A absolvição de Donald Trump

Agora sim, o presidente dos Estados Unidos age como lhe compete: trata a Rússia como o inimigo que, com todo o descaramento, procura impedir a balcanização da Síria, assim contrariando o incontrariável Israel; e aponta o dedo ameaçador à China, usando a Coreia do Norte como intermediário.

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Donald Trump
Donald TrumpCréditosOlivier Douliery / POOL/EPA / Agência Lusa

As reprimendas duras de amigos e aliados, a revolta caricaturada em manifestações inconsequentes e mesmo as conjecturas sobre um hipotético impeachment de Donald Trump cessaram como por encanto.

Secaram as lágrimas de crocodilo sobre a tragédia dos imigrantes que a Administração norte-americana declara ilegais; os muros e cercas erguidos na fronteira entre os Estados Unidos e o México passaram a ser compreendidos, como tolerados são os levantados na Europa contra a «praga» dos refugiados (David Cameron dixit); o triste fim do pueril Obamacare perdeu o significado como bandeirinha de um protesto hipócrita, acomodada agora nos fundos de uma qualquer gaveta perdida.

Dissolveu-se assim a tempestade sobre Washington, soprada a partir do mundo que se auto define como civilizado durante os primeiros 100 dias da presidência imperial de Donald Trump. Para alcançar tão pacífica acalmia bastaram um bombardeamento contra o território soberano da Síria; o lançamento de uma superbomba contra o Afeganistão supostamente independente – um feito heróico cantado numa babel de línguas, ainda que viole algumas normas básicas da ONU; um piedoso acto de contrição declarando que «a NATO já não é obsoleta»; e uma arenga com ameaças de guerra contra a Coreia do Norte proferida in loco pelo vice-presidente Mike Pence, imitando uma pose do rambo.

Pronto, já está. Restaurou-se a situação global de déja vu, porém com tonalidades ainda um pouco mais assustadoras: durante umas semanas, o irresponsável e truculento fascistóide Donald Trump esteve aquém da sanha guerreira universalizante dos seus tradicionais aliados, entre eles os principais dirigentes da União Europeia, mas também os menos principais, garnizés que gostam de parecer importantes cacarejando aquilo que os verdadeiramente influentes desejariam proclamar mas têm acanhamento. Trump está absolvido dos pecados originais, frutos da verdura da inexperiência e de um mal pesado voluntarismo.

Os cientistas nucleares de Chicago que gerem o Relógio do Apocalipse podem agora mover os ponteiros mais uns segundos em direcção à meia-noite fatal, depois de os terem deixado a dois minutos e meio já em Janeiro deste ano. Nessa altura, Donald Trump nem sequer aquecera ainda a cadeira do gabinete oval e mal começara a receber lições da CIA sobre a localização nos mapas desses países esquisitos como a Síria, o Iémen, a Coreia do Norte ou mesmo o Irão e a Ucrânia. Até então ele apenas conhecia a existência dos Estados Unidos da América e, já durante a campanha, ouvira falar de Israel quando fazia as contas aos donativos eleitorais.

Agora sim, o presidente dos Estados Unidos age como lhe compete: trata a Rússia como o inimigo que, com todo o descaramento, procura impedir a balcanização da Síria, assim contrariando o incontrariável Israel; e aponta o dedo ameaçador à China, usando a Coreia do Norte como intermediário, para que não se atreva a ensombrar a estratégia de «pivot asiático», um upgrade da dominação imperial promovido por Obama, com a colaboração do convenientemente ressuscitado militarismo nipónico.

Em menos de 100 dias consumou-se um reenquadramento da estratégia global da Administração Trump, sumariamente expurgada dos arroubos que ainda reproduziam ecos das macacadas da campanha eleitoral. A mensagem «nova» do candidato Trump, e que arrastou muitos eleitores, conjugava uma política interna ultranacionalista, do tipo «a América para os americanos», com uma política externa de convivência possível com os inimigos, privilegiando o civil sobre o militar, poupando recursos ao reduzir os esforços de guerra. Combinação que se articulava ainda com uma correcção dos caminhos a percorrer com os aliados, designadamente a revisão das estratégias comerciais, opção que implicou a suspensão dos acordos multilaterais de comércio livre.

Orientações como estas reflectiram-se nas escolhas iniciais para construção do edifício da Administração, através da escolha de figuras habitualmente menos mediáticas representando interesses dos grandes e tradicionais empórios económicos civis; sectores há muito submetidos às migalhas da mesa do orçamento, devido à estratégia de criação de guerras público-privadas assumida a partir da queda do Muro de Berlim.

