A luz e as sombras

Num programa da tarde, na RTP1, um entrevistado afirma tratar doentes com terapia Reiki, conseguindo enviar, à distância, mensagens energéticas e curativas. Educação da população para a cultura e respeito pelo conhecimento científico? Ou propaganda de «métodos alternativos» sem a mínima comprovação terapêutica?

Créditos / Maria Izabeol de Brito

Mais do que um vulgar charlatão, aparenta ser um homem simples e crédulo, agradecendo ao cirurgião (Dr. Emanuel Furtado) ter-lhe salvado a vida com um transplante do fígado, explicando que, devido a limitações físicas, se dedicara a esse «trabalho» do Reiki.

A apresentadora, com toda a seriedade do mundo e sublinhando que «há milhões de telespectadores que nos estão agora a ver nos quatro cantos do planeta», pergunta ao entrevistado, «como profissional que é», a forma de os interessados o poderem contactar a fim de beneficiarem da terapia Reiki, deixando-o um pouco embaraçado, talvez por ter encarado aquela actividade como um biscate e não estar preparado para grandes voos.

Uma ida ao Google esclarece, no site da Associação Portuguesa de Reiki – Monte Kurama, que «o Reiki é uma terapia complementar no âmbito das terapias e medicinas de Campo Bioenergético» que é «realizada através do toque suave ou a curta distância do corpo do doente, segundo um rigoroso código de ética, sendo transmitida a Energia Universal (Rei-energia; Ki-universal) para as zonas mais necessitadas da pessoa».

Serviço público da RTP1? Educação da população para a cultura e respeito pelo conhecimento científico? Ou propaganda de «métodos alternativos» sem a mínima comprovação terapêutica, como se fossem ciência, dando credibilidade ao que, no passado, se consideravam tretas de bruxas e de aldrabões?

Há cerca de 40 anos, na zona de Sátão, Viseu, onde então fazia o Serviço Médico à Periferia, havia um bruxo com grande êxito junto da população local, mergulhada na miséria e atraso a que fora condenada após quase meio século de ditadura. O homem, esperto mas analfabeto, pegava num livro grande e grosso (que por vezes ficava de pernas para o ar) e «lia» umas rezas, medindo «cientificamente» uma (in)certa quantidade de água com uma seringa, despejando-a a seguir num copo com um pó branco no fundo, que o chofer do táxi que transportava os doentes me disse ser aspirina.

«Educação da população para a cultura e respeito pelo conhecimento científico? Ou propaganda de "métodos alternativos" sem a mínima comprovação terapêutica, como se fossem ciência, dando credibilidade ao que, no passado, se consideravam tretas de bruxas e de aldrabões?»

Assim, com o eficaz e polivalente ácido acetilsalicílico (também por isso conhecido como «cortisona dos pobres»), o bruxo cobria com êxito uma boa parte dos sintomas e das síndromes inflamatórias, tendo resultados que a aura de mistério e de fé ajudavam a consolidar.

Na realidade, programas como o da RTP1, com outras «terapias» baseadas na libertação da «energia vital», em tratamentos «naturais» ou em «dons transcendentais», sucedem-se com invulgar frequência, deseducando os cidadãos culturalmente mais frágeis (e também alguns «cultos» mas cuja debilidade científica nos surpreende), divulgando as crendices mais básicas, dando-lhes o enorme crédito da presença no pequeno ecrã, coisa que nem a TV salazarenta fazia.

Todos sabemos que este é um dos assuntos sensíveis e que desperta polémica, mas esse facto (não desligado de condicionantes ideológicas e políticas) mostra apenas que, em Portugal, como em muitos países ditos «avançados», há um atraso cultural que persiste e se espalha envergando novos trajes e nomenclaturas modernas.

A discussão sobre as bases científicas da homeopatia – uma das «terapias não convencionais» mais divulgadas – travada há cerca de um ano nas páginas do Público é um exemplo dessa falta de cultura e rigor de alguns dos nossos intelectuais. Apesar do renome alcançado nas respectivas carreiras, muitos abandonam facilmente o respeito pela Ciência e pelos seus métodos, assumindo convictas posições de fé que, podendo ser respeitadas enquanto tal, não merecem qualquer crédito quando se procuram abrigar sob a umbrela do prestígio do conhecimento científico.

