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Entre a arquitectura e a paisagem rural

Projeto site-specific de arte pública em Évora. Museu do Neo-Realismo com obras originais de Paulo Mendes, Tiago Baptista e Susana Mouzinho. Exposições de Jaime Silva em Lisboa e Sílvia Simões no Porto.

Projeto site-specific «Walk The Curve» de Ayelen Peressini e Inês Teles, Alto de S. Bento em Évora, até 20 de Fevereiro de 2020
Projeto site-specific «Walk The Curve» de Ayelen Peressini e Inês Teles, Alto de S. Bento em Évora, até 20 de Fevereiro de 2020Créditos / Ayelen Peressini

As artistas Ayelen Peressini e Inês Teles apresentam «Walk The Curve», um projeto site-specific de arte pública criado em colaboração com a Câmara Municipal de Évora, no âmbito do Festival Artes à Rua 2019.

Esta intervenção artística desenvolve-se no Alto de S. Bento em Évora1, património histórico da cidade, desde 14 de Dezembro, e vai decorrer até 20 de Fevereiro. Um projeto artístico co-autoral entre duas artistas visuais emergentes, que visa criar uma articulação entre a arquitectura e a paisagem rural, através do uso de uma variedade de materiais como o metal, a madeira, a terra e a cerâmica. Numa tentativa de revelar diferentes patamares de construção, solos e matérias, esta intervenção possui vários tempos de leitura, várias camadas que se apreendem numa atitude de interrogação instigada pelo ato de caminhar.
Em 2020, estão previstas visitas guiadas e será produzida uma publicação bilingue que inclui, textos de vários autores, como Raquel Guerra, imagens fotográficas e documentais que ilustram as diversas etapas e processo de construção.

O Museu do Neo-Realismo2, em Vila Franca de Xira, nasce da vontade de um grupo de intelectuais ligados ao movimento neorrealista, concretizado através da criação da Comissão Instaladora do Museu do Neo-Realismo e da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo (APMNR), foi fundado em 1990, vindo a ser inauguradas as actuais instalações pelo município em 2007, obra projectada pelo arquiteto Alcino Soutinho. Possui um vasto conjunto de colecções, com destaque para os espólios literários de Alves Redol e Orlando da Costa, de artes plásticas de José Dias Coelho e Rui Filipe. Este equipamento cultural além do novo projeto museológico tem uma biblioteca, um auditório, um Centro de Documentação do Museu e diversos espaços para exposições temporárias, onde se desenvolvem actividades de divulgação e debate sobre a memória crítica do movimento neo-realista.

Sobre o Neo-Realismo, nas artes plásticas, decorrendo de uma manifesta vontade de ruptura no início dos anos quarenta, foram assinalados dois acontecimentos em 1939 pelo crítico de arte Rui Mário Gonçalves, um panfleto publicado por António Pedro «em que defende a modernidade e denuncia as contradições e a má-fé de Ressano Garcia»3 e a publicação no Diabo (29 de Abril de 1939) de uma afirmação do jovem desenhador Álvaro Cunhal, que a arte deve «exprimir a realidade viva e humana de uma época»4. A tendência dominante nas Exposições dos Independentes de 19455, entre outras exposições na SNBA e publicações, são já dos artistas neo-realistas, referindo Manuel Ribeiro de Pavia, Manuel Filipe, Júlio Pomar, Moniz Pereira, Victor Palla, Júlio Resende, Mário Cesariny, Vespeira, Rui Pimentel, Fernando José Francisco, José Leonel Rodrigues, Pedro Oom e Aníbal Alcino, entre muitos outros.

Obra de Paulo Mendes "Se estou meio morto é porque ainda estou meio vivo", 2019. Exposição “Cosmo/Política #5: Comunidades Provisórias», em Vila Franca de Xira, até 23 de Fevereiro de 2020 CréditosJoão Neves /

Na programação do Museu do Neo-Realismo têm vindo a acontecer um ciclo de arte contemporânea, «Cosmo/Política» (2017-2020), com a curadoria de Sandra Vieira Jürgens e Paula Loura Batista. Este ciclo compreende a realização de seis exposições, quatro delas já foram realizadas. No texto de apresentação deste ciclo, diz-se que o título «tem origem na coleção de livros da Biblioteca Cosmos, dirigida em 1941 por Bento de Jesus Caraça, que constituiu um projeto cultural emancipatório e determinante na divulgação generalizada de conhecimentos, em múltiplas áreas do saber, no Portugal da primeira metade do século XX. O nome surge ainda associado ao conceito de cosmopolítica enquanto proposta para alargar o campo de alcance da política a outras considerações, a diferentes visões, culturas e modos de habitar o mundo.»

A quinta exposição deste projecto, “Cosmo/Política #5: Comunidades Provisórias», tem trabalhos originais de Paulo Mendes, Tiago Baptista e Susana Mouzinho e pode ser visitada até 23 de Fevereiro. Os artistas, «partindo do pensamento neorrealista e do romance "Gaibéus" de Alves Redol, abordam a criação de comunidades e de coletividades, aproximando o seu entendimento desde a origem do movimento até à atualidade».

