Para toda a gente, tudo #11

«É urgente que a nossa cultura conceda um lugar mais importante à compreensão dos mecanismos da comunicação, dos processos da argumentação e dos métodos manipulatórios. É necessário que conheçamos melhor por que motivo fazemos as coisas, como formamos as nossas opiniões, os fundamentos das nossas decisões.»

«Paula Rego, Histórias & Segredos»
«Paula Rego, Histórias & Segredos»Créditos / theartsdesk.com

VidaObra.

«O que acontece é que ela foi sempre artista primeiro, pessoa depois e mãe em terceiro.», diz Nick Willing, o realizador. «O meu filme não é sobre a artista, é sobre a pessoa. (...) Eu queria descobrir a pessoa por trás da pintora», diz Nick Willing, o filho. E desta justaposição resulta o filme. Histórias e Segredos é sobre Paula Rego. E sobre Victor Willing. E sobre as obras de ambos. E sobre os filhos de ambos.

É, muito delicadamente, muito subtilmente, muito genuinamente, sobre os olhos de Nick Willing. O homem que só perto do meio do filme vemos em campo, a conversar com a mãe, numa cena com páginas e páginas de texto que nunca se diz, mas que se lança na tela com um ímpeto semelhante, um ímpeto que ecoa também na Obra de Paula Rego. Obra sobre a qual o filme não é. É um filme de uma generosidade rara: um filho que se deixa acompanhar na sua descoberta da mãe. Ainda podem  – e devem  – apanhá-lo em Lisboa, no Porto e em Guimarães.

O elefante no meio da sala.

A partir de hoje e até domingo 21, sempre às 21h30, A Palavra Que Resta apresenta na Rua das Gaivotas 6, A grande viagem – tragédia ligeira em três actos. A partir do relato que José Saramago fez da viagem do elefante Salomão, Inês Lago e Tiago de Lemos Peixoto constroem uma comédia sombria (que é quase o mesmo que uma tragédia ligeira) onde se joga com «a obrigação das dádivas, o fardo das dívidas e a dura questão de ser Salomão». Em três actos. Porque, como bem diz a sabedoria popular, estas coisas são sempre em três actos.

A Grande Viagem Créditos

Muito pelo contrário.

O livro do mês foi primeiro editado em Paris, em 1997, e está por aí pelo menos desde 2002. Faz portanto vinte anos que Philippe Breton, investigador no Centre National de la Recherche Scientifique (Laboratório de Sociologia da Cultura Europeia, em Estrasburgo) e professor em Paris I-Sorbonne, editou mais um passo do seu trabalho prolongado sobre a comunicação.

Capa da edição

A Palavra Manipulada foi editada em Portugal pela Caminho, na colecção Nosso Mundo, em 2002 e ainda se pode encontrar por aí, nomeadamente online. É uma valiosíssima reflexão sobre a palavra e a democracia, a falta de cultura argumentativa que nos torna presas fáceis ou bichos fechados com carapaças rijas, bem como para os métodos concretos estudados em campo: e vinte anos depois das grandes campanhas de Jean-Marie Le Pen, com mais vinte anos de tecnologia e avalanche informativa no lombo, é uma leitura bem recomendável.

«Saber analisar as mensagens recebidas ou, pelo contrário, ser presa dos seus efeitos, é actualmente uma das principais causas da desigualdade social. É urgente que a nossa cultura conceda um lugar mais importante à compreensão dos mecanismos da comunicação, dos processos da argumentação e dos métodos manipulatórios. É necessário que conheçamos melhor por que motivo fazemos as coisas, como formamos as nossas opiniões, os fundamentos das nossas decisões. É precisamente esse conhecimento que as técnicas manipulatórias atacam, não se limitando a um simples desvio da razão mas, muito mais, alimentando uma verdadeira desclassificação do conhecimento de si e dos outros.»

Nada se cria, nada se destrói. Até daqui a um mês.