Na Ciência, o simples argumento da autoridade não conta. E, como bem referiram nesse debate Carlos Fiolhais e David Marçal, «os cientistas podem ter opiniões mas a Ciência não é as opiniões dos cientistas» (Público, 25-2-2015).

Caso exemplar da dissociada atitude de quem usa métodos científicos no quotidiano profissional, ao mesmo tempo que os despreza noutras vertentes da vida, é o de Steve Jobs, o mago da investigação computacional da Apple que morreu de um tipo de cancro do pâncreas tratável e curável, por se ter fiado nas «medicinas alternativas» (dieta vegan, acupunctura, remédios «naturais»), tendo-se arrependido quando já era tarde.

Conforme na altura afirmou o Dr. Barrie Cassiled, do conhecido Memorial Sloan Kettering Cancer Center, «a sua fé nas medicinas alternativas custou-lhe a vida».

«Na Ciência, o simples argumento da autoridade não conta. [...] "os cientistas podem ter opiniões mas a Ciência não é as opiniões dos cientistas"»

Na realidade, a ideia base da homeopatia (criada pelo médico alemão Christian Hahnemann em 1779) de que uma substância infinitamente diluída mantém a suas propriedades graças a uma suposta «memória da água», desafia leis da Física e da Química há muito comprovadas. E a repetida afirmação de que «há muitos estudos e cientistas que a comprovam» nada acrescenta, porque nunca se provou verdadeiramente a sua eficácia nem a reprodutibilidade dos seus alegados efeitos.

Em Março de 2015, o National Health and Medical Research (NHMR), organismo oficial australiano, publicou as conclusões de um relatório em que, após análise de 1800 artigos dos quais seleccionou 225 para uma melhor análise, considerou que «não havia estudos de boa qualidade e bem desenhados com um número suficiente de participantes para suportar a ideia de que a homeopatia tem melhores resultados que um placebo».

A NHMR, que refere gastar cerca de 320 milhões de dólares/ano a testar a eficácia de novas terapias e medicamentos, «aconselha os australianos a não escolherem a homeopatia em substituição de outros tratamentos cuja eficácia foi comprovada», salientando que o estudo «foi o resultado de um rigoroso exame utilizando métodos internacionalmente aceites para avaliar a qualidade e a fidelidade do grau de evidência» e referindo também que «atendeu às diversas visões sobre este tópico e que o público foi convidado a submeter informações ou provas, tendo sido todas analisadas pela Comissão que efectuou o estudo».

Por seu lado, o National Center for Complementary and Intergrative Health (NCCIH), dos Estados Unidos, afirmou em 2015 que «há poucas provas que suportem a homeopatia como tratamento para qualquer condição específica» e que, «embora as pessoas assumam que todos os tratamentos homeopáticos são muito diluídos e por isso não causam problemas, alguns produtos rotulados de homeopáticos contêm quantidades significativas de substâncias activas e por isso podem causar danos colaterais».

Já em 2005, a famosa revista médica Lancet, depois de ter feito uma meta-análise comparativa de 110 estudos homeopáticos, tinha proposto que se acabasse com a perda de tempo e dinheiro investigando essa «terapia» porque, ironizava, «quanto mais se diluem as provas a favor da Homeopatia mais parece crescer a sua popularidade».

Mais recentemente, em Novembro de 2016, a Federal Trade Commition, agência nacional de protecção ao consumidor dos EUA, decidiu que os medicamentos homeopáticos devem ter avisos sobre a sua nula eficácia, referindo que «em mais de dois séculos esse método não provou ser mais eficaz do que tomar um gole de água com açúcar».

De resto, extrapolando o exemplo bem-humorado de Fiolhais e Marçal, basta beber uma garrafa de água com uma pequena gota de vinho nela diluída, e emborcar outra cheia de puro «tintol», para saber que os efeitos são bastante diferentes, e que não será «a memória da água» que restará no dia seguinte, enquanto a do vinho será certamente sentida.

Apesar disso, a indústria homeopática atinge, nos EUA, um valor próximo dos mil milhões de euros (1,2 biliões de dólares), o que talvez explique a força desse «lobby» na divulgação dessas ideias.

