A Ephemera, uma associação cultural que tem realizado um notável trabalho de recolha documental, e a Câmara Municipal de Santa Comba Dão, depois de muitas controvérsias inauguraram um suposto Centro Interpretativo do Estado Novo, numa escola que sem nenhuma curiosidade se chama Escola Cantina Salazar. Uma derrapagem na democracia porque é, sem margem para qualquer dúvida, uma recuperação e legitimação da história do fascismo-salazarista, normalizando a ditadura, o seu ditador e seus sequazes e não, como até alguns aparentemente bem intencionados poderão candidamente imaginar e argumentar que irá contribuir contra o branqueamento da história em curso desde a primeira hora da Revolução de Abril, revigorado nos últimos decénios revitalizando o imaginário fascista pelas mais diversas vias, das mais depravadas e desenvergonhadas às mais aparentemente inócuas.
Há quem defenda a iniciativa com argumentários mui palavrosos em múltiplas plataformas, procurando amparar o seu valor científico, pretendendo dar-lhe cobertura académica. Nada mais falso. Tudo bem espremido são arrazoados frívolos bem chochos, lugares comuns que pretendem escorchar a memória contra os fantasmas onde supostamente são escalpados sem dó nem piedade, dardejando o conhecimento da História, com um furor que deixa roxas de inveja as mais vigorosas valquírias, encenando um espectáculo que deleita «os novos fascistas que se apresentam como democratas» como já em 1997, enunciava um personagem do filme de João César Monteiro, Le bassin de John Wayne, porque findam por lhe fornecer espaço físico e novos ases nos baralhos viciados com que jogam a democracia para a subverter.
«Há quem defenda a iniciativa com argumentários mui palavrosos em múltiplas plataformas, procurando amparar o seu valor científico, pretendendo dar-lhe cobertura académica. Nada mais falso.»
Por mais sonoras e enfáticas que sejam as declarações de Alberto Santos, secretário de Estado da Cultura, que abrilhantou com presença estatal a abertura do Centro, descobrindo em linha com os seus executores «um propósito de investigação histórica e de autonomia científica (...) contribuindo com documentação, conhecimento e capacidade de programação», pelo que reputa serem infundados os receios que o centro possa ser «instrumentalizado e apropriado por quem cultiva a nostalgia do regime». Fica reconfortado «com a ideia de que a defesa essencial contra esse risco reside na qualidade e na profundidade do trabalho científico que nele se fizer». Declarações tão enfáticas como redondas, por não terem ponta por onde se lhes pegue, obviamente corroboradas por um conselho científico vergado ao peso oficiante que lhe é conferido e que, contra todas as evidências e garantias de autonomia, deveriam saber que uma análise crítica das ditaduras do século passado não é compatível com a exibição de acervos materiais e imateriais que alimentam preitos e nostalgias das hordas que as querem reviver em novos moldes e formatos desculpabilizando o passado, recuperando apologeticamente os seus chefes, inclusivamente propiciando negociatas, ainda provavelmente veremos essa gentalha a lançar videojogos roubando espécimes presentes nas exposições fixas e temporárias do Centro.
O que se está a dissimular é que o destino desse Centro será tornar-se um lugar de culto e peregrinação dos saudosistas do salazarismo-fascista, como sucede em Itália em Predappio, terra natal de Mussolini, em Espanha no Vale dos Caídos, onde estão sepultados Franco e Primo Rivera, dos nazis em vários lugares da Alemanha, dos banderistas na Ucrânia do golpe de estado de Maidan. Essa é a realidade que se procura escamotear, o que é muito mais grave quando a extrema-direita anda à desfilada pela Europa e em Portugal com o Chega do gauleiter Ventura e sua claque a desejar três salazares a que faltava um altar onde os ressuscitassem em variadas homenagens memoriais promovendo o seu ressurgimento, em que as sessões interpretativas serão mera retórica que acaba, mal ou bem independentemente dos seus sujeitos e do seu teor, por ser a vestimenta esburacada da emergência da extrema direita radical e populista em Portugal.
