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Diplomata boliviano alerta para intervencionismo dos EUA na Venezuela

Numa entrevista concedida à Prensa Latina, o embaixador boliviano em Cuba afirmou que o périplo de Rex Tillerson, Secretário de Estado norte-americano, pela América Latina pode ser interpretado como «prelúdio a uma intervenção militar» na Venezuela.

Milhares de apoiantes do processo bolivariano, no final da marcha pela independência e soberania nacional, na Avenida Bolívar, Caracas (Venezuela), a 19 de Abril de 2017
CréditosCristian Hernández / EPA

A digressão de Rex Tillerson, Secretário de Estado dos EUA, pela América Latina teve início na quinta-feira passada, no México, e deve terminar amanhã na Jamaica. Pelo meio, ficam as visitas à Argentina, ao Peru e à Colômbia.

A viagem ficou marcada pela palestra que a precedeu na Universidade do Texas, em Austin, na qual Tillerson disse acreditar «que vai haver uma mudança» na Venezuela e defendeu que «uma mudança de regime pacífica é sempre melhor que a alternativa, uma mudança violenta».

Pese embora defender a «mudança pacífica», no decorrer da palestra, proferida dia 1, antes de seguir viagem rumo a sul, Rex Tillerson afirmou que «na história da Venezuela, como na de outros países da América Latina, muitas vezes são os militares os agentes da mudança quando as coisas estão mal ou a liderança já não pode servir os interesses das populações».

Referindo-se a Nicolás Maduro – presidente da Venezuela e candidato à reeleição no acto eleitoral que terá lugar até final de Abril –, o diplomata norte-americano não podia ser mais explícito ao expor os seus desejos: «Se as coisas aquecerem muito para os seus lados, estou certo de que alguns amigos em Cuba lhe podiam dar uma bela hacienda junto ao mar e que ele podia ter uma bela vida por lá», disse, citado pela PressTV.

As declarações no contexto académico e o périplo que imediatamente se seguiu motivaram fortes críticas nos últimos dias, umas mais exaltadas que outras, mas todas de repúdio e de afirmação da soberania da «Nossa América». Foram esses os casos do chefe de Estado venezuelano, Nicolás Maduro, do ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, de Jorge Arreaza, ministro dos Negócios Estrangeiros, e também do Ministério cubano dos Negócios Estrangeiros – que qualificou as declarações como uma mensagem de «arrogância e ingerência».

Na imprensa não hostil à Venezuela Bolivariana deu-se ênfase à actividade diplomática de Tillerson junto de governos de direita na América Latina, no sentido de erguer um bloqueio contra as exportações petrolíferas venezuelanas, e lembrou-se que a viagem de Mike Pence, vice-presidente dos EUA, ao Panamá, à Argentina, ao Chile e à Colômbia, em Agosto do ano passado, também se centrou na Venezuela, estando então marcada pela ameaça militar de Donald Trump contra o país de Chávez.

Ameaça militar permanece

Em declarações exclusivas concedidas hoje em Havana à Prensa Latina, o embaixador da Bolívia em Cuba, Juan Ramón Quintana, considerou que a digressão de Tillerson pela América Latina pode representar o «prelúdio de uma intervenção militar contra a Venezuela».

No entender de Quintana, o périplo de Tillerson, que «pode ser interpretado como [tentativa de fomentar um] bloqueio petrolífero à Venezuela, é mais que isso», sendo que o exercício da diplomacia norte-americana «dá crédito à preparação de uma intervenção militar armada contra o país caribenho».

Numa perspectiva política, «é uma espécie de ajuste de contas [com o chavismo e o Comandante Hugo Chávez], mas [trata-se de] uma intervenção que tem como factor de peso o interesse geoestratégico, de modo a garantir a autonomia energética do país norte-americano», sublinhou Quintana.

Neste sentido, defendeu que «essa autonomia é impensável enquanto os Estados Unidos não ocuparem aquilo a que se pode chamar o escudo petrolífero formado pela Colômbia, a Venezuela e o Equador, e mesmo a Bolívia».

O diplomata boliviano em Havana salientou que a intervenção militar tem como objectivo estratégico garantir a reserva petrolífera dos EUA para os próximos 50 anos, e que a decisão de «intervir directamente na América Latina» foi tomada conjuntamente pelo complexo industrial militar e a esfera petrolífera.

O papel do Grupo de Lima

A sustentar esta política, afirma, estão o chamado Grupo de Lima – integrado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai e Peru – e Luis Almagro, secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA).

«O Grupo de Lima, submetido do modo mais ignóbil à elite governante norte-americana, legitimará a intervenção na Venezuela. O seu silêncio sobre a fraude eleitoral nas Honduras, os crimes e o genocídio cometidos no México, os assassinatos selectivos na Colômbia [...] são exemplos da sua atitude abjecta», frisou.

Neste cenário de escalada da direita e de intervencionismo norte-americano no continente, a Bolívia mantém uma posição firme – disse Quintana, que mencionou «as acções políticas e diplomáticas» que o seu país empreende para conter e denunciar o «domínio da soberania dos estados nacionais», bem como a acção «dos governantes que assumem o papel de meras correias de transmissão ao serviço da máquina de dominação norte-americana».

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