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União Europeia, aparelho de guerra

O fracasso no Afeganistão e em outras das «guerras sem fim» deixaram sequelas na aliança, potenciadas pelas frequentes derivas estratégicas dos Estados Unidos.

Tanques de guerra Leclerc durante o exercício militar Strong Europe Tank Challenge, em Grafenwoehr, Alemanha
CréditosCHRISTIAN BRUNA / EPA-EFE

É preciso criar «um verdadeiro exército europeu» para «afrontar a ameaça russa», sentencia Emmanuel Macron, presidente francês; «precisamos de armas, precisamos de capacidades militares», defende Josep Borrell, o socialista que chefia a «política externa» da União Europeia; «este desastre do Afeganistão também mostrou que, infelizmente, a UE não tem a capacidade necessária para operar em circunstâncias extremas», lamenta Matej Tonin, ministro da Defesa da Eslovénia, país que assume a presidência da União Europeia no semestre em curso; «os europeus foram forçados a sair do Afeganistão por estarem dependentes do poder e coordenação dos Estados Unidos», editorializa a publicação EU Observer, um pilar da propaganda federalista.

Moral da história: a União Europeia não é somente uma entidade política; pretende ser uma aliança militar; ou, encarando as transcrições numa perspectiva de flagrante actualidade, se a decisão final coubesse a Bruxelas as tropas europeias ainda estariam no Afeganistão, arrastando-se numa guerra mais do que perdida.

«a União Europeia não é somente uma entidade política; pretende ser uma aliança militar; ou, encarando as transcrições numa perspectiva de flagrante actualidade, se a decisão final coubesse a Bruxelas as tropas europeias ainda estariam no Afeganistão, arrastando-se numa guerra mais do que perdida»

Na sua reunião do passado dia 2 de Setembro, logo a seguir à confirmação da humilhação sofrida no Afeganistão, os ministros da Defesa dos Estados da União Europeia concluíram existir uma necessidade de criar unidades de guerra europeias com activos de milhares de militares que poderão ser utilizadas em «missões específicas». Josep Borrell concretizou: «precisamos de aumentar a nossa capacidade de agir com autonomia quando e onde for necessário».

Estas intenções cabem na «bússola estratégica», um plano sobre as ambições de «defesa e segurança» da União Europeia para os próximos cinco a dez anos e que deverá ser aprovado durante o mês de Novembro.

Na verdade, ainda o cadáver da NATO no Afeganistão está quente e são evidentes as forças centrífugas dentro da aliança tendo como centros emissores a comunidade imperial anglo-saxónica e a arreigada mentalidade colonial dos Estados dominantes (e não só) da União Europeia. As armas e as capacidades militares de que, segundo Borrell, a União Europeia necessita são também para «ajudar a proporcionar estabilidade aos nossos amigos africanos porque a segurança deles é a nossa segurança». Da Líbia ao Sahel e à generalidade da África francófona sabemos o que o chefe da «política externa» de Bruxelas quer dizer, tendo em conta os milhares de soldados europeus destacados para «missões humanitárias» e o «combate ao terrorismo» na África Central; um «terrorismo» que decorre, aliás, das práticas político-militares de grandes potências da União, desde o Médio Oriente ao Magrebe. «Segurança» na região significa, em última análise, a criação de situações favoráveis à continuada exploração colonial dos fabulosos recursos naturais do Sahel, designadamente o urânio, tão necessário para alimentar as centrais nucleares francesas e o fulgurante renascimento da indústria nuclear de guerra.

E a NATO?

A criação de um exército europeu ou, pelo menos, a definição de uma estratégia militar própria da União Europeia para os próximos anos e a criação de uma estrutura de guerra anglo-saxónica na região Ásia-Pacífico, o AUKUS, parecem por em causa o papel imperial da NATO no seu globalismo. Não se trata ainda, obviamente, da situação decrépita descrita por Frederick W. Kagan, do think tank American Enterprise Institute – «um ente defunto, ambulante, um zombie» – mas o fracasso no Afeganistão e em outras das «guerras sem fim» deixaram sequelas na aliança, potenciadas pelas frequentes derivas estratégicas dos Estados Unidos.

