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Uma mão que filma a outra (III)

Varda viu-se como uma coletora de instantes, traduzidos em imagens pela sua pequena câmara digital e, simultaneamente, como selecionadora daqueles que iriam posteriormente integrar a versão final do filme

Agnès Varda, «Os Respigadores e a Respigadora», 2000.
CréditosFonte: Fandor

Agnès Varda também refletiu sobre o efeito da digitalização no (seu) cinema. À semelhança do cineasta iraniano Abbas Kiarostami (de cujo trabalho se falou em artigo anterior), também enfatizou a pequena dimensão como uma das suas características principais.

No ano de 2000, Varda filmou o respigo, ação que consiste em recolher e coligir objetos observados, por outros, como inúteis ou supérfluos. Partindo da modalidade de respigo tradicional, a apanha dos produtos agrícolas abandonados após a colheita, derivou para outras das suas formas contemporâneas. Entre estas incluiu a levada a cabo por aqueles que se alimentam de sobras de mercados e restaurantes – indivíduos com parcos recursos financeiros ou ativistas em protesto contra o desperdício gerado pelas sociedades capitalistas –, ou por artistas cujo trabalho consiste em objects trouvés ou se elabora a partir da reciclagem de materiais. As imagens e sons recolhidos pela realizadora sobre esta atividade deram origem ao filme Os Respigadores e a Respigadora (Les Glaneurs et la Glaneuse, 2000), no qual Varda, também em determinados momentos protagonista, se identificou a si própria como respigadora: «a outra respigadora, a do título deste documentário, sou eu» (2000).

Varda viu-se como uma coletora de instantes, traduzidos em imagens pela sua pequena câmara digital e, simultaneamente, como selecionadora daqueles que iriam posteriormente integrar a versão final do filme. Para o filme, a cineasta utilizou dois tipos de registo audiovisual: um obtido pelos operadores de câmara que trabalharam no filme e outro elaborado por si própria. O primeiro foi realizado com a Sony DVCAM dsr-300, uma câmara digital para utilização profissional, lançada no mercado no período coincidente com o da produção do filme; o segundo, com a Sony Minidv dcr-trv900, também uma câmara digital mas, diferentemente da antes mencionada, destinada não a profissionais, mas a amadores high-end (esta correspondia a um modelo de equipamento mais antigo, disponível desde 1998 e descontinuado em 2002). Dos registos efetuados pela própria realizadora foram aproveitados cerca de quinze minutos para o filme final e vários outros para Les Glaneurs et la Glaneuse... Deux Ans Après (2002), sequela do filme, lançada dois anos depois.

A pequena câmara de Varda – cujos registos são destrinçáveis dos restantes, não tanto pelas características técnicas, mas pelo relato – edifica uma espécie de micronarrativa, de história paralela à principal que conduz o filme. Esta narrativa outra é também de tipo documental, mas mais pessoal, intimista. Este é um cinema, assim o define a cineasta, em que «uma mão filma a outra» (Varda 2000). Varda, porque dotada destes materiais, é capaz de um olhar mais próximo, aparentemente não mediado, em que observa as raízes do seu cabelo ou as rugas das suas mãos. Munida dos mesmos é capaz de colher o real: é significativa a imagem em que, segurando a câmara numa das mãos, enquadra a outra que simula, com o gesto de unir o indicador ao polegar, o movimento do diafragma de uma objetiva. Através do novo enquadramento construído pelo gesto da mão, observamos dois camiões que circulam na estrada e que foram integrados naquela visão.

Varda, tal como Kiarostami, atribuiu a estes equipamentos a capacidade de uma maior aproximação à realidade. Na sua perspetiva, o real surge exacerbado, ampliado, pois, afirma, «estas novas pequenas câmaras (...) permitem efeitos estroboscópicos, narcisistas e mesmo hiperrealistas» (Varda 2000). No seu cinema posterior e, em particular, na longa-metragem As Praias de Agnès (Les Plages d'Agnès, 2008), um filme intimista sobre a autora que expõe no título o seu nome próprio, Varda continuou a utilizar uma pequena câmara digital MiniDV, a Panasonic PV-GS400, como uma extensão do seu braço, com o intuito de eliminar a distância entre si e os objetos. O mesmo ocorreu ainda na sua última longa-metragem, Olhares Lugares (Visages Villages, 2017), cuja autoria partilhou com o muralista e fotógrafo francês J.R.


A autora escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE90)

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