Coimbra ― Cidade bombardeada

Talvez porque o resto do país esteve também a ferro e fogo, calculo que o governo só tardiamente se tenha apercebido da gravidade do acontecido em Coimbra e venha agora espreitar a profundidade do buraco, olhar os escombros e estudar alguma forma de reparação.

Hospital dos Covões, em Coimbra
Hospital dos Covões, em CoimbraCréditosskyscrapercity.com

No dia 15 deste mês de Setembro, o centro das atenções governamentais desloca-se para Coimbra, onde haverá um evento comemorativo do SNS e um Conselho de Ministros dedicado exclusivamente à Saúde.

A iniciativa partiu do Conselho de Administração (CA) do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), proveniente da «fusão» do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) com os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).

O pretexto invocado são os 37 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), um número pouco redondo para grandes comemorações, o que leva a reflectir sobre as verdadeiras razões do acontecimento.

Poder-se-ia pensar que a justificação se encontra na natural presença do governo numa região de catástrofe ou de guerra. De facto, Coimbra foi bombardeada por forças inimigas que conseguiram atingir um dos dois hospitais centrais existentes (o Hospital Geral dos Covões) e a linha do caminho-de-ferro da Lousã, deixando ainda, para além de outros focos de devastação, uma enorme cratera aberta no centro histórico da cidade.

Talvez porque o resto do país esteve também a ferro e fogo, calculo que o governo só tardiamente se tenha apercebido da gravidade do acontecido e venha agora espreitar a profundidade do buraco, olhar os escombros e estudar alguma forma de reparação.

A linha da Lousã, que desde 1885 tanto jeito fazia à população da região, deve ter sido alvo de bombas convencionais que fizeram saltar os carris em todo o percurso, destruindo estações e apeadeiros e arrasando muitos edifícios do casco velho citadino. E, apesar dos quase 150 milhões de euros já gastos em estudos para a recuperar (agora está em curso mais um), continua a não haver nada, excepto a sociedade «Metro Mondego», que tem alimentado algumas alminhas para satisfação das próprias e desespero das gentes.

Já no que diz respeito ao Hospital Geral dos Covões, unidade nuclear de um dos dois centros hospitalares de Coimbra ― o Centro Hospitalar de Coimbra ―, devem ter utilizado uma bomba de neutrões porque os edifícios ficaram intactos, mas quase vazios. Desapareceram completamente os Serviços de Gastrenterologia, Neurologia, Neurocirurgia, Urologia, Infecciologia, Hematologia e do Laboratório de Bioquímica, com a Oftalmologia e a Otorrinolaringologia muito amputadas e outras valências, como a Cirurgia Toracoscópica, referência nacional, desaproveitadas. 

Das Urgências, ficaram apenas uns restos durante a semana, com médicos contratados que nem sequer podem contar com o apoio das especialidades do hospital, que já não as tem, fechando as portas à noite e aos fins-de-semana.

«Coimbra foi bombardeada por forças inimigas que conseguiram atingir um dos dois hospitais centrais existentes (o Hospital Geral dos Covões) e a linha do caminho-de-ferro da Lousã, deixando ainda (...) uma enorme cratera aberta no centro histórico da cidade.»

Para adoçar o pior com palavras de açúcar, o assalto foi apresentado como uma «fusão», e os despojos foram abarbatados pelos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), como se ao Benfica fosse dada a possibilidade de pilhar o Sporting e de lhe roubar jogadores, treinadores, equipa técnica e móveis, à vontade.

O que emergiu deste caos (que teve outras frentes ligadas à Saúde Mental, à Maternidade e ao Hospital Pediátrico de Coimbra) chama-se Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), que, na realidade, corresponde aos HUC inchados de médicos e doentes, refugiados do ataque (tendo as chefias também inchado em número e auto-satisfação), todos a acotovelarem-se nas já limitadas instalações dos HUC, enquanto, do outro lado do rio, existem gabinetes, enfermarias e o moderno bloco operatório do Hospital dos Covões, que, para além dos serviços que escaparam e ainda aí funcionam (bem), mantêm capacidades desaproveitadas ou usadas para tarefas menores.

Como acontece em todos os cenários de guerra, ao lado de episódios de entreajuda e solidariedade, pulularam os pequenos interesses, os espíritos mesquinhos com carreiras sinuosas impregnadas de inveja e de oportunismo, toleradas e geridas pelo poder no terreno ― Conselho de Administração, Direcção Clínica e gerentes intermédios, que, repetindo o papaguear da pior propaganda, proclamam estarem centrados no «doente», «utente» ou «cliente», cada vez mais desprezados.

E com esses bombardeamentos em prol da população e promessas de «modernizar» o ramal ferroviário da Lousã e de «garantir e aperfeiçoar» o SNS, os pobres cidadãos ficaram a pé, sem carris nem comboios e com um dos dois grandes hospitais centrais gravemente amputados, enquanto a grande privada floresce.

