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O experimentalismo e a reinvenção da arte e da vida

«Bright As Silver, White As Snow» no Museu do Oriente, «Viajar» na Biblioteca do Politécnico de Leiria, programa de exposições do Centro Cultural de Cascais e Ernesto de Sousa no Museu do Chiado.

Obras de Beatriz Horta Correia, «Um lugar a Oriente #1, #2, #3 e #4», 2020/2021. Tinta da china, tinta, pigmento em pó de sanguínea e fio de algodão sobre papel de arroz chinês e «Oriente/Ocidente», 2019-2020. Exposição «Bright As Silver, White As Snow» no Museu do Oriente, em Lisboa, até 26 de setembro
CréditosFrancisco Palma

No Museu do Oriente1, em Lisboa, até dia 26 de setembro, podemos ainda visitar ou revisitar a excelente exposição temporária «Bright As Silver, White As Snow» com obras de Beatriz Horta Correia, Graça Pereira Coutinho e Susana Piteira, na Galeria Sul, piso zero. Do texto da exposição, podemos perceber que esta exposição é o resultado de uma experiência que iria abrir as portas «para novas descobertas» quando, em setembro de 2019, as artistas partiram para Jingdezhen, na China, a fim de realizarem uma residência artística como bolseiras da Fundação Oriente.

As três artistas portuguesas referiram a experiência de estar a trabalhar num projeto artístico numa cultura diferente da nossa como «uma grande mais valia», sempre num ambiente de partilha com as pessoas locais, sendo esta diferença o que mais as motivou a realizar esta residência artística, sem deixarem de nos lembrar que «já no século XVI os portugueses fizeram enormes encomendas de porcelana para serem produzidas em Jingdezhen através de Cantão e Macau, e que chegaram pela primeira vez a Lisboa e à Europa, onde então não se conhecia o “ouro branco” também descrito como bright as silver, white as snow

Os trabalhos apresentados na exposição são apresentados em peças individuais e instalações e em quase todas as peças foi utilizado a técnica Kintsugi, que «evidencia as marcas de desgaste ou das rachas e o seu respetivo restauro». Os materiais são diversos, desde a porcelana, o grés, o papel chinês, a linha de algodão, a grafite, e são também utilizadas com frequência as técnicas da impressão pigmentada e do esgrafito (desenho sobre placas de porcelana), entre muitas outras.

Sobre Jingdezhen, as artistas contam-nos que «é uma cidade única no que diz respeito à cerâmica, tudo funciona em torno desta actividade, com diferentes perspectivas. Foi um privilégio poder ter tido contacto com esta realidade, o que só por si foi uma grande aprendizagem. Esta cidade com cerca de um milhão e meio de habitantes, é actualmente uma plataforma internacional para grandes projectos artísticos e de design em cerâmica.» Enquanto desenvolviam o seu trabalho «visitaram museus, galerias, estúdios de artistas, fábricas de cerâmica» e receberam também «muitos inputs dados pelo intercâmbio de experiências no local», tanto no contato com os materiais com que estavam a trabalhar como de diversos artistas, curadores e empresários que visitaram diariamente o estúdio onde trabalharam nos seus projetos. Acerca desta residência artística, podemos ver mais imagens e textos no site da rede bolseiros da Fundação Oriente em Projecto JDZ.lab e uma visita no vídeo.

Desenho de João Catarino na Praia Supertubos em Peniche durante a etapa da Sketch Tour Portugal dedicada ao surf. Exposição “Viajar” na Biblioteca José Saramago do Politécnico de Leiria, até 24 de setembro Créditos

«Viajar» é o título da exposição de desenhos e cadernos de viagem de João Catarino2 e José Josué3, apresentada na Biblioteca José Saramago4 - Campus 2 do Politécnico de Leiria até 24 de setembro. A exposição mostra desenhos de viagem realizadas em Portugal a partir de percursos feitos de bicicleta, transporte público, expedições e outras viagens em África, Américas e Europa. Acerca desta exposição, podemos ler na sinopse que «mostra como se pode descobrir um mundo novo se aceitarmos o repto de Bertrand Russell de que não vale a pena viajar como turista rico, mas sim como turista pobre. Como turista rico veremos exatamente o mesmo em qualquer parte do mundo, como turista pobre descobriremos as particularidades e singularidades de cada lugar e comunidade.»