«Ao contrário do que se passa em muitos outros países economicamente desenvolvidos em que as "terapias alternativas" baseadas na crença estão a ser combatidas e vêem definhar os apoios estatais, Portugal parece querer enveredar por um caminho inverso.»

E que dizer de outras terapias «alternativas», como a acupunctura, a fitoterapia, a medicina tradicional chinesa, a naturopatia, a osteopatia ou a quiropraxia, referidas (com a homeopatia) na lei 45/2003, que pretende «estabelecer o enquadramento da actividade do exercício dos profissionais que aplicam terapêuticas não convencionais, tal como são definidas pela Organização Mundial de Saúde»?

Delas, como também da Homotoxicologia, Bromatologia, Biotrofologia, Iridologia, Hipnologia (a lista parece infindável), pouco há a aproveitar, mas o que tinha alguma lógica e eventual eficácia, foi testado e investigado, porque uma boa parte do que se faz na medicina ou se sintetiza nos laboratórios químicos «convencionais» começou na natureza com o conhecimento empírico e tosco de outros tempos, tanto os de Ocidente como os de Oriente.

De todas elas, contudo, só se pode considerar o que provou ter benefícios e reprodutibilidade na relação causa-efeito, testada por observadores independentes, não chegando o que um papa ou um antigo papiro dizem ou o que inventivos discípulos (mesmo que sejam médicos) séculos depois possam afirmar.

Prova de que, quando há verdadeira eficácia, a medicina «clássica» também a integra sem preconceitos, a acupunctura deve ser diferenciada de outras «terapias naturais» ou «orientais» que nada fazem, por desempenhar um papel no tratamento da dor e da ansiedade, embora não se deva alargar a sua indicação a outros sintomas ou patologias, ao contrário do que muitas vezes acontece.

Há cerca de 40 anos, quando estagiava em Londres, tive a oportunidade de ouvir, no Royal National Orthopaedic Hospital, a conferência de dois médicos investigadores que tinham estado alguns anos na China a estudar os efeitos da acupunctura, tendo chegado à conclusão de que a acupunctura originava uma libertação de endorfinas, substâncias químicas que aliviam a dor e causam bem-estar. E esse é o seu campo de actuação, que não se deve estender abusivamente a outros em que a sua eficácia nunca foi comprovada.

E quanto à osteopatia (criada em 1874 pelo médico americano Andrew Taylor Still) e à quiropraxia (David Palmer, EUA, 1895)?

Na realidade, o conhecimento médico no século XIX era ainda muito incipiente, mas a medicina «convencional» desde há muito que reconhece e utiliza as massagens e «manipulações» da coluna para melhorar ou aliviar uma percentagem significativa das dores lombares ou cervicais, como também a mobilização e massagem dos membros para melhorar a circulação, actos que, para muitos, se confundem com a osteopatia e a quiropraxia, retirando-lhes o âmbito generalista original de tratamento de outras maleitas. E há, naturalmente, que considerar o «efeito de placebo» (também ele estudado e usado pela medicina clássica), já que o facto de o doente acreditar no benefício cria o próprio benefício, nada havendo de mal nisso, se for barato e não tiver efeitos perversos colaterais.

Para caucionar as «medicinas alternativas», é por vezes falaciosamente invocada a posição da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre «Medicinas Tradicionais e Complementares».

Mas quem ler o relatório da OMS de 2014 compreenderá facilmente que esta organização nunca abandona uma abordagem científica dos cuidados de saúde numa perspectiva global, sublinhando o importante papel da «medicina tradicional» numa extensa parte do mundo que tem níveis de desenvolvimento muito baixos e em que a maior parte da população não tem acesso a uma assistência médica moderna e especializada, nem a cultura de a utilizar.

Como afirmou a directora geral da OMS, «nos contextos em que a medicina tradicional possui sólidas raízes históricas e culturais […] é inquestionável que esta modalidade de atenção mitiga as queixas, trata muitas afecções comuns, reduz o sofrimento e alivia a dor. Além do mais, reduz o congestionamento nas clínicas e salas de urgência provocado pela afluência dessas pessoas que padecem de queixas ou doenças sem gravidade.

