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Entre valores sociais, imaginários e natureza

Exposições de Querubim Lapa em Vila Franca, Jorge Pé-Curto em Setúbal, Agostinho Santos no Porto e instalação de Sérgio Carronha + coletiva de cerâmica em Almada.

«Querubim Lapa, Costureiras, 1949». Óleo s/tela, 122x163 cm. Exposição «Querubim Lapa, uma poética neorrealista» no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, até 29 de outubro
Créditos / Fundação Calouste Gulbenkian

No Museu do Neo-Realismo1, em Vila Franca de Xira, podemos ainda ver até 29 de outubro a exposição intitulada «Querubim Lapa2, uma poética neorrealista», uma exposição retrospetiva deste artista, que integra mais de 250 obras de pintura e desenho oriundas de várias coleções institucionais e particulares, ocupando os dois pisos do museu.

Mais conhecido como ceramista parietal, Querubim Lapa é, no entanto, um artista que marcou a segunda metade do século XX em Portugal, contribuindo para a afirmação do movimento neorrealista português, com a particularidade de assumir na sua linguagem estética uma «conciliação entre valores sociais concretos e a sua extraordinária expressão lírica», segundo David Santos, o curador da exposição. 

Acerca da importância do período neorrealista no seu percurso artístico e para a arte em geral, Querubim Lapa terá dito: «Logo a seguir à guerra vivi intensamente o período neorrealista; participei em imensas exposições e os meus quadros eram, nessa fase, a expressão de uma experiência coletiva, muito rica sob certos aspetos. Nessa época, a literatura, o teatro, o romance, a pintura, tentavam fazer o retrato de uma sociedade que urgia modificar. Não fomos ouvidos, calaram-nos a voz, mas o movimento neorrealista ficou como um dos períodos mais fecundos da arte portuguesa.», como se poderá ler no texto da exposição.

Jorge Pé-Curto vai inaugurar uma exposição de esculturas no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS)3, no dia 14 de outubro, intitulada «Um Raio de Sal». Esta exposição poderá ser visitada até 31 de dezembro.

Exposição «Um Raio de Sal» de Jorge Pé-Curto no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em Setúbal, 14 de outubro a 31 de dezembro Créditos

Acerca do trabalho criativo de Jorge Pé-Curto e «se quisermos procurar uma linha de coerência esta estará certamente na forte componente de comunicação de pendor irónico, resultante de uma reflexão sobre o papel do homem na sua relação social e com a natureza e das enormes dificuldades com que se depara na atualidade», como podemos ler num texto de uma exposição recente.

Jorge Pé-Curto é um artista que tem vindo a desenvolver um percurso artístico muito intenso, criando obras em cerâmica, pintura, cartaz e gravura, mas seria na escultura, nomeadamente na pedra, que viria a centrar o seu trabalho. Expõe desde 1972, com regularidade, em diversas galerias e tem desenvolvido obras de arte pública por todo o país, podendo observar-se esculturas de Pé-Curto em diversos espaços públicos de Almada, no Seixal, Montemor-o-Novo, Belver, Ferreira do Alentejo, Alfândega da Fé, Penafiel e Setúbal, entre muitos outros.

O poeta, escritor, pintor, escultor e crítico de artes plásticas, Edgardo Xavier, referiu-se a Jorge Pé-Curto como um artista que «nos mostra como se esbatem fronteiras, se realizam insólitas simbioses e como, pelo poder das metáforas, podemos aceder a mundos tendencialmente melhores…» (Setembro, 2000).

No último evento de inaugurações simultâneas no Quarteirão Cultural da Miguel Bombarda, no Porto, o artista Agostinho Santos inaugurou uma nova exposição com o título «Boca do Sol» na galeria Serpente4, que vai decorrer até 4 de novembro. Esta exposição, onde Agostinho Santos apresenta diversos trabalhos de desenho, pintura e objetos, pode ser resumida num texto, em jeito de confidência, que o autor nos deixa: «O sol foi gerado e parido pela "Rainha do sol", a mulher/mãe da liberdade, da imaginação e da criação. Por isso e muito mais interpretei-a, a ela e aos personagens que vivem e sobrevivem no seu/meu mundo imaginário».

Exposição «Boca do Sol» de Agostinho Santos, na Galeria de Arte Contemporânea Serpente, no Porto, até 4 de novembro Créditos

O trabalho artístico de Agostinho Santos, desenvolve-se num espaço de concretização do «seu mundo», e principalmente dos seus sonhos, ao afirmar que «há sempre espaço para sonhar, há sempre oportunidade de novos sonhos».  Mas Agostinho Santos vai mais além ao afirmar que o seu mundo imaginário é também uma forma de «denunciar os estragos que o Homem causa» acrescentando que tudo o que tem feito «nos últimos anos é uma tentativa de chamar a atenção, de denunciar para o lado errado do mundo. Quero agitar as consciências das pessoas e contribuir para uma reflexão sobre o tema da atualidade, as injustiças sociais, as desigualdades, entre outros».