«As grandes potências militares europeias sairiam da NATO para o exército da União Europeia, sob um comando supremo europeu autónomo? Os Estados Unidos permitiriam? Ou dissolveriam a NATO, optando por outras soluções para garantir a hegemonia imperial?»

Um exército europeu e a NATO serão compatíveis? Do ponto de vista da acumulação de meios de guerra, da distribuição de papéis regionais dentro da estrutura imperial de dominação, dos negócios das transnacionais da indústria de armamento e das empresas de mercenários e da contenção das «ameaças» russa e chinesa, a compatibilidade parece natural – embora nem sempre coincidente.

Sob que comando? Dos Estados Unidos, por definição óbvia do unilateralismo que domina os assuntos globalistas, pesem embora os exercícios semânticos sobre o «multilateralismo» realizados por vários dirigentes mundiais, sobretudo europeus.

Em tese, começariam aqui as incompatibilidades. A intenção de «aumentar a nossa capacidade de agir com autonomia quando e onde for necessário», segundo Borrell, não parece sintonizada com a integração de um hipotético «exército europeu» na NATO sob o inevitável comando norte-americano e com a distribuição de papéis regionais. As grandes potências militares europeias sairiam da NATO para o exército da União Europeia, sob um comando supremo europeu autónomo? Os Estados Unidos permitiriam? Ou dissolveriam a NATO, optando por outras soluções para garantir a hegemonia imperial? Nesse caso como articular a monstruosa estrutura militar da NATO ou sua sucessora na Europa com a intenção europeia de fazer frente à «ameaça russa», certamente acumulando ainda mais meios de guerra nas fronteiras da Rússia? Quantidade pode não significar operacionalidade.

Por enquanto estas perguntas são meramente académicas porque o «exército europeu» continua a ser uma ideia que já tem barbas, talvez catalisada nos últimos tempos pelo fracasso afegão e, sobretudo, pela criação do AUKUS, que retirou à França o chorudo negócio da venda de submarinos à Austrália, substituídos por submarinos nucleares norte-americanos, cuja acção será coordenada com a existência de bases de mísseis, também norte-americanos, apontados à China no território australiano. Não é por acaso que Macron emerge como grande paladino do «exército europeu».

Além disso, a ideia de transformar a União Europeia numa aliança militar com «autonomia» própria não gera unanimidade – longe disso – entre os 27.

No centro e leste da Europa, entre os regimes mais ou menos «iliberais», da Polónia à Lituânia, da Eslováquia à Letónia, da Hungria à Estónia e alguns mais, sem esquecer a Ucrânia, o vínculo aos Estados Unidos é muito mais forte que a ligação à União Europeia.

Este quadro forçaria o «exército europeu» a ficar dependente de enviesamentos mesmo daquilo a que na União Europeia se chama «democracia». Vejamos o que disse sobre o assunto o já citado ministro esloveno Matej Tonin a seguir à reunião dos ministros da Defesa, em 2 de Setembro: «talvez a solução seja inventar um mecanismo onde a maioria clássica seja suficiente, de maneira a permitir a adesão dos que queiram aderir». Isto é, «meio exército europeu» ou uma cisão da Europa militar logo à nascença – subvertendo as próprias regras de decisão da União.

O Fundo e o orçamento contra as leis

Não se ficam por aqui os atropelos à «democracia» federalista gerida de Bruxelas, ou burodemocracia.