Foi esse o resultado da melhor e mais complexa «fusão hospitalar» da Europa, assim apregoada pelo presidente do CA dos CHUC, que começou por ser promulgada pelo governo de Sócrates para depois ser continuada pelo tapete de bombas do governo PSD/CDS, que nomeou o estado-maior que comandou o saque final, fragmentando, descaracterizando e desorganizando Serviços e Hospitais com história e prestígio, apagando-lhes os nomes e logótipos, transformando-os num amontoado de «unidades de gestão intermédias» e «unidades funcionais» autónomas ou não autónomas, que os dividiram transversal e longitudinalmente, quebrando-lhes a unidade, a coerência e o saber.

Tudo mal feito e mal estudado, apenas sujeito aos condicionamentos ditados por jogos de influência e ambições de poder, sem ter em conta a importante capacidade instalada, nem a complementaridade organizacional e técnica existentes, criando grosseiras distorções assistenciais e entorses graves ao normal funcionamento de todo o conjunto.

Arredado o governo da troika (PSD/CDS) pelo voto dos portugueses, a sanha amainou, mas a ruínas ficaram, e talvez o CA do CHUC tenha pensado redescobrir o caminho da redenção ou, quem sabe, uma segunda vida, comemorando os 37 anos do SNS com o primeiro-ministro e toda a equipe ministerial da Saúde, coroando o seu súbito amor pelo serviço público com a inauguração de uma estátua ao mais prestigiado fundador do SNS, António Arnaut, honra que ninguém contesta, embora merecesse melhor momento e mais sinceros padrinhos. E, cereja em cima do bolo, o evento desenrola-se sob o lema «Serviço Nacional de Saúde e o resgate da dignidade».

Afinal, que mais podemos esperar? Resgate do SNS ou do CA dos CHUC?

Pode começar-se a resgatar a dignidade do SNS revertendo todas as medidas que o puseram em causa, começando por devolver aos Covões o estatuto de Hospital Central com todas as valências e especialidades, repondo o respeito pela identidade, autonomia e experiência anteriormente alcançadas por essa e outras unidades hospitalares do antigo CHC, que devem ser aprofundadas e não sacrificadas a comezinhos jogos de poder.

Nenhuma parte desse caminho pode ser palmilhada por quem tudo fez para destruir o SNS, defendendo uma visão da Saúde ligada à «liberdade dos mercados», à «oportunidade de negócio», «ao empreendedorismo», as delícias de tantos pequenos seguidores de Milton Friedman.

«Fazer apenas uns retoques, mudar de boys ou encenar juras de amor ao SNS é apenas um engano de quem não o quer ver crescer com saúde.»

Apresentado numa entrevista em 2014 como «CEO dos CHUC» (www.youblisher.com), José Martins Nunes, presidente do CA e agora promotor do «resgate da dignidade do SNS», apontava, como um dos objectivos do grande centro hospitalar público que administra, a internacionalização da «marca», orgulhando-se ― num delírio mais próprio dos Mellos da CUF ou de Isabel Vaz, CEO da (agora chinesa) BES Saúde ―, por os CHUC terem concorrido à concepção e gestão de um hospital na... Argélia!

«Concorremos a um projecto da Argélia apenas com um consórcio nacional mas estamos a preparar outro consórcio para outro país, onde vamos concorrer com a Siemens e com a Bayer, que são alemãs [...], sobretudo na área dos países árabes onde, depois destas convulsões, não podem distribuir dinheiro pelas pessoas porque não pagam impostos [...]; é esse o grande investimento e há uma série de oportunidades conjuntas.»

Argélia, o «Nobel´s day» em 2014, com o então ministro Macedo e quatro laureados (que não vieram participar em nenhum congresso da sua área científica mas para inspirar os media e o público em geral), Centro de Ensaios Clínicos ― fase 1 também inaugurado na altura e que continua sem sinais de vida. Tudo, como se poderia dizer nesta nossa era digital, enviado para «a nuvem».

E, enquanto a Administração dos CHUC vogava nestes sonhos de empreendedorismo (tendo, felizmente, perdido o concurso da Argélia), não se esquecia de maltratar os seus mais humildes trabalhadores, recusando-se a pagar o salário mínimo a mais de uma centena de Assistentes Operacionais, copiando, também aí, os piores vícios do grande patronato.

Um excelente exemplo do «resgate da dignidade do SNS», by CA dos CHUC.

Na realidade, para resgatar verdadeiramente o SNS, torna-se imprescindível romper com este caminho, mudando decididamente o rumo da política de Saúde. Fazer apenas uns retoques, mudar de boys ou encenar juras de amor ao SNS é apenas um engano de quem não o quer ver crescer com saúde.

Talvez seja essa a melhor mensagem a deixar ao actual ministro da Saúde.