Olha que três… a ver a fita

«Bagão Félix, Idália Serrão e Mota Soares comoveram-se no cinema com o absurdo na Segurança Social» é o título do artigo da jornalista Joana Beleza, no «Expresso Diário», que os convidou a irem ver juntos e comentar «Eu, Daniel Blake».

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Fotograma do filme «Eu, Daniel Blake», do realizador Ken Loach
Fotograma do filme «Eu, Daniel Blake», do realizador Ken LoachCréditos / http://freshfromthetheatre.com

O filme, de Ken Loach, é sobre um carpinteiro inglês «assassinado» pelos serviços públicos de segurança social inglesa!

Não quero comentar as lágrimas e comoção de ex-responsáveis do Sistema Público de Segurança Social Portuguesa. Bagão Félix (BF), ministro do governo PSD/CDS, de Durão Barroso e Paulo Portas. Idália Serrão (IS), secretária de Estado nos ministérios de Vieira da Silva e Helena André, dos governos PS/Sócrates. Mota Soares, ministro do governo PSD/CDS, de Passos Coelho e Paulo Portas.

Mas não é possível escamotear a enorme falta de pudor (para usar um eufemismo) e completa ausência de sentido crítico, fundamentalmente autocrítico, presentes nos comentários dos ex-responsáveis da Segurança Social Pública. E não sabemos que atitude tomar. Se descarregar com um enorme palavrão, dos que fazem corar um calhau de basalto, se chorar o azar dos portugueses com gente assim.

As três personagens começam por se «esquecer» (quem sabe porquê?!) de explicar o que aconteceu ao sistema de Segurança Social britânico, o tal «Welfare state», o «Estado do bem-estar», o dito Estado Social, um dos mais, senão o mais avançado do mundo. Assim não precisam de falar de Thatcher, de Blair, o tal da «3.ª via», e de Cameron e das suas políticas neoliberais, contra (restrições, privatização, liberalização) o «Welfare state»! O que aconteceu a Daniel Blake não foi há 50 anos. Foi ontem e é hoje!

As três personagens não são capazes de esclarecer, explicar nada, sobre a actual e grave situação dos sistemas de segurança social, incluindo a portuguesa. Apenas constatam que é igual à descrita no filme. Um discurso grandiloquente, vazio, abstracto, tão encriptado como a informação e comunicação que o sistema envia aos seus contribuintes/utentes/beneficiários. Problema com que os três concordam.

«As três personagens não são capazes de esclarecer, explicar nada, sobre a actual e grave situação dos sistemas de segurança social, incluindo a portuguesa.»

É o «jargão» (IS), «um programa» (MS) tão, tão codificado que BF, quando recebeu «a carta com a explicação detalhada do cálculo» da sua «pensão de velhice» andou «umas horas a tentar perceber tudo»! Hieróglifos que podem exigir, mesmo quando se trata de coisas da família, a reunião do estado-maior: «Fui secretária de Estado com dois ministros e lembro-me que, com o ministro Vieira da Silva, de vez em quando pegávamos em cartas que a Segurança Social tinha enviado para casa de algum familiar nosso e reuníamos a equipa toda»! (IS)

Quem são os culpados para as três personagens? «"O sistema" cada vez mais complexo, tecnológico, desumano» (já dizia o outro, o mesmo da bola); «a burocracia», os três «em uníssono»! (Que costas largas tem esta senhora!); «os pequenos poderes paralisantes que afectam o tempo que as decisões demoram a ser postas em prática» (IS). (Isto deve ser coisa do presidente da junta!); «O outsourcing (que) é uma prática absolutamente correcta, mas muitas vezes não funciona e pode ser cruel. Existe mas não deveria existir» (BF). Como???

E quem mais? Naturalmente, os trabalhadores da Segurança Social. Podiam lá ser esquecidos, com a sua falta de «humanidade». «É uma falta de humanidade nos serviços» (MS); «a dimensão humana tem de ser trabalhada» (IS); com a sua falta de «formação», os três; «no call center é preciso estar gente formada» (MS). E naturalmente, «não se pode retirar – como tem acontecido – recursos humanos e mandá-los para processos de requalificação», diz IS, dos governos Sócrates que inventaram a Mobilidade Especial para a requalificação… O pano não cai, incendeia-se de tanta desfaçatez.

Eles não são culpados! Não viam, não enxergavam, não visionavam, não apreendiam os problemas dos serviços que tutelaram e dirigiram directamente. Não fizeram nada enquanto eram governantes porque não viam. Não. Só agora, como ex, «a boa distância» (BF), é que detectam as coisas… e identificam «muito melhor os erros que cometi» (BF). Quais erros? Mistério… Os três de acordo de que o filme «é simbólico» (IS), «está cheio de símbolos» (MS). Símbolo(s) de quê? Mistério…

Passo a explicar. Símbolo da política de direita para os serviços públicos! Símbolo do esvaziamento da segurança social enquanto serviço público e universal, que levaram a cabo a mando dos seus governos.

Símbolo das reorganizações e reestruturações que fizeram, tantas vezes para encher lugares de boys e girls da clientela política, que em geral desorganizaram e desestruturaram os serviços.

Símbolo da desconcentração de serviços para as IPSS e juntas de freguesia!

Símbolo da externalização de serviços que querem fazer para call center.

Símbolo da redução brutal de trabalhadores nos serviços operacionais e regionais!

Símbolo das filas a partir do nascer do sol às portas da segurança social!

Símbolo das «quotas», não assumidas mas praticadas, nas «baixas por doença», que os trabalhadores não gostam nada de trabalhar… Aliás, questão central na história de Daniel Blake.

«A ficção termina, as luzes acendem-se e um jovem aproxima-se de Pedro Mota Soares e diz-lhe "é assim, não é?, longa vida à economia de mercado e ao Estado e os pobres que se esforcem um bocadinho mais, não é?»

Símbolo da aceleração dos ritmos de trabalho, das pressões, das acções persecutórias, do congelamento de salários e carreiras, provocando um ambiente de desmotivação, desencanto, cansaço, esgotamento e doença em muitos trabalhadores. Muitos não resistiram, e foram-se embora…

O Daniel Blake está entre nós! O discurso de Daniel Blake: «O meu nome é Daniel Blake, sou um homem, não sou um cão, não sou um cliente, não sou um número. Exijo os meus direitos. Exijo que vocês me tratem com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais, nada menos», não é contra os trabalhadores da segurança social, como querem indiciar as três personagens. É contra eles! É contra quem fez da segurança social o monstro que engoliu Daniel Blake. Contra quem fez o mostrengo que cansa e arrasa utentes e trabalhadores do sistema público de segurança social português. A política de direita de PSD, CDS e PS!

Poderia ter poupado os leitores deste texto a tão longo arrazoado, reproduzindo o extraordinário diálogo entre um espectador anónimo do filme em causa e Mota Soares, transcrito pela jornalista:

«A ficção termina, as luzes acendem-se e um jovem aproxima-se de Pedro Mota Soares e diz-lhe "é assim, não é?, longa vida à economia de mercado e ao Estado e os pobres que se esforcem um bocadinho mais, não é?». O antigo ministro da Segurança Social responde-lhe meio surpreendido, «olhe que não é só isso, é mais, mais do que isso», mas a resposta fica por ali, perde-se no passo apressado que se impõe na saída da sala de cinema.»

De facto, é apenas isso…

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