Recordamos ainda que Agostinho Santos, natural de Vila Nova de Gaia, além de pintor, também é curador, escritor e jornalista. Foi diversas vezes premiado e mereceu artigos e ensaios da autoria de figuras como Agustina Bessa-Luís, Fernando Pernes, Eduarda Chiote, José Saramago, Rui Lage, Mário Cláudio, Rosa Alice Branco, entre muitos outros. Atualmente é diretor da Bienal Internacional de Arte de Gaia, e coordenador do Projeto Onda Bienal, sendo Presidente de Artistas de Gaia - Cooperativa Cultural.

O Porco Voador é um projeto de intervenção artística e cultural sediado em Almada, que apresenta no Solar dos Zagalos5, em Almada, a exposição «Amplitude – coletiva de cerâmica» e a instalação «Em Si» de Sérgio Carronha, que vai decorrer até 30 de outubro. Participam nesta exposição artistas como Ana João Almeida, António Diogo Rosa, Carlos Ribeiro, Elsa Figueiredo, Fernando Sarmento, Helena Brízido, Izilda Gallo, José António, José Henrique Prado, Laura Torres de Carvalho, Luís Royal, Margarida Gíl, Maria João Pais, Maria Lopes Jesus, Marina Almeida, Melissa Truniger, Mercedes Op  den Camp, Mingyu Wu, Olga Martins, Sérgio Carronha, cujo trabalho «revela o potencial plástico da cerâmica» através das diversas obras apresentadas em escultura, instalação e objetos utilitários. Já a instalação de Sérgio Carronha, que ocupa a capela do Solar dos Zagallos, sobre o qual se refere que «nas suas práticas artísticas vemos regularmente o uso de materiais de origem natural, que demonstram a sua relação com a paisagem e o caminhar», segundo o texto da exposição.

Obra de Sérgio Carronha. Exposição «Amplitude – coletiva de cerâmica» e instalação «Em Si» de Sérgio Carronha no Solar dos Zagalos em Almada, até 30 de outubro Créditos

Acrescenta ainda o referido texto, que esta técnica artística foi «maltratada por quase todo o período do séc. XX,… reduzida ao território do utilitário, e nem o advento da cerâmica de autor, com uma produção em atelier, vem mudar significativamente o seu estatuto como forma de arte», conhecendo, no entanto, recentemente uma mudança de paradigma no meio artístico, altura em que se tem atingido «o necessário reconhecimento e notoriedade para a mudança». 

Mudança, que tem vindo a ganhar um crescendo de grande visibilidade em exposições internacionais, surgindo obras de «uma nova geração de artistas que ultrapassam os limites da cerâmica hoje, o potencial expansivo da argila através de uma variedade de obras de arte lúdicas e socialmente engajadas. Esculturas abstratas excêntricas, grandes instalações imersivas, figuras fantásticas de outro mundo e evocações estranhas de objetos cotidianos. As obras variam em escala, acabamento e técnica, e abordam temas que vão da arquitetura à justiça social, ao corpo, ao doméstico, ao político e ao orgânico».6

Referimos ainda que durante o período em que decorre este projeto haverá um programa paralelo no Solar dos Zagallos, com conversas, filmes, oficinas de cerâmica e visitas guiadas, promovidas pelo coletivo O Porco Voador.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990

  • 1. Museu do Neo-Realismo-R. Alves Redol 45, 2600-099 Vila Franca de Xira. Horário: 3.ª a 6.ª feira e domingos, 10h – 18h; sábados, 10h – 19h.
  • 2. Querubim Lapa (Portimão,1925-2016) pintor, desenhador, gravador e um dos mais importantes ceramistas portugueses. A partir de 1948 participou nas exposições dos Independentes no Porto e a partir de 1949 nas Exposições Gerais de Artes Plásticas. Em 1954 inicia a atividade como ceramista na Fábrica Viúva Lamego, desenvolvendo imensos painéis cerâmicos que foram instalados por toda a cidade de Lisboa. A partir de 1955 torna-se professor na Escola Artística António Arroio.
  • 3. MAEDS – Avenida Luísa Todi, nº162 2900-451 Setúbal. Horário: terça a sábado, das 9h às 12h30h e das 14h às 17h30.
  • 4. Galeria de Arte Contemporânea Serpente-Rua de Miguel Bombarda 558, Portugal. Horário: quinta a sábado, das 15h às 19h.
  • 5.  Solar dos Zagallos- Largo António José Piano Júnior, 2815-716 Sobreda. Horário: quarta-feira a sábado, 10h-12h/14h-17h; domingos 14h-17h.
  • 6. Excerto do texto inserido no catálogo de «Strange Clay: Ceramics in Contemporary Art», a primeira exposição coletiva de grande escala no Reino Unido que veio analisar a forma como artistas contemporâneos têm vindo a explorar a argila como meio de criação, com curadoria de Cliff Lauson.

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