«Se estou meio morto é porque estou ainda meio vivo», é o título da obra de Paulo Mendes nesta exposição, segundo o artista, a instalação site-specific, tem «como referência as casas dos avieiros, utilizando para a construção materiais do acervo do Museu do Neo-Realismo e de outros museus municipais, das oficinas da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, de pescadores locais, de depósitos de material de construção civil, de filmes através de imagens e sons, de material de arquivo fotográfico, vídeo e sonoro do autor, de livros através das suas palavras e equipamentos de reprodução de som e de imagem». Suzana Mouzinho apresenta uma instalação de vídeo «Aconteça no meio o que for» e Tiago Baptista as obras «Barreira», «Face», «Ponte Petrificada» e «Indício».

Exposição «Viacrucis - A pintura como interrogação» de Jaime Silva, Convento dos Cardaes, Lisboa, até 29 de Fevereiro de 2020 Créditos

A exposição «Viacrucis - A pintura como interrogação» de Jaime Silva, uma exposição antológica de pintura e desenho, vai permanecer no Convento dos Cardaes6 até 29 de Fevereiro. Nesta exposição poderemos ver uma selecção de 51 obras realizadas entre 1975 e 2019 com a curadoria de Helena Mendes Pereira.

Jaime Silva (n.1947) forma-se em Pintura na E.S.B.A. do Porto, expõe colectivamente desde 1975 nos Encontros Internacionais de Arte em Viana do Castelo, ano em que participa activamente nas intervenções artísticas do Grupo Puzzle7 (1975-1981), do qual é um dos fundadores, a partir daí desenvolve um percurso artístico de grande reconhecimento. Em Paris foi bolseiro pela Fundação Calouste Gulbenkian, desde os finais dos anos 70 desenvolve uma pesquisa na área do expressionismo, matérico e intuitivo8, nas últimas décadas tem desenvolvido um excelente trabalho de docência, curadoria e de gestão cultural na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa.

Exposição «Deambulações» de Silvia Simões, átrio do auditório da biblioteca da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), até 21 Fevereiro de 2020 Créditos

Helena Mendes Pereira afirma que «Nas intermitências entre o desenho e a pintura [...] a cor parece que amadurece. Nos intervalos, nas reminiscências dos grandes suportes, há o desenho enquanto escrita e alfabeto [...] os desenhos, virtuosos, de contornos limpos, de corpos nus que se apresentam no limbo entre o treino da mão e do olhar e uma forma de ver o Homem – pintura e desenho com preocupações humanistas, dir-se-ia […]. A pintura sobrevive. Por isso se interroga. Jaime Silva afirma-a e parte sempre dela enquanto forma de ler o tempo e o espaço.»9

No Porto, Sílvia Simões apresenta a exposição de desenho «Deambulações» no Átrio do Auditório da Biblioteca da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto10, que decorre até 21 Fevereiro, fazendo parte do projeto «riscotudo» de curadoria de José Manuel Barbosa. Segundo a artista, «estes desenhos [...] espelham de alguma forma as viagens e os lugares por onde vou passando e ficando. Estes, em particular, continuam a trabalhar sobre o que me ficou do Fogo […]. A percepção é uma construção em devir. E a representação, se, por um lado é a transformação do que se percepciona num outro espaço, é também uma construção. Ver através do desenho e com o desenho [...] implica diferentes momentos de ver.»


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

  • 1. Alto de S. Bento, Évora. Horário: segunda-feira a sexta-feira das 9h às 12h30 e das 14h às 17h30.
  • 2. Museu do Neo-Realismo, Rua Alves Redol, n.º 45, 2600-099 Vila Franca de Xira. Horário: terça-feira a sexta-feira e domingos, das 10h às 18h; sábados: 10h00 – 19h00. Encerra às segundas-feiras e feriados.
  • 3. Após Ressano Garcia, numa assembleia da SNBA, em 1939, ter atacado a modernidade acusando-a de «ser obra dos judeus e de comunistas “inimigos da civilização cristã”», em Rui Mário Gonçalves, Pintura e Escultura em Portugal, 1940-1980, Biblioteca Breve, ICLP-ME, 1980, p.15.
  • 4. Ibidem.
  • 5. Realizada no Instituto Superior Técnico em Lisboa.
  • 6. Convento dos Cardaes, Rua do Século, n.º 123, Mercês, Lisboa. Horário: Segunda a sábado, das 14h30 às 17h30.
  • 7. Pertenceram ao Grupo Puzzle (1975-1981): Albuquerque Mendes, Armando Azevedo, Carlos Carreiro, Dario Alves, Graça Morais, João Dixo, Jaime Silva, Pedro Rocha, Fernando Pinto Coelho e Gerardo Burmester. «O nome do Grupo representava tanto uma metáfora formal como uma estratégia performativa […]. A Pintura do Grupo Puzzle é eminentemente performática: subentende a articulação entre projecto individual e colectivo, forma e função pintura e performance, documento e obra de arte, momento histórico e arquivo.» (Paula Pinto, 2011).
  • 8. Texto de Cristina Azevedo Tavares no catálogo de Jaime Silva-Pinturas (1990).
  • 9. Texto de Helena Mendes Pereira, Catálogo exposição «Viacrucis. A Pintura como interrogação» de Jaime Silva, Fórum Cultural de Cerveira, 2018.
  • 10. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Via Panorâmica S/N, 4150-564 Porto. Horário: segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 20h.

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