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Ana dos Cabelos Ruivos e o Materialismo Dialético

Uma sociedade emancipada e livre não é aquela que tem apenas acesso à informação, mas aquela que tem as ferramentas necessárias para a questionar.

Créditos / tecmundo.com.br

Há uns meses, decidi ver Anne with an E, uma série do catálogo da Netflix inspirada em Anne of Green Gables – uma obra infantojuvenil do final do séc. XIX. Em Portugal, a adaptação para desenhos animados, que fizeram muitas tardes da minha infância, recebeu o nome de Ana dos Cabelos Ruivos. A animação, anterior às aventuras de Tom Sawyer, ambas produzidas pelos estúdios Nippon Animation, trouxe uma novidade que talvez não tenha recebido o melhor acolhimento entre este exigente público: em Ana dos Cabelos Ruivos não havia bem e mal.

Parece um pouco inusitado a não existência de uma polarização que ensine às crianças o que é o bem e o mal, que não lhes transmita uma verdade canónica, uma moral absoluta ou um manual da sociedade vigente. É claro que em Ana dos Cabelos Ruivos as crianças vão à catequese e é claro que há uma ideia generalizada ou assumida do que é uma criança portar-se bem ou mal. Mas, ao contrário de Tom Sawyer, o que não há é uma polarização usando outra pessoa para corresponder ao arquétipo do mal, partindo do princípio de que a protagonista representa o bem. No fundo, foi a isto que nos habituámos: histórias de índios e cowboys, de heróis e vilões, de escuteiros contra assassinos de olhos vermelhos, num desenho a preto e branco onde ao outro raramente é concedida qualquer análise profunda para além da sua maldade natural.

«O mal é o oposto de nós: a bizarria, o insólito, a indigência – tudo o que é estranho à nossa conceção de normalidade. Esta construção da ideia de normalidade é bastante suportada pelos produtos de entretenimento e os desenhos animados não são uma exceção, bem pelo contrário.»

Ao longo da nossa vida, da infância à adultícia, todas as narrativas que nos são apresentadas, para o nosso entretenimento, caem facilmente na polarização entre o bem e o mal. O bem, onde nos sentimos todos representados, é o mais próximo de nós: indivíduos com vidas normais, inocentes e com bons princípios. Ninguém acha que a sua matriz social e cultural é má. O mal é o oposto de nós: a bizarria, o insólito, a indigência – tudo o que é estranho à nossa conceção de normalidade. Esta construção da ideia de normalidade é bastante suportada pelos produtos de entretenimento e os desenhos animados não são uma exceção, bem pelo contrário. Há sempre um confronto entre duas entidades representativas do maniqueísmo.

Em Anne of Green Gables abdicou-se desse padrão de contaminação moralista e optou-se por uma outra modalidade pedagógica, a qual, certamente, influenciou uma quantidade significativa de crianças desde o início do século XX. A essa outra modalidade podemos chamar dialética, na medida em que a vida de Anne não é um confronto a preto e branco entre o bem e o mal, mas uma caminhada pela vida, dentro das suas contradições, das suas circunstâncias específicas, num determinado contexto, carregando um histórico pessoal e social específico. É a partir destes critérios que a história da emancipação de uma criança sonhadora nos é contada, a partir de um lugar de ternura e deslumbramento com a vida, onde nunca parece ser necessário dramatizar a maldade, bastando o quotidiano – a tristeza e a alegria, as frustrações expectáveis da aprendizagem.

Mas o caso de Ana dos Cabelos Ruivos é uma exceção no cenário geral da animação, onde o recurso (por vezes, preguiçoso) ao maniqueísmo invade esse espaço sagrado do crescimento e da aprendizagem e interfere na nossa perceção da realidade, criando a ilusão de que a vida é uma luta entre o bem e o mal e não uma possibilidade transformadora. À nossa frente são-nos colocadas hipóteses de realidade que, na aparência, parecem ir ao encontro da nossa vida. Há sempre um responsável pelas nossas frustrações, a culpa passa a ser um critério avaliativo e o nosso futuro depende da quantidade de gente malvada que consigamos afastar.

Para que o produto de entretenimento tenha acolhimento, é importante que as hipóteses de realidade ali colocadas tenham uma semelhança profunda com a nossa própria realidade: família, estrutura social (escola, trabalho, habitação, horários). Esta semelhança, de certa forma, gera uma cumplicidade entre nós e a história, comove-nos, incomoda-nos e molda a nossa moral.

«para termos mais latitude no entendimento de tudo o que nos rodeia, devemos encontrar uma cultura que estimule a dialética e não uma cultura que se encerre em padrões fechados e imunes à crítica»

Não me restam muitas dúvidas de que a influência deste entretenimento com objetivos moralistas tem um impacto determinante nas nossas opções, opções essas que se manifestam em todas as relações que estabelecemos com o mundo e no nosso pensamento. As ferramentas críticas que temos ao nosso dispor são moldadas por essa centralidade moral e o resultado está, muitas vezes, à vista na forma como rejeitamos qualquer posição que saia do nosso entendimento, que seja exterior aos padrões da normalidade, ou seja, do status quo.

É por isso que, para termos mais latitude no entendimento de tudo o que nos rodeia, devemos encontrar uma cultura que estimule a dialética e não uma cultura que se encerre em padrões fechados e imunes à crítica. Uma sociedade emancipada e livre não é aquela que tem apenas acesso à informação, mas aquela que tem as ferramentas necessárias para a questionar. E qualquer um de nós pode dizer que as tem, porque fomos todos criados no mesmo modelo de sociedade (para os filhos do 25 de Abril esta crença é quase dogmática, uma espécie de fim da história). Acontece que a falta dessas ferramentas não é, também ela, uma questão moral – não é boa nem má, não faz de nós melhores ou piores. A falta de ferramentas é uma realidade, que se manifestará nas nossas opções, na nossa posição face à construção do nosso destino comum e por isso será sempre motivo de discussão.

Não conhecemos o futuro de Tom Sawyer ou de Huckleberry Finn, os pequenos rapazes traquinas, com um coração bondoso, criados na brilhante e moralista cabeça de Mark Twain. Mas de Anne, a criança sonhadora e teimosa que habitou Green Gables através da pena da canadiana L. M. Montgomery, sabemos que foi crescendo com vontade de transformar o mundo a partir de uma sala de aulas. Esse ímpeto transformador, quase revolucionário, dir-se-ia, só pode vir de quem superou todas as camadas de moralismo e de cinismo, nas quais somos habituados a submergir. Talvez Montgomery tenha compreendido isso e decidido que as crianças não devem ser habituadas a conter apenas a respiração, mas sobretudo a respirar.

   *O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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