O reforço das forças armadas da União Europeia no âmbito da «bússola estratégica» a cinco ou dez anos e, quiçá, os primeiros e hipotéticos passos para a criação do «exército europeu» serão subsidiados, muito a propósito, pelo «Fundo Europeu para a Paz», criado no início deste ano. Trata-se, para já, de um saco de cinco mil milhões de euros para financiar operações militares no exterior geridas pela União Europeia e que incluem treino e fornecimento de armas a exércitos estrangeiro. Além, claro, de intervenções militares directas e da organização de golpes de Estado. O que se registou recentemente na Guiné Conacri teve a colaboração de países da União Europeia, sobretudo a França; e foi motivado pelo facto de, ao que parece, o presidente deposto ter boas relações com a administração russa de Vladimir Putin. Por definição, o Fundo Europeu para a Paz prevê o financiamento de armas letais, munições, treino para «parceiros» externos e ainda operações militares regionais. Ou, como diz Borrell, «quando e onde for necessário».

«este “Fundo Europeu para a Paz”, destinado a “apoiar exércitos em África e outros lugares”, não reconhece as leis por que se rege a própria União Europeia, contornando assim a “democracia”. Funciona como um verdadeiro saco e azul porque é gerido à margem da actividade institucional da União Europeia, uma vez que esta entidade não pode usar o orçamento próprio para financiar operações militares externas»

Repare-se como a União Europeia entende o conceito e a palavra «paz». Será algo que apenas poderá ser encontrado em cima de milhões de vítimas humanas, dentro de chagas impostas através do mundo, como milhões de refugiados e deslocados, a devastação da habitação, de empresas e estruturas produtivas agrícolas, danos irreversíveis em ecossistemas e no planeta. A guerra como único caminho para a paz: a escolha da «civilizada» e «dialogante» União Europeia.

Ora este «Fundo Europeu para a Paz», destinado a «apoiar exércitos em África e outros lugares», não reconhece as leis por que se rege a própria União Europeia, contornando assim a «democracia». Funciona como um verdadeiro saco e azul porque é gerido à margem da actividade institucional da União Europeia, uma vez que esta entidade não pode usar o orçamento próprio para financiar operações militares externas.

Pelo que a transformação da União Europeia numa aliança militar será um exemplar modelo de transparência.

Já é possível, aliás, ter uma ideia de como funciona, na prática, este fundo mais ou menos clandestino. As suas verbas estão a ser utilizadas para apoiar as guardas costeiras líbias na tarefa de impedir a chegada de refugiados à Europa, mesmo que sejam forçados a morrer no mar ou a permanecer em campos de concentração financiados por Bruxelas. Segundo investigação feita pelas publicações Libération (francesa) e Der Spiegel (alemã), órgãos plenamente integrados no panorama da comunicação social corporativa, a União Europeia, através do Frontex, colabora directamente com as guardas costeiras ligadas a milícias terroristas que campeiam na Líbia e administram os campos de concentração sequestrando, torturando e roubando os refugiados. Não é de agora que essas milícias coordenam acções com Bruxelas: são oriundas dos grupos terroristas ditos «islâmicos» que foram aliados da NATO na destruição e criação do caos existente na Líbia.

«Trata-se de criar um ambiente seguro no mar», explica a União Europeia. À luz da investigação das citadas publicações, as guardas costeiras colaborando com o Frontex interceptaram e devolveram aos campos de concentração líbios 9500 refugiados durante 2020. Sem contar com os que perderam a vida no «ambiente seguro do mar». Encorajadas pelo apoio das autoridades europeias, as milícias terroristas pedem o reforço da colaboração operacional através de aviões e mais navios de patrulha. O «Fundo Europeu para a Paz» facilitará a concessão desses desejos. Como diz Borrell, «tudo para ajudar a proporcionar estabilidade aos nossos amigos africanos porque a segurança deles é a nossa segurança». «Tudo» é, como se percebe, mesmo tudo, incluindo a colaboração operacional com grupos terroristas que, por sinal, têm vínculos com os mercenários «islâmicos» que os contingentes militares de países da União Europeia, verdadeiras tropas coloniais, dizem combater no Sahel.

Quando ouvirmos falar em militarização da Europa e na criação de um «exército europeu» já sabemos, portanto, do que se trata.

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