Deveriam os promotores e seus associados saber que esse vai ser o mais que certo destino desse Centro, porque é completamente desnecessário para se estudar e interpretar o auto-proclamado Estado Novo, o que pode e deve ser feito nas diversas academias, nas Universidades, nos diversos graus de ensino, nos Museus da Resistência no Aljube e Peniche, com meios documentais e financeiros que esse Centro nunca terá, ressalvando que financeiros talvez venha a ter por doações das oligarquias, as de antanho e as novas, herdeiras e cobiçosas das corrupções que caracterizavam o regime do dinossauro excelentíssimo.
Pacheco Pereira, no cerne da Ephemera e deste Centro, crente da sua suposta superioridade intelectual de político naufragado, tem protagonizado cenas em que acaba muito maltratado. Uma das mais deprimentes foi a do seu debate com André Ventura, debate proposto por ele, em que sai pela porta pequena, como era previsível até pelo mais desavisado ouvinte. Apesar da distância de experiências de vida, conhecimentos, de estatura de erudição e ética e da questão central nunca ser enunciada por estes dos dois defensores da ditadura da burguesia, embora nos seus extremos, o que os diferencia de forma drástica. Um, o Pacheco Pereira, na sua forma mais indolor, até de amável violência que não deixa de quotidianamente revelar as suas asperezas, outro o Ventura na sua forma mais violenta e caceteira, até já exigiram «encostar manifestantes à parede», um rogo a pelotões de fuzilamento, ambos empenhados em proteger e salvar o capitalismo neoliberal das suas crises, num tempo actual produzido pela prosopopeia do mercado que sustenta a mistificação global de um pensamento único que reprime a pluralidade e o humanismo, porque «para impor-se, o capitalismo está interessado só na realização de uma universalidade da regulamentação jurídica, que abraça tudo de maneira igual (…) uma igualdade formal e apenas formal» (Ernst Bloch).
«O que se está a dissimular é que o destino desse Centro será tornar-se um lugar de culto e peregrinação dos saudosistas do salazarismo-fascista»
Pacheco Pereira deveria ter extraído as lições do debate que provocou com André Ventura, onde trespassado pelas mentiras e meias verdades de um trafulha sem escrúpulos, acaba encostado à parede a fazer uma fuga em frente procurando salvar-se do afundamento em que se afogou sem perdão.
Uma lição de que não extraiu conclusões, o que o faria perceber que o destino do Centro Interpretativo do Estado Novo, inaugurado no dia 23 de Outubro, tem o seu destino e futuro traçados no meio da fumaça e dos nevoeiros de umas sessões ditas científicas: será o lugar eleito para a ressurreição de Salazar que muito agradecerá a Pacheco Pereira dando-lhe as botas para ele as engraxar.
Delirantes e muito alegres devem estar os três salazares cheganos, divertidíssimos por terem em Pacheco Pereira, um perdulário pregador todo o terreno, um intelectual que inesperadamente lhes oferece de mão beijada o lugar de celebrações que muito desejavam e que por sua iniciativa, no momento actual, não seriam possíveis.
A farfalhada da argumentação com que se justifica a instalação do Centro Interpretativo do Estado Novo é de uma desonestidade intelectual que até deve estarrecer todo o mundo e ninguém quando assistimos ao crescimento de correntes de extrema-direita, por todo o mundo e em Portugal, pelo que é questão central a construção de frentes antifascistas nos mais diversos contextos históricos e políticos mesmo com o risco de ser um mecanismo precário, até por vezes inconsequente, sempre à beira de rupturas pelas mais diversas e enviesadas brechas no desconcerto do mundo, como as agora abertas em Santa Comba Dão.
No momento histórico em que estamos mergulhados e cercados, a expansão das direitas mais radicais é uma nítida evidência que deveria fazer soar os alarmes nas esquerdas, em todos os democratas na sua pluralidade consequente e mesmo inconsequente, para em tempo útil alicerçarem um frentismo para as combater, por mais frágil que seja. Lamentável, não inesperadas são estas derivas por mais verniz que despejem para edulcorar as óbvias consequências em que que estas suas iniciativas irão desembocar ultrapassados os túneis que as dissimulam.
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