Tensão em Dakota

Em Abril deste ano iniciou-se um protesto contra a construção de um oleoduto perto da reserva Standing River Sioux, no Estado da Dakota do Norte.

Originalmente, o trajecto passaria perto das cidades de Bismark e Mandan, mas ambos os municípios recusaram o projecto por não quererem correr o risco de contaminação da água potável
Originalmente, o trajecto passaria perto das cidades de Bismark e Mandan, mas ambos os municípios recusaram o projecto por não quererem correr o risco de contaminação da água potávelCréditos

Em Abril deste ano iniciou-se um protesto contra a construção de um oleoduto perto da reserva Standing River Sioux, no Estado da Dakota do Norte. O projecto da Energy Transfer Partners, no valor de 3,8 mil milhões de dólares, pretende construir um oleoduto com mais de 1800 quilómetros de comprimento, atravessando quatro estados, para levar petróleo da formação xistosa de Bakken, na Dakota do Norte, junto da fronteira com o Canadá – onde o petróleo é extraído por perfuração e fraturação hidráulica (fracking) – até às refinarias no Estado de Illinois.

Este oleoduto faz parte do sistema Keystone, cuja componente Keystone XL foi rejeitada pelo Presidente Obama em finais de 2015, após alargados protestos ambientais e em torno da estratégia energética dos EUA.

A razão do protesto iniciado este ano em torno da secção denominada Dakota Access, nas palavras da tribo Sioux, pretende-se com: «Primeiro, o oleoduto passará por baixo do Rio Missouri, quase um quilómetro a montante da fronteira da reserva, onde um derrame seria culturalmente e economicamente catastrófico. Segundo, o oleoduto passar através de áreas de grande significado cultural, como locais sagrados e de enterro que a lei federal procura proteger».

Originalmente, o trajecto passaria perto das cidades de Bismark e Mandan, mas ambos os municípios recusaram o projecto precisamente por não quererem correr o risco de contaminação da água potável. O projecto foi então alterado para passar perto da reserva. Os Sioux mantêm que não foram consultados após a alteração da trajectória, como é mandatado pela lei federal e os acordos com as tribos nativas. A empresa garante que irão construir o oleoduto mais seguro de sempre e que não existem causas para preocupação. Ao que responde Dave Archambault, chefe dos Standing River Sioux, se assim é porque não construir no trajecto original.

Durante o Verão, Sacred Stone Camp, o acampamento de protesto, atingiu mais de mil pessoas e tornou-se a maior mobilização de activistas Nativo-Americanos das últimas décadas, juntando membros de centenas de outras tribos, da América do Norte mas também da América Latina. O manifestantes preferem ser referidos não como protestadores mas «protectores da água».

A 2 de Setembro, guardas privados da construtora usaram gás pimenta e libertaram cães sobre os manifestantes – incluindo crianças. Cerca de 14 pessoas foram presas pelas suas tentativas de paralização do trabalho de construção. A repressão foi filmada pela equipa de reportagem do programa de rádio Democracy Now!.


O vídeo teve mais de 14 milhões de visualizações e essa visibilidade – sobre um tema até então silenciado por grande parte da comunicação social – terá contribuído para a intervenção da administração federal que ordenou o Corpo de Engenharia do Exército (Army Corps) suspende-se a construção e pediu à companhia privada que voluntariamente pausassem actividade. Tal não impediu as autoridades locais de poucos dias depois terem abrir processo contra a jornalista Amy Goodman por invasão ilegal durante a cobertura do protesto e repressão. (Amy Goodman, juntamente com Alan Naim e Max Stahl, cobriu o massacre em Santa Cruz, Timor Leste, em 1991.)

Afirmou o procurador: «Ela é uma manifestante, basicamente. Tudo o que reporta parte da posição de justificação das acções de protesto». O caso contra Goodman foi mais tarde abandonado, mas é claro que as autoridades pretendem não só reprimir as manifestações mas também intimidar os jornalistas que os têm procurado cobrir.

A demonstrá-lo está o caso contra a documentarista e jornalista Deia Schlosberg, presa a 11 de Outubro ao filmar activistas em Walhalla, outra localidade do Dakota do Norte, em solidariedade com os protestos em Sacred Stone, enquanto tentavam encerrar um oleoduto usando resistência cívica não-violenta.

Schlosberg esteve detida durante 48 horas até poder falar com um advogado. As suas filmagens foram confiscadas e ela foi acusada de três delitos graves por «conspiração para roubar propriedade, conspiração por roubo de serviços e conspiração por danos a um serviço público». As acusações implicaram uma pena máxima de 45 anos, levando o Edward Snowden a comentar no seu Twitter: «Como referência, eu enfrento uns meros 30 anos.»

Diz Schlosbert sobre o seu trabalho: «Sou um repórter sobre questões climáticas; a minha especialidade é cobrir como a humanidade está a criar um sério problema para a civilização ao continuar a inundar a atmosfera com gases de estufa através da combustão de combustíveis fósseis e outros processos industriais. Não penso que hajam reportagens suficientes sobre alterações climáticas nem o movimento das pessoas por todo o mundo que trabalham para atenuar os impactos das alterações climáticas. É a responsabilidade dos jornalistas e repórteres documentar os eventos noticiosos, e é particularmente importante os media independentes contarem as histórias que os principais media não cobrem. Estes não cobriram a história sobre fracturação nem o que está a suceder na reserva de Standing Rock, nem as histórias contadas no meu filme recente [2016] com Josh Fox, Como Largar o Mundo e Amar Todas as Coisas que as Alterações Climáticas Não Podem Mudar (How to Let Go of the World and Love All the Things Climate Can’t Change). Senti o dever de documentar a acção #ShutItDown em torno do clima, sem precedentes, que impediu todas as areas petrolíferas do Canada de entrarem nos US. A sua importação é um tema controverso que não está a ter a cobertura que merece, especialmente considerando que a sua extracção e uso tem um impacto profundo em cada pessoa no planeta.»

A actriz Shailene Woodley foi também presa num dos protestos enquanto os transmitia ao vivo para os seus milhares de seguidores no Facebook. O jornalista Jason Fox, num recente editorial, alerta que «jornalistas têm sido presos por fazer reportagem dos protestos em prol dos direitos raciais (Black Lives Matter), direitos dos nativos, [defesa do clima] e muitos outros movimentos importantes que os media privados não cobrem». ​