Hollande, Erdogan e as extremas-direitas

Os povos francês e turco são as duplas vítimas dos efeitos conjugados da guerra e do terrorismo e, simultaneamente, do comportamento dos seus dirigentes em exercício.

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França e Turquia concentram as tensões e as atenções nestes dias por serem os epicentros do tumulto mediático obrigatoriamente constante e vertiginoso que engorda os impérios globais da comunicação social. Tal acontece pelas piores e mais trágicas razões, se bem que não suceda por acaso nos citados países, nem por razões assim tão díspares quanto poderia supor-se.

Os povos francês e turco são as principais vítimas dos trágicos acontecimentos. Duplas vítimas, deve dizer-se, porque sofrem as contingências dos efeitos conjugados da guerra e do terrorismo e, simultaneamente, as consequências nefastas do comportamento dos seus dirigentes em exercício. Porque a democracia é a outra grande vítima do que está acontecer.

Mesmo assim, associar Hollande e Erdogan no mesmo patamar de actuação lesiva contra os seus concidadãos não será um exagero? Poderá parecer, mas o que conta são os resultados – não é assim que a tecnocracia vigente recomenda?

Façamos uma resenha do que tem sido a prática política do presidente turco Recep Tayyp Erdogan, antes e pós-golpe – ou autogolpe – no seu país.

Levando à prática a máxima de referência do seu ideário confessionalista e fundamentalista – «a democracia é como um eléctrico de que descemos quando chegamos ao destino» – tem usado o poder, conquistado inicialmente em eleições livres, para reforçar posições através de eleições já manipuladas, derivando num sentido presidencialista e, a partir de agora, absolutamente autocrático - ou não fosse a suposta intentona um «presente de Deus», como ele diz.

A família Erdogan extrai abundantes proveitos das suas ligações aos grupos terroristas

No plano interno e regional, Erdogan é, juntamente com a Arábia Saudita, quem mais tem sustentado o universo terrorista dito islâmico, onde pontificam actualmente o Estado Islâmico (ou Daesh ou ISIS) e a Al-Qaida, também conhecida de muitas outras maneiras – na Síria é Frente Al-Nusra. Um apoio de «muitos milhões de dólares» ao Daesh, como admitiu em 2014 o vice-presidente norte-americano Joseph Biden, a propósito do comportamento da Turquia. Além de bases de treino, centros de recrutamento e hospitais clandestinos para os terroristas, um dos quais, perto de Sanliurfa, é gerido por Sumeyye Erdogan, filha do presidente.

A família Erdogan extrai abundantes proveitos das suas ligações aos grupos terroristas. O filho Bilal, através do seu BMZ Group, é um dos armadores activos no escoamento do petróleo roubado no Curdistão iraquiano e depois contrabandeado pelo Daesh, usando portos turcos. Imagens de satélites não mentem quando dão conta do intenso movimento transfronteiriço de camiões cisterna dos terroristas entre a Síria e a Turquia.

A revelação interna destes escândalos e do compadrio entre o presidente Erdogan e o tesoureiro da Al-Qaida, o banqueiro saudita Yassin-Qadi, determinou as primeiras purgas nos aparelhos militar, policial e judiciário da Turquia. Percebem-se perfeitamente as razões pelas quais as primeiras medidas de aproveitamento do suposto golpe traduzem o reforço e a massificação desta gigantesca limpeza.

É ao presidente Erdogan, ainda considerado formalmente um democrata pelas instâncias de Bruxelas, a quem a União Europeia paga três mil milhões de dólares anuais dos nossos impostos para que retenha os refugiados de guerras provocadas e alimentadas pelas principais potências europeias.

Entre as quais a França de Hollande.

Foi com a Turquia de Erdogan que a França de Hollande negociou um acordo mediante o qual o regime turco faria todos os possíveis para que não houvesse atentados do Daesh em território francês durante o Euro 2016. Em troca, Paris compromete-se a apoiar a criação de um Estado curdo fantasma no Norte da Síria. Uma entidade a instaurar mediante limpezas étnicas e a entregar a uma ala do Partido da União Democrática (PYG) chefiada por Salih Muslim, na realidade um espião turco protegido pelo MIT, os serviços secretos de Ancara, responsáveis também pela articulação entre o regime e o universo terrorista. Esse território será o destino das vítimas de deportações em massa dos curdos da Turquia, que Erdogan estará a planear e poderão ser facilitadas pelas condições resultantes do recente golpe.

É importante recordar factos demonstrativos da cumplicidade real entre sectores do Estado francês e o terrorismo islâmico, principalmente nas operações de desmantelamento da Líbia e da Síria. A França foi a principal potência, juntamente com o Reino Unido, que protegeu a ofensiva mercenária islâmica até Tripoli sob a bandeira da NATO, e que gerou o caos com que se debate aquela que foi outrora a nação líbia.

Foi com a Turquia de Erdogan que a França de Hollande negociou um acordo mediante o qual o regime turco faria todos os possíveis para que não houvesse atentados do Daesh em território francês durante o Euro 2016

Foi sob a presidência de Sarkozy, dir-se-á. Mas foi já na presidência de Hollande que o chefe terrorista líbio Abdelhakim Belhadj, compagnon de route de Bin Laden e nomeado comandante militar de Tripoli pela NATO, foi recebido em Paris no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Aconteceu em Maio de 2014: nessa altura, Belhadj já organizara vários grupos de terroristas na Síria, sob o chapéu clintoniano dos «amigos da Síria», com os quais a administração de Hollande está envolvidíssima. Ora, segundo a Interpol, Abdelhakim Belhadj, além de ter fundado o partido paramilitar islamita El-Wattan na Líbia é também o chefe do Estado Islâmico, ou Daesh, no Magrebe.

Também não é segredo o elogio público ao terrorismo feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Hollande, então Laurent Fabius, durante uma conferência dos «amigos da Síria» em Casablanca (Marrocos): «os tipos da Al-Qaida estão a fazer um bom trabalho».

Da mesma maneira que Erdogan, Hollande dirige a França em «estado de emergência» escudando-se na necessidade de combater o terrorismo. Os êxitos, como se sabe, são mitigados ou nulos.

Porém, foi em «estado de emergência», estendido ao próprio funcionamento da Assembleia Nacional, que Hollande e o seu primeiro-ministro Valls impuseram a lei laboral que cilindra os direitos dos trabalhadores franceses e continua a ser contestada nas ruas de muitas cidades do país. Foi também para escapar à contestação de um elevado número de deputados do seu próprio partido que Hollande e Valls decidiram institucionalizar a lei laboral sem a submeter ao Parlamento, invocando para tal uma norma constitucional que apenas pode ser usada uma vez por legislatura.

Conjugando esta diligência com os esforços em desenvolvimento para constitucionalizar o conteúdo repressivo do «estado de emergência» – que tem vindo a ser sucessivamente prorrogado – verifica-se que a França está cada vez mais próxima do Estado policial.

Hollande e Erdogan: ou como dois «democratas», segundo os parâmetros de Bruxelas, cumprem os desígnios das extremas-direitas sem que estas precisem de chegar formalmente ao poder.

 

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