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Lula reeleito Presidente do Brasil

O Presidente Lula da Silva conseguiu a reviravolta e derrotou o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras.

Lula vitória segunda volta

Lula da Silva festeja, com os seus apoiantes, a vitória na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras. São Paulo, 26 de Outubro de 2026

Créditos / Ricardo Stuckert/PR

Numa disputa eleitoral muito polarizada, e depois de ter perdido a primeira volta, Lula da Silva venceu e vai cumprir o seu quarto mandato presidencial, repetindo o êxito de 2002, 2006 e 2022.

Trata-se da primeira vez que um candidato presidencial que ficara em segundo lugar na primeira volta consegue inverter o resultado e ganhar a Presidência da República, desde o regresso do Brasil à democracia, em 1988.

Concluída a contagem final dos votos a nível nacional e no exterior, Lula da Silva obteve 64,256 milhões de votos (51,79%) contra 59,826 milhões de votos (48,21%) de Flávio Bolsonaro, o que o fez distanciar 4,5 milhões votos (uma diferença superior a 3,5%) do candidato derrotado.

Nesta segunda volta votaram 128,2 milhões (80,78%) de brasileiros, mais 2,9 milhões do que na primeira volta, que tivera uma taxa de participação de 78,9%. Também o número de votos brancos e nulos se reduziu para 4,2 milhões contra 6 milhões na primeira volta. Como resultado, pelo menos mais 4,7 milhões de brasileiros expressaram, ontem, um voto decisivo.

Lula da Silva foi também o mais votado em Portugal, tendo obtido 200,2 mil votos (53,9%) contra 171,5 mil votos (46,1%) do candidato derrotado. As áreas consulares de Lisboa e Porto seguiram a tendência geral que deu a vitória a Lula na Europa, de Lisboa a Moscovo, enquanto Flávio Bolsonaro venceu em Faro com 1629 contra 1464 votos, fazendo da cidade do Algarve, à qual se juntaram Kiyv e Atenas, excepções no panorama europeu.

Uma autêntica reviravolta

A reviravolta protagonizada por Lula da Silva e seus apoiantes foi tanto mais inesperada quanto todas as sondagens apontavam para uma elevada probabilidade da eleição de Flávio Bolsonaro, já que os candidatos que ficaram de fora na primeira volta pertenciam às áreas de direita e centro-direita.

Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta com 56,1 milhões de votos (47,03%), contra 53,9 milhões de votos (45,16%) de Lula da Silva, mas três candidatos da direita e centro-direita (Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado) representaram, no conjunto, 8.7 milhões de votos (7,31%) e, apesar de não terem dado indicação de voto ao seu eleitorado, os analistas inclinavam-se para que este pendesse para Bolsonaro.

Afinal, para a segunda volta, o filho do ex-presidente apenas conseguiu captar mais 5,9 milhões de votos, enquanto Lula da Silva foi buscar quase o dobro, 10,3 milhões de votos, entre abstencionistas, votos anteriormente brancos e nulos ou de outras candidaturas.

No Brasil de Fato foi referido que a viragem efectuada pela campanha de Lula, da primeira para a segunda volta, foi fundamental para o desfecho. No início, «a propaganda do petista concentrou-se sobretudo no legado dos seus dois primeiros governos», o que permitiu a Flávio Bolsonaro apresentar-se como o candidato da mudança, do futuro.

Já para a segunda volta, para além da captação de indecisos e abstencionistas, o foco foi colocado nos aspectos mais negativos do clã Bolsonaro, seja do ex-presidente Jair Bolsonaro (responsabilidade por mortes excessivas durante a epidemia de Covid-19, tentativa de golpe de Estado, entre outras), seja do seu filho, do qual foram expostas as relações com milícias de extrema-direita, saudosas do golpismo, e expostas ligações espúrias ao grande negócio e ao crime organizado.

Essa percepção, corroborada por personalidades de direita, incluindo ex-bolsonaristas e próximos da família Bolsonaro, contribuiu para uma deslocação de votos dados como garantidos pela direita. Foi o caso de Joice Hasselmann, jornalista, escritora e ex-deputada federal, ex-bolsonarista e próxima da família Bolsonaro, que rompeu o silêncio e declarou apoio a Lula da Silva, para preservar a democracia: «Sou de direita e voto Lula; Flávio é o pior do clã Bolsonaro, é um bandido».

A 24 horas da segunda volta, o Intercept-Brasil, fazendo eco da recta final de campanha, escrevia:

«O Brasil corre o risco de trocar um estadista, respeitado no mundo inteiro, por um representante das milícias e um herdeiro do golpismo. As conexões de Flávio com o submundo do crime são fortes demais para não termos a convicção de que o Planalto se tornará um puxadinho das máfias que o patrocinam. Mas esse apocalipse está cada vez mais longe de ser inevitável. Nas últimas três semanas, a militância de esquerda e do campo democrático virou o jogo nas ruas e nas redes. A um dia da eleição, as pesquisas mostram empate entre os candidatos, mas com tendência de subida de Lula e queda de Flávio. Ao fim do primeiro turno, a possibilidade de uma virada parecia improvável. Agora já é uma possibilidade real.»

Uma predição que se revelaria certeira.

Até ao lavar do cesto foram as vindimas

A jornada eleitoral, que era para ser às 17h locais, encerrou às 19h após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter ordenado o prolongamento do voto em resposta às denúncias, pela campanha de Lula, de perturbação deliberada da circulação de transportes necessários ao transporte dos eleitores – portanto, impedindo.

Segundo a Telesur, presidentes de câmara opostos a Lula não cumpriram, em municípios importantes e com massa de eleitores favorável ao candidato, com a determinação do TSE para que, no dia da eleição, fosse garantido o transporte municipal em pleno rendimento, como se fosse um dia normal de trabalho.

A equipa jurídica do candidato ao tomar conhecimento dos vários incidentes conhecidos, procedeu a um «recurso urgentíssimo» ao TSE para que fosse prolongado o horário das mesas de voto e «deter em flagrante os responsáveis» identificados. A candidatura de Lula afirmou que «a redução da frota prejudica principalmente eleitores de baixa renda, que dependem do serviço para chegar aos locais de votação e retornar para casa».

As situações mais graves verificaram-se em São Paulo e na Bahia. Eleitores de ambos os estados relataram à BBC News Brasil horas de espera e muita dificuldade para pegar transporte público e chegar às suas zonas eleitorais no domingo.

Em São Paulo, a SPT Trans reconheceu ter sido notificada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ainda no sábado, da determinação de colocar 100% da frota em operação no domingo, mas não cumpriu mais de 60% da mesma.

Já na cidade de Salvador o TRE da Bahia determinou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, após problemas envolvendo a retenção de autocarros durante o segundo turno. Devido à situação em municípios da Bahia, incluindo a »supressão de mais de metade da frota desde manhã» e «autocarros fora de circulação, pontos e terminais lotados, esperas prolongadas e eleitores impossibilitados de chegar às secções», o PT também pediu a prisão do prefeito Bruno Reis (União Brasil).

Em declaração recolhida pelo Brasil de Fato, Lula da Silva afirmou que «não vamos permitir que haja roubalheira, banditismo e prefeito bandido. Não vamos aceitar banditismo, mau-caratismo de prefeito, de governador e de empresário».

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