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Povos indígenas sofrem vaga de violência após eleições

Fogo posto, tentativa de homicídio e contaminação das águas são violências relatadas pelos povos indígenas no estado de Mato Grosso do Sul, na ressaca das presidenciais. Trabalhadores denunciam demissões e assédio eleitoral.

Créditos Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

O Ministério dos Povos Indígenas accionou a Polícia Federal, esta quinta-feira, após uma vaga de violência contra os povos Guarani e Kaiowá no estado de Mato Grosso do Sul. As autoridades vão investigar se as acções levadas a cabo contra a vida destas populações estão relacionadas com a derrota de Flávio Bolsonaro.

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), desde o passado sábado, houve pelo menos cinco assassinatos de indígenas. Matias Benno Rempel, coordenador do Cimi no estado afirma: «Carrinhas que circulavam pelo território e algumas agressões para tentar causar pânico na comunidade indígena e evitar que eles fossem votar».

No domingo, dia do sufrágio, houve um atropelamento em Coronel Sapucaia, que vitimou um homem. Na quarta-feira, um funcionário da prefeitura da cidade de Tacuru foi afastado das funções após sugerir o envenenamento da água consumida por indígenas da Aldeia Sassoró numa mensagem áudio, de acordo com o Brasil de Fato. No áudio, que fala da população indígena eleitora de Lula da Silva, ouve-se: «Com esse povo, você sabe como é que funciona. […] 'Cê' tá doido, ajudamos essas pragas aí […] Mas fazer o quê, né? Não pode fazer nada. Já falei que tem que 'ponhar' veneno na água, matar essas pragas na água.»

Ontem, Ñandesy Roberta, de 90 anos, teve a casa incendiada e a própria rotulada de «feiticeira», na aldeia Jaguapiré. A acção criminosa e racista fez Roberta perder todos os instrumentos sagrados usados nos rituais do seu povo.

Neste momento, diversas organizações pelos direitos dos indígenas estão a reunir provas e denúncias de actos contra estes povos. Nas redes sociais da Articulação pelos povos indígenas do Brasil (ApiB) é possível acompanhar algumas imagens da reacção bolsonarista ao voto para Lula nessas localidades.

As violências contra a população indígena não são novas, mas tendem a agravar numa região onde o conflito de classe se estabelece preponderantemente entre o latifúndio e a exigência da demarcação de terra indígena. Neste momento, as lideranças exigem do Governo Federal um avanço no processo de demarcação que seja capaz de barrar o avanço do latifúndio e proteger a vida dessas populações.

Assédio eleitoral bolsonarista

Trabalhadores de todo o país estão também a ser vítimas de uma campanha bolsonarista de demissões e assédio após o resultado eleitoral. Nas redes sociais são relatadas inúmeras situações de represálias, pressão para determinar o voto, discriminação e até mesmo demissões. Até esta quinta-feira, o Ministério Público do Trabalho recebeu 3396 denúncias formais através da sua plataforma digital.

Há também uma vaga de boicote a prestadores de serviço e comércio que tenham manifestado apoio à candidatura de Lula da Silva. Através das redes sociais circulam listas com esses profissionais e estabelecimentos, maioritariamente em regiões onde Flávio Bolsonaro foi mais forte, e uma recomendação de não consumir os seus serviços. A CNN Brasil teve acesso às declarações de um advogado que faz a recomendação do boicote num destes grupos: «Já que aqueles petistas acreditam que o PT é o melhor para o país, votaram no Lula e elegeram teoricamente esse presidente, eles que toquem o negócio deles com o Lula na Presidência. Mete uma estrela do PT na portinha da sua loja e vê o que vai acontecer. Já existe um movimento para que não se compre, não se prestigie e não se negocie com petistas porque eles acabaram com a economia do país».

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