|Jogos Olímpicos - Rio de Janeiro 2016

O cerco olímpico ao urso

O que está em causa com a tentativa de banir todos os atletas russos dos Jogos do Rio não é o combate ao doping que, diga-se, não é exclusivo da Rússia.

O Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) confirmou a decisão da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, sigla em inglês) de proibir as equipas da Rússia, na modalidade de atletismo, de participarem em qualquer competição, inclusive nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A notícia foi recebida com entusiasmo do outro lado do Atlântico, com o The New York Times a prever que «outras organizações desportivas venham a punir as equipas russas».

Em causa estão as acusações de um esquema montado, com o patrocínio do governo russo, de utilização de doping nos Olímpicos de Inverno de Sochi (Rússia), em 2014. A decisão da IAAF foi anterior à recente apresentação de um relatório conduzido pelo jurista candiano Robert McLaren, que confirma as alegações.

Duas semanas antes do arranque dos Jogos do Rio, um conjunto de responsáveis de agências nacionais anti-dopagem enviaram uma carta ao presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) a pedir a suspensão do Comité Olímpico da Rússia e dos atletas russos das próximas Olimpíadas. Mas a carta promovida por Travis Tygert, o responsável pelo combate ao doping nos EUA, diz mais: os atletas russos que se submetam a testes por entidades independentes podem participar, mas nunca com a bandeira russa. O objectivo não é visar os atletas que estejam fora das regras anti-doping, mas sim todos os atletas russos e a Federação Russa como um todo.

Na verdade, o que estamos a assistir é ao aproveitamento político do caso, mais uma arma norte-americana na tentativa de desestabilização da Rússia. O combate ao doping e o espírito olímpico deviam merecer mais respeito.

Como o presidente dos Comités Olímpicos Europeus, o irlandês Pat Hickey, declarou, dois dias antes de ser conhecido o relatório McLaren, «depois de se saber que o relatório, que deveria ser confidencial, foi enviado às agência norte-americana e canadiana antes de ser apresentado, fica claro que tanto a sua independência como a sua confidencialidade estão comprometidas».

Norte-americanos e canadianos enviaram um pedido de assinaturas para a recente carta dirigida ao presidente do COI. Pat Hickey denunciava que «os contactos foram feitos apenas a organizações e atletas que se sabe que apoiam a expulsão dos atletas russos».

Fica claro que o que está em causa não é o combate a uma prática que, diga-se, não é exclusiva da Rússia. Em 2007, o COI retirou as três medalhas de ouro e duas de bronze que Marion Jones levou para os EUA, nos Jogos de Atenas, em 2000, por utilização de doping.

Como o antigo membro da administração Reagan, Paul Craig Roberts, escreveu no Off Guardian, «Washington não está motivado pelo respeito pela justiça no desporto. O "escândalo de doping" é parte do esforço de isolamento da Rússia que está em curso».

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