A Cimeira da Cacofonia

Seguindo a agenda estabelecida, lateral aos problemas reais e de fundo da Europa, os chefes de Estado e de governo abordaram o problema do terrorismo mas segundo uma equação comprovadamente falsa, fazendo crer que existe uma correspondência entre refugiados e terror.

CréditosChristian Bruna - EPA / Agência LUSA

Proferiram-se monólogos repetindo chavões, insistindo em soluções fracassadas ou então sugerindo inovações que não penetram em cabeças formatadas; não se escutaram uns aos outros, entretiveram-se numa grotesca cacofonia e regressaram a casa mais próximos do desfecho que dizem tentar evitar. A cimeira europeia de Bratislava foi realmente extraordinária: funcionou como uma comissão liquidatária.

Durante semanas a fio falou-se das enormes expectativas da cimeira extraordinária convocada para a capital eslovaca com o objectivo de redesenhar o futuro da União Europeia depois do abandono decidido pela vontade livre e soberana dos britânicos, numa rara consulta à opinião dos cidadãos sobre as matérias europeias.

Multiplicaram-se reuniões preparatórias bilaterais, multilaterais, regionais; até o Sul ousou querer ter uma opinião, desde logo contaminada pela presença de Itália e França, onde a geografia é uma coisa e a mentalidade dirigente elitista e xenófoba é outra – e prevalecente. Os europeístas de todos os matizes, mas principalmente aqueles que, em defesa da democracia, não permitem que nada se diga e faça em desabono da União Europeia, acreditaram com toda a fé em que, agora sim, a União Europeia iria encontrar o rumo convincente.

Porém, ficou tudo na mesma, isto é, bastante pior porque os dirigentes europeus falaram sempre ao lado daquilo que os poderia e deveria ter mobilizado. Não tiveram a coragem de admitir que o funcionamento e as prioridades actuais da União são um erro suicida de uma ponta à outra, pelo que, numa situação destas, estagnação é degradação. Só os incondicionais europeístas ainda acreditam, acreditam sempre, porque o seu mundo já não é deste mundo.

Seguindo a agenda estabelecida, lateral aos problemas reais e de fundo da Europa, os chefes de Estado e de governo abordaram o problema do terrorismo mas segundo uma equação comprovadamente falsa, fazendo crer que existe uma correspondência entre refugiados e terror. Uma equação tão verdadeira como zero ser igual a cem, porque abundam provas de que a génese do terrorismo está aqui, na Europa, decorrente da desumanidade e segregacionismo das políticas económicas, sociais e culturais da União Europeia, agravadas com o alinhamento trágico pela selvajaria neoliberal.

Por isso os dirigentes não identificam as verdadeiras razões do terrorismo, ou não as querem identificar. Daí que a proposta sensata alvitrada pelo primeiro-ministro António Costa, no sentido de reestruturar e humanizar as cidades e as políticas económicas como passo essencial para combater as fontes de terrorismo, tenha passado por Bratislava como uma espécie de sermão aos peixinhos.

«Naturalmente a ideia dominante que passou foi a de a Europa continuar a barricar-se contra os refugiados, devendo a Alemanha proceder de igual modo, ao menos depois de preencher as suas necessidades demográficas de trabalho escravo»

Naturalmente a ideia dominante que passou foi a de a Europa continuar a barricar-se contra os refugiados, devendo a Alemanha proceder de igual modo, ao menos depois de preencher as suas necessidades demográficas de trabalho escravo – uma faca de dois gumes para a senhora Merkel, que começa a ver-se em palpos de aranha com o fascismo puro e duro, agora chamado «Alternativa para a Alemanha» e manipulado por velhos e novos interesses, para quem as benesses do império extorsionário do euro são sempre insuficientes.

No caminho da construção da barricada continental, os participantes na cimeira da Bratislava voltaram a entreter-se com a formação do exército comum europeu, ideia tão cara ao senhor Hollande, que se vitimizou perante os pares como o «único que defende a Europa».

Retoma-se assim uma cassete da guerra fria através da institucionalização da fusão entre a União Europeia e a NATO, sendo que, a concretizar-se, os tão fiscalizados orçamentos dos agora 27 passarão a ser onerados com uma dupla colecta para a guerra, o que não será dizer pouco quando os atlantistas exigem cada vez maior participação dos contribuintes nas suas aventuras agressivas através do mundo. Provou-se assim que, numa cimeira pretensamente sobre os novos rumos da União, e que se declarou tão inquieta com os refugiados, um dos principais alvitres, o da militarização, seja uma potencial fonte de novos refugiados.

Acresce que, neste contexto, nada do que constou sobre a reunião de Bratislava tem a ver com hipotéticos esforços para solucionar guerras provocadas e sustentadas com a participação de membros da União Europeia, como sejam as do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria, do Iémen e mais algumas, todas elas fortes emanações de refugiados.

Finalmente, no meio da cacofonia chegou também, em Bratislava, o momento de dar gás à mezinha que promete mundos e fundos para salvar a economia da União Europeia, o famoso «plano Juncker» para dinamizar a actividade e alcançar o celebérrimo «crescimento sustentado». Um pouco mais do mesmo: a União Europeia como instrumento de extorsão dos cidadãos ao serviço dos especuladores e da banca, neste caso através do Banco Europeu de Investimento (BEI) com amén do Banco Central Europeu (BCE), alimentando o Luxemburgo como paraíso financeiro e uma das praças da especulação mundial.

Xenofobia contra os refugiados, militarização e paranoia securitária e especulação financeira ditando sobre a actividade económica, eis o que os dirigentes europeus encontraram em Bratislava para traçar novos rumos e salvar a União Europeia após o brexit. Podiam ter poupado a viagem.

Por este andar e continuando por um desastroso caminho, afinal tão conhecido, o mais provável é que não tardem novos «exits». Mais certo ainda é que saiam todos ao mesmo tempo: as implosões acontecem.