Nos 80 anos do seu assassinato, ler Lorca, sempre

Nos 80 anos do seu assassinato, que teve lugar no início do criminoso levantamento franquista contra o governo legítimo e democrático da República, a melhor homenagem que podemos prestar a Federico García Lorca é continuarmos a ler a sua extraordinária obra poética e dramática.

Ilustração a partir de fotografia de Federico García Lorca
Ilustração a partir de fotografia de Federico García Lorca Créditosobviousmag

Federico García Lorca (1898-1936) nasceu em Fuente Vaqueros, perto de Granada, e é considerado um dos maiores poetas europeus do século XX. A sua influência fez-se sentir em muitos poetas portugueses dos anos 30, 40 e 50, especialmente nos neo-realistas, como Manuel da Fonseca, também em Eugénio de Andrade – que o traduziu admiravelmente – ou ainda em Matilde Rosa Araújo, já nos anos 60. O poeta Joaquim Namorado, por seu turno, foi dos primeiros a divulgar o andaluz em Portugal, através do seu pequeno livro Vida e Obra de Federico García Lorca, publicado em 1943.

Na muita e variada poesia de Lorca (Canciones, 1927; Romancero Gitano, 1928; Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935; Poeta en Nueva York (1929-30), 1940, etc.), cruzam-se veios diversos: o simbolismo e os ritmos e temas tradicionais (designadamente de raiz popular e andaluza), mas também uma linguagem em que são já visíveis traços das poéticas de vanguarda das primeiras décadas do século XX (entre as quais se conta, por exemplo, o surrealismo, rótulo que todavia o poeta sempre rejeitou). Em boa verdade, a surpreendente dimensão metafórica dos versos de Lorca, a ousadia das imagens, a insinuante musicalidade da escrita que legou à posteridade fizeram da sua uma voz poética verdadeiramente singular. Uma voz e um olhar que se deixaram seduzir também pelo jazz, pelos ritmos cubanos, pelo cinema (Chaplin, Buster Keaton…); uma voz e um olhar sensíveis, em Poeta en Nueva York, à condição social e económica dos negros, à discriminação de que eram vítimas, e à vida desumanizada das massas no coração do capitalismo, isto é, na América do Norte, onde permaneceu entre 1929 e 1930.

«Em boa verdade, a surpreendente dimensão metafórica dos versos de Lorca, a ousadia das imagens, a insinuante musicalidade da escrita que legou à posteridade fizeram da sua uma voz poética verdadeiramente singular.»

Lorca conheceu ou foi amigo de artistas como o realizador de cinema Luis Buñuel, o poeta chileno Pablo Neruda, o pintor Salvador Dalí e muitos outros. Personalidade de proverbial encanto, simpatia e talento, foi ainda músico e cantor, encenador, actor e desenhador, além de grande dramaturgo (exemplos: Bodas de Sangue; Yerma; A Casa de Bernarda Alba) e promotor teatral, tendo escrito também alguns poemas para crianças («Canciones para niños»), caso de «Canção tonta». Exemplo do seu trabalho de dinamização teatral é «La Barraca»: um grupo de teatro universitário, itinerante e de orientação popular, fundado e dirigido pelo poeta e por Eduardo Ugarte. Criado em 1931 com o apoio do governo, no início da Segunda República, e lançado no Verão de 1932, o grupo tinha como propósito levar o teatro clássico espanhol a regiões com escassa actividade cultural.

Apaixonado pela cultura e pela arte populares da Espanha – que tantas vezes recriou admiravelmente no seu trabalho artístico, fosse na poesia e no teatro, fosse na música –, imbuído de ideias e sentimentos generosos que o fizeram colaborar em numerosas iniciativas artísticas e político-culturais de cunho progressista, o poeta refugiou-se em Granada para fugir ao ambiente de agitação que se vivia em Madrid, acabando por ser surpreendido pelo levantamento fascista do general Franco (início da chamada Guerra Civil em Espanha). Os franquistas prendem-no na tarde de 16 de Agosto de 1936 e, na madrugada de 18 para 19, fuzilam-no num campo dos arredores de Granada. O seu corpo nunca foi encontrado. Esta trágica circunstância, aliada à memória da própria personalidade de Lorca, viria a contribuir para tornar este poeta uma figura mítica e uma espécie de símbolo dos milhares e milhares de vítimas do terror fascista em Espanha e do combate da cultura contra a barbárie.

Muitos outros poetas o prantearam, em particular companheiros seus do chamado «Grupo de 27» (Rafael Alberti, Manoel Altolaguirre, Luis Cernuda, Vicente Aleixandre, etc.) e poetas latino-americanos de quem foi amigo, como o chileno Pablo Neruda. Apoiantes ou mesmo combatentes do lado republicano, alguns dos que conheceram Lorca, como o poeta, mais jovem, Miguel Hernández, viriam, eles também, a ser encarcerados e a morrer precocemente ou então a exilar-se para fugir à perseguição franquista.

Nos 80 anos do seu assassinato, que teve lugar, como foi dito, no início do criminoso levantamento franquista contra o governo legítimo e democrático da República, a melhor homenagem que podemos prestar a Federico García Lorca é continuarmos a ler a sua extraordinária obra poética e dramática. E descobrirmos textos como Alocução ao Povo da Aldeia de Fuentevaqueros, obra editada em 2004 e reeditada, em 2014, pelo Sector Intelectual do Porto do PCP, que constitui um admirável e emotivo elogio do livro, uma viagem pela sua história, além de um incentivo à leitura e um tributo à própria literatura.

Experimente, por isso, ler o famoso «Pranto por Ignacio Sánchez Mejías», em tradução de Jorge de Sena.

Depois encante-se também (e leia o poema aos seus filhos) com esta maravilha de simplicidade que é, na tradução de José Bento, a

Canção tonta

Mamã.
Eu quero ser de prata.

Filho,
terás muito frio.

Mamã.
Eu quero ser de água.

Filho,
terás muito frio.

Mamã.
Borda-me em tua almofada.

Está bem!
Agora mesmo!

Federico García Lorca, Antologia Poética,
Lisboa, Relógio d’Água, p. 37 (trad. de José Bento)