Arranca o congresso da CGTP com milhares de participantes

Mais de mil trabalhadores, activistas e dirigentes sindicais desfilaram esta manhã pelas ruas do Seixal, numa acção que precedeu a intervenção de abertura do XIV Congresso, feita pelo secretário-geral, Arménio Carlos.

CréditosMÁRIO CRUZ / LUSA

Os manifestantes, que desfilaram pelas ruas a gritar palavras de ordem como «90 euros de aumento do salário é urgente e necessário», chegaram ao Pavilhão Municipal da Torre da Marinha, no Seixal, onde decorre o congresso da Intersindical.

Na intervenção de abertura, Arménio Carlos, que deixa o cargo de secretário-geral neste congresso, começou por saudar a presença das delegações internacionais, que ontem participaram numa conferência em que se falou das lutas sindicais em vários países.

Segundo o dirigente, a presença destas delegações contribuiu para a reflexão e enriqueceu os trabalhos do congresso com exemplos «que trazem esperança, num momento em que crescem as ameaças, recrudesce a ingerência e se generaliza o discurso do ódio, do racismo e da xenofobia na razão directa da crise estrutural do sistema capitalista e do desenvolvimento de ideias protofascistas».

Lembrando os 50 anos que cumprirá em Outubro a Intersindical, Arménio Carlos saudou também os trabalhadores, que são «a força de sempre da CGTP-IN e o motor da transformação e alavanca do desenvolvimento» do País.

Referindo-se aos ataques sofridos durante o tempo da troika, acrescentou que a retirada de direitos teria sido permanente se não tivesse havido luta organizada dos trabalhadores.

Arménio Carlos afirmou que este congresso se realiza numa época de avanços científicos que são fruto do trabalho mas que não são postos ao serviço da melhoria das condições de vida da maioria das pessoas. Pelo contrário, o dirigente denuncia os poucos que mantêm a precariedade e a exploração, e privam milhões de seres humanos «dos mais elementares direitos e condições».

Acusando a União Europeia de impôr medidas «anti-sociais» e «anti-laborais», o dirigente lembrou que a CGTP-IN «não atirou a toalha ao chão» e travou o processo de empobrecimento e retirada de direitos desenvolvido pelo governo PSD/CDS-PP, que os trabalhadores conseguiram derrubar.

«Valeu a pena lutar! Com a luta reconquistámos aquilo que o capital já tinha dado como ganho para todo o sempre. Tornámos possível aquilo que parecia impossível», disse o dirigente.

Na sua intervenção deixou também críticas ao PS, que, aliado ao PSD e CDS-PP, mudou a legislação laboral «para pior», em vez de aproveitar a correlação de forças para encontrar soluções à esquerda e romper com a política seguida até aqui.

«Uma tal política de respostas sempre adiadas, um Governo que prioriza o saldo orçamental em detrimento da justiça social é a sementeira para a evolução do populismo e o ressurgimento da extrema-direita, que se alimenta destas contradições, que as usa como elemento de atracção, que procura dividir e criar falsos antagonismos entre os explorados, para que prossiga a acumulação dos exploradores», sublinhou.

O dirigente divulgou o número de 114 683 trabalhadores sindicalizados durante este mandato e garantiu que a luta vai continuar pela melhoria da condições de vida dos trabalhadores, o aumento dos salários e o desenvolvimento do País.

Os mesmos princípios, uma direcção renovada

O congresso é marcado pela saída de um terço dos dirigentes do Conselho Nacional e de nove membros da Comissão Executiva, incluindo o secretário-geral, estando proposta a sua substituição por Isabel Camarinha, até agora dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP/CGTP-IN).

Esta reunião magna vai concretizar uma das maiores renovações da central sindical, uma vez que vão ser substituídos 55 dirigentes que integram o Conselho Nacional, uns porque atingiram o limite de idade e outros porque foram substituídos na coordenação das respectivas uniões ou federações sindicais.

Entre os dirigentes que saem por motivo de idade estão o secretário-geral, Arménio Carlos, Deolinda Machado, Ana Avoila, Carlos Trindade, Augusto Praça, João Torres, Graciete Cruz e Fernando Jorge Fernandes, todos eles da Comissão Executiva.

Da corrente socialista, Carlos Tomás deixa também a Comissão Executiva, porque se reformou recentemente, embora ainda não tenha 60 anos.

O novo Conselho Nacional será eleito após o encerramento do primeiro dia de trabalhos do congresso e fará a sua primeira reunião de imediato, para eleger a sua Comissão Executiva e o novo secretário-geral.

Os dois dias de congresso vão ser quase totalmente ocupados com a discussão do documento programático para os próximos quatro anos, que pode ainda sofrer alterações fruto da discussão.

Os eixos centrais do documento incluem a reivindicação de melhor distribuição da riqueza e melhores salários, o combate efectivo à precariedade e à desregulação dos horários de trabalho, a alteração do Código do Trabalho, para reintroduzir o princípio do tratamento mais favorável e retirar a possibilidade de caducidade das convenções colectivas, o respeito pela liberdade sindical e a melhoria dos serviços públicos.