Contudo, estas vantagens contribuem para uma crítica à medicina tradicional: a crença de que os curandeiros tradicionais são a primeira e mais eficaz linha de defesa contra alterações e doenças pode provocar emergências médicas graves que comprometam a vida humana, em especial quando esta crença impede ou atrasa o acesso à medicina clássica» (OMS, Margaret Chan, Agosto de 2015).

Também as «medicinas complementares» (não baseadas nas tradições históricas) são referidas no relatório da OMS no mesmo item das «medicinas tradicionais», no sentido de deverem ser regulamentadas e controladas dentro do contexto específico de cada país ou região.

«[...] os progressos alcançados pela Ciência em todos os ramos da vida humana [...] impõem-se por todo o lado, vulgarizando o que seria considerado um "milagre" ainda há poucas décadas, como o simples abrir automático de uma porta à nossa aproximação.»

Nada justifica, por isso, que em Portugal e no século XXI, no noticiário da RTP de 22 de Julho de 2016, um representante da Direcção-Geral de Saúde, instituição que devia constituir, por vocação e obrigação, um inabalável reduto da defesa da Ciência Médica e dos métodos científicos de controlo e de prova, se descredibilize e cubra de ridículo referindo que essas terapias se baseiam em «outras cientificidades» – como se houvesse um outro e diferente conhecimento científico, um outro método que dispensasse a prova, uma outra Ciência (talvez baseada na fé?…) –, equiparando-se ao ingénuo transplantado que envia energia «Reiki» à distância ou ao «Irmão Gabriel», cujos milagres são propagandeados na rádio e nos outdoors das auto-estradas.

Ao contrário do que se passa em muitos outros países economicamente desenvolvidos em que as «terapias alternativas» baseadas na crença estão a ser combatidas e vêem definhar os apoios estatais, Portugal parece querer enveredar por um caminho inverso.

Como se pode propor como um dos «princípios orientadores das terapêuticas não convencionais» (artigo 3.º da lei 45/2003) a «promoção da investigação científica nas diferentes áreas das terapêuticas não convencionais», quando é a própria investigação científica que desmente a existência de qualquer lógica e enquadramento científicos em praticamente todas elas, como foi atrás exposto mais detalhadamente em relação à homeopatia?

Com que autoridade se podem responsabilizar médicos por não aplicarem correctamente o «estado da arte» do conhecimento científico «clássico», se todos estes «terapeutas alternativos» (equiparados a médicos pelo representante da DGS!...) podem usar «outras cientificidades» à vontade, num regabofe de delirantes «terapias» sem qualquer validação ou controlo científicos?

Em Dois homens bons, o último romance de Pérez-Reverte, o conhecido escritor-historiador descreve a aventurosa viagem de dois membros da Academia Espanhola a Paris para comprar a famosa Enciclopédia de D'Alembert e Diderot, então encarada pelos iluministas como um apanhado do conhecimento científico da época, que, pela divulgação e brilho da sua lógica, teria capacidade para alterar a mentalidade dos povos, impulsionando uma mudança social e política.

Mais de duzentos anos depois, os progressos alcançados pela Ciência em todos os ramos da vida humana – da máquina a vapor à energia do átomo, da velha telefonia à Internet, dos raios X à Ressonância Magnética, dos antibióticos à descodificação do genoma humano – impõem-se por todo o lado, vulgarizando o que seria considerado um «milagre» ainda há poucas décadas, como o simples abrir automático de uma porta à nossa aproximação.

Se pudessem estar vivos, Don Hermógenes Molina e Don Pedro Zárate, os destemidos enciclopedistas espanhóis do livro de Reverte, teriam acreditado que o obscurantismo do século XVIII já estaria esmagado pela afirmação continuada da ciência na vida moderna, deixando um papel residual a questões de fé, em que se acredita ou não sem se pretender qualquer confirmação objectiva.

De qualquer forma, espero, para bem de todos, que os arquitectos que projectaram os edifícios da Direcção-Geral de Saúde e da RTP não tenham seguido essas «outras cientificidades» de que o representante da DGS falou. Se não, qualquer dia, o tecto cai-lhes em cima…