Durante escassas semanas foi impossível detectar sombras de lobistas dos enormes impérios da indústria de guerra no interior da estrutura de conselheiros de Trump. O próprio secretário de Estado, Rex Tillerson, ex-patrão da Exxon-Mobil, foi esporadicamente um partidário dos entendimentos com a Rússia, devido aos negócios conjuntos da sua empresa com a Gazprom na exploração de petróleo em território russo e no Golfo do México.

«Hoje, as linhas gerais da estratégia de Trump são idênticas às dos seus antecessores desde a década de oitenta do século passado (...)»

As primeiras escolhas do novo presidente abalaram o status quo da ordem capitalista neoliberal instalada, porque reordenavam os interesses e as influências determinantes sem bulir com o primado da selvajaria de mercado.

Por isso, as testas-de-ponte mais activas na ordem dominante e à cabeça dos partidos-Estado – Hillary Clinton pelos democratas e John McCain pelos republicanos – não descansaram enquanto não corrigiram alguns erros de casting na estrutura da nova administração, movendo as suas ligações e influências na constelação dos serviços de espionagem e entre os militares.

O anúncio de um reforço de 54 mil milhões de dólares no orçamento militar foi um primeiro sinal de que alguma coisa estava a mudar. Seguiu-se o despedimento dos dois principais conselheiros de Trump, Michael Flynn e Steve Bannon, não por serem «espiões de Putin» – essa foi a historinha usada na propaganda – mas por defenderem as opções económicas civis internas e, por consequência, a secundarização da guerra.

Emergiram então as influências de falcões encartados, entre eles o próprio genro de Trump, Jared Kushner, o vice-presidente Mike Pence, o general Mattis, secretário da Defesa e, sobretudo, o tenente general Herbert Raymond McMaster, também conhecido pelo sugestivo nickname de «o guerreiro académico», novo conselheiro de segurança nacional do presidente.

As mudanças não tardaram em surtir efeito. Por exemplo, da acalmia na Síria após a libertação de Alepo à recuperação do objectivo de «derrubar Assad» transcorreu um período durante o qual Donald Trump assumiu seis posições diferentes em relação àquele país do Médio Oriente.

Hoje, as linhas gerais da estratégia de Trump são idênticas às dos seus antecessores desde a década de oitenta do século passado: neoliberalismo puro e duro, provocação como motor da política externa, primado da guerra, submissão da política interna aos esforços militares da expansão externa, orientação ideológica de extrema-direita.

Daí, por exemplo, que agora já tenha sido possível inaugurar no porto de Livorno, em Itália, União Europeia, um vaivém naval público-privado de transporte de armamento ao serviço da NATO e desempenhado por três cargueiros gémeos futuristas de uma empresa denominada «Liberty Global Logistics»: o «Liberty Passion», o «Liberty Pride» e o «Liberty Promise». Nos seus fundos porões com 200 metros de comprimento têm capacidade para transportar o peso equivalente a 6500 automóveis em carros de combate e outros veículos de guerra, com destino aos portos de Aqaba, na Jordânia, e Jedah, na Arábia Saudita, para serem entregues aos «terroristas moderados» disseminados pelo Médio Oriente.

Uma operação que tem como fase final – o que nem sequer é já um segredo de Polichinelo – a transferência do armamento para os grupos que gerem a actuação terrorista na região: al-Qaida e Daesh. Nas últimas semanas o presidente Trump recebeu por duas vezes o rei Abdullah da Jordânia, uma frequência inusitada; e há poucos dias o presidente norte-americano apressou-se a felicitar o ditador turco Erdogan pelo êxito do golpe constitucional que reforça o seu poder autocrático e fundamentalista islâmico.

Jordânia, Arábia Saudita e Turquia: três países que operam como bases de recrutamento, treino, financiamento e infiltração dos grupos terroristas actuando principalmente na Síria – dos «moderados» ao Daesh.

Através da «nova» estratégia de Trump retoma-se o objectivo de inventar um «Sunistão» a partir de territórios do Iraque e da Síria, centrado em Mossul, para criar uma via de transporte de petróleo da Península da Arábia para a Europa que evite compras de combustíveis à Rússia; ao mesmo tempo, trava-se a concretização do ambicioso projecto chinês de criar uma ligação comercial expedita entre o Ocidente e o Oriente, uma reedição da «Rota da Seda». É o confronto de interesses dos grandes blocos mundiais e respectivos acessórios, movidos agora por agudas tendências nacionalistas que não se contêm nas fronteiras políticas.

Com Trump ao leme da sua renovada e agressiva equipa, a globalização imperial manu militari tem pressa, avança disparando em todas as direcções – mesmo que alguns tiros sejam ainda de pólvora seca. A ameaça inquietante que paira sobre todos nós é directamente proporcional à irresponsabilidade e aventureirismo de novos e velhos actores no terreno – e Donald Trump não está sozinho, desde que aprendeu rapidamente a falar a linguagem «compreendida» pelos seus aliados.

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