da barbárie.

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Destroços de um templo xintoísta, em Nagasáqui, após o bombardeamento de 6 de Agosto de 1945.
Destroços de um templo xintoísta, em Nagasáqui, após o bombardeamento de 6 de Agosto de 1945.Créditos / lounge.obviousmag.org

Em mais um ano sobre a destruição de Nagasaki, a 9 de Agosto de 1945, pelo exército americano, três dias depois de ter executado o primeiro e único ataque nuclear da humanidade sobre a população na cidade de Hiroshima, paramos o estrondo dos tambores da guerra que o mesmo exército americano continua a espalhar pelo mundo, para escutar o grito de Nagasaki, hoje, 72 anos depois da barbárie. Nas notas musicais esculpidas ou nas palavras ao sufoco arrancadas, no som e na fúria que a memória de todas as vidas dizimadas nos marca no presente, procuramos na força da música a voz para que, hoje, perante o clamor da guerra, saibamos gritar o sentido da paz.

Krystof Penderecki é o mais popular compositor polaco, cuja capacidade para ilustrar musicalmente o lado mais obscuro e selvagem da mente humana tem transformado o grande compositor contemporâneo num dos favoritos de realizadores de cinema como Kubrick em Shining, William Friedkin em O Exorcista, ou no mais recente Shutter Island, de Scorsese. A sua música é plástica ao ponto de se transformar na própria essência que constrói para além das notas, libertando o som de toda a tradição. Este «Threnody for the Victims of Hiroshima», de 1960, faz-nos viajar até ao horror, ao medo e à demência da destruição assassina lançada sobre Hiroshima e Nagasaki. Uma obra-prima da música de vanguarda.

Durante uma tournée no Japão para celebrar o 50.º aniversário dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, o pianista Mal Waldron gravou um disco inteiramente novo, todo ele luminoso e marcado pela criatividade, pela dádiva da simplicidade e da expressão universal dessa mensagem de paz. Acompanhado pelo mais encantador tom de voz do planeta jazz, o da cantora Jeanne Lee, ou da flauta de Toru Tenda, cada nota é um desafio que o improviso nos coloca, na busca da paz.

Em 1966, Coltrane, com a sua esposa Alice e um quinteto histórico com Pharaoh Sanders, Jimmy Garrison e Rashied Ali, visita o Japão para uma tournée com efeitos mágicos sobre a música ali criada e registada no álbum Live in Japan. Música intensamente marcada pela tragédia de Nagasaki, cidade que volta a ficar na História por motivos além dos da guerra, pela inspiração deste monumental «Peace On Earth», do grupo de John Coltrane, aqui numa gravação de estúdio de Fevereiro nesse mesmo ano de 66.

Em 2017, a ameaça nuclear permanece, com a tensão militar dos EUA e da NATO, com bases espalhadas por todo o mundo e conflitos intermináveis a empurrar o planeta para um permanente clima de medo. Nada que Sun Ra não nos tivesse já anunciado em 1981 na sua consciente visão de futuro em «Nuclear War».

Em 2002, o colectivo Yo La Tengo, históricos do rock independente e experimentalista americano desde os finais da década de 1980, voltou a explicar, agora às crianças e a todos os pais e mães, o que quer dizer Sun Ra, quando diz «Nuclear War», numa curiosa versão tão generosa nas doses tóxicas de funk como nas de atitude punk com que nos expõe ao psicadelismo desta versão que nos desmascara o repetitivo absurdo da guerra e da permanente ameaça de destruição.

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