Cenas explícitas

«Uma história pornográfica entre pecadores», diria eu da história que nos vende como governantes os que nunca foram outra coisa senão administradores ou moços de recados de empresas.

CréditosYannis Kolesidis / EPA

«Uma história muito sexy entre dois pecadores» foi como Christoforos Sardelis, presidente da Agência para a Gestão da Dívida Pública da Grécia descreveu o negócio realizado em 2001 entre o Governo da Grécia e a Goldman Sachs (GS), por sugestão desta última, apresentada como forma de ocultar dívida com recurso a uma complexa operação que rendeu à GS mais de 600 milhões de euros, cerca de 12% do resultado líquido da unidade de grandes negócios da GS desse ano.

O agravamento da crise financeira e a natureza especulativa da operação agravaram os custos para a Grécia, que, em 2005, já devia mais do dobro do valor inicial do negócio. Mario Draghi, então director do departamento internacional da GS, acompanha todo esse negócio seis anos antes de ser cuidadosamente escolhido para governador do Banco Central Europeu.

Em 2009, a Grécia é aliciada novamente pela GS para um negócio que visava empurrar a dívida do Serviço Nacional de Saúde para o futuro. O negócio não avançou.

Em 2004, Durão Barroso é convidado a presidir à Comissão Europeia. Esse convite é anunciado em Portugal como um factor de grande reconhecimento e potencialidades para o país. Afinal de contas, ter um português à frente da União Europeia só podia ser visto como um orgulho nacional e uma possibilidade de abrir novas portas a Portugal no seio da União Europeia. E ai de quem dissesse o contrário!

Aliás, estar ali naquele topo do velho mundo era elevar um português ao patamar do inquilino da Casa Branca, com quem Durão Barroso inclusivamente já tinha comido uns croquetes na Base das Lajes, ao mesmo tempo que comprometia Portugal com as mentiras das armas de destruição em massa que lançaram o mundo numa nova escalada de violência global. O sangue dos inocentes é impossível de lavar das mãos dos culpados.

A realidade, porém, não apenas demonstrou que a pátria de Durão Barroso não é Portugal, como mostrou que, enquanto Durão Barroso presidiu à Comissão Europeia, a situação do povo português se degradou a um ritmo muito acentuado. Não admira, o senhor andava certamente ocupado a combater os efeitos nefastos dos direitos dos povos nos negócios da banca. A realidade demonstra com muito pouco espaço para dúvidas que aquilo que era visto como um mais dos fantasmas e alarmismos dos comunistas portugueses é afinal a mais fiel caracterização da arquitectura do super-Estado que dá pelo nome de União Europeia: um projecto imperialista e belicista, concebido e erguido pelos grandes grupos económicos, como forma de institucionalizar o funcionamento capitalista da sociedade e de impor a lei dos patrões a todos os trabalhadores, pela lei, pela finança e gradualmente pela força.

Mario Draghi vem da Goldman Sachs para o BCE; Barroso vai da Comissão Europeia para a Goldman Sachs e aqui vamos vendo Maria Luís Albuquerque passar aos quadros da Arrow Global – empresa que comprou activos do BANIF quando o banco era tutelado por ela própria – e Paulo Portas a ingressar no maravilhoso mundo da actividade empresarial, na área internacional, porque quem se habitua a viajar já não quer outra coisa. Enquanto estes – que são apenas alguns dos nomes possíveis – se passeiam pelo mundo do luxo e da opulência, os gregos sofrem uma política cada vez mais opressora de aumento da exploração, primeiro pela mãos do PASOK e da ND, e agora pelas mãos da SYRIZA, e os portugueses pagam os juros de uma dívida que nunca contraíram, por submissão ou escolha servil de PS/PSD/CDS.

«Uma história pornográfica(1) entre pecadores», diria eu da história que nos vende como governantes os que nunca foram outra coisa senão administradores ou moços de recados de empresas. Uma história pornográfica que vai constituindo, a pouco e pouco, uma estrutura de domínio dos grandes grupos económicos sobre as pessoas, debaixo da capa da «democracia ocidental» e da «União Europeia», que afinal mais não são que a institucionalização da corrupção, semente de todos os fascismos.

Como dizia um camarada meu, «eles não mudaram de emprego nem de patrão, a diferença é que agora o nome vem na folha de pagamentos».


(1) pornografia | s. f.; Estudo ou descrição da prostituição, do grego, pornos=prostituta e grafo=escrita, gravura.