No texto da exposição, da autoria de Fernando Poeiras e Júlio Silva, pode ler-se: «Qual a importância da Viagem para um trabalho? Um critério para responder, e identificar um movimento para um exterior em si e no mundo, seria reconhecer um antes e um depois da viagem, ou, o estar no interior de um movimento. Esse “antes e depois” ou esse “movimento” pode manifestar-se nas condições, nos processos de trabalho e também no interior do próprio trabalho.»

Obra de Joana Rá. Exposições «Desenho Baixo, Pintura Alta» de Joana Rá, até 26 de setembro, e «Linha de Fuga», até 3 de outubro, no Centro Cultural de Cascais Créditos

No Centro Cultural de Cascais5 podemos encontrar a exposição «Desenho Baixo, Pintura Alta» de Joana Rá6, que pode ser visitada até 26 de setembro, realizada no âmbito da programação do Bairro dos Museus de Cascais. Esta exposição propõe-nos conhecer uma série de pinturas sobre papel produzidas recentemente pela artista, que afirma ter decidido «explorar as diferentes volumetrias potenciadas pela materialidade do papel onde o desenho se revela na superfície plana – o "baixo" – conjugado com formas tridimensionais que emergem do suporte, em expressivo cromatismo. Em suma, transformar o desenho numa pintura "alta" através do relevo que criei, numa dialética que pretende desafiar o observador. É uma proposta, uma espécie de jogo, de contraponto, entre opostos – o baixo e o alto – que sugere o título que dei à exposição.»

Falando agora dos trabalhos apresentados no Centro Cultural de Cascais, a artista confidencia-nos que foi «modelando o papel e as obras foram surgindo, com cada forma a despertar a subsequente. Nasceram umas das outras, num processo contínuo, como se fossem uma cadeia, ou uma família. Cada ação, cada gesto, cada movimento conduz, intuitivamente, a algo mais, a qualquer coisa que possa ser surpreendente.» Como método de criação, Joana Rá resume, que estes trabalhos tiveram origem num «ato criador que deu lugar a estas pinturas com relevo, formas quase arquitetónicas, que pretendem potenciar os sentidos e planos de várias dimensões.»

No Piso 2 do Centro Cultural de Cascais pode ainda ser visitada a exposição colectiva «Linha de Fuga», de alunos finalistas de mestrado em artes plásticas do ESAD.CR-Escola Superior Artes e Design das Caldas da Rainha: André Vaz, Carolina Veigas, Inês Serpente, Leonor Neves, Maria Miguel Von Hafe, Miguel Ângelo Marques, Natacha Costa Pereira, Pedro Fonseca Jorge, Pedro Rodrigues, Neobert Laureano, Rafaela Ferreira, Romie, Sara Cruz, Sílvia Melo, Sofia Alvernaz e Vicente Faria. A mostra dará conta da multiplicidade de técnicas que os alunos desenvolvem e pode ser visitada até 3 de outubro.

Obra de Júlio Pomar, Sem Título, 1942. Exposição «Meu Amigo – Obras e documentos da coleção Ernesto de Sousa (1921-1988)» no Museu do Chiado em Lisboa, até 26 de setembro Créditos

No âmbito da comemoração do centenário do nascimento de Ernesto de Sousa realiza-se no Museu do Chiado7 a exposição «Meu Amigo – Obras e documentos da coleção Ernesto de Sousa8 (1921-1988)», até 26 de setembro. Esta exposição tem a curadoria de Emília Tavares e apresenta cerca de 124 obras de 62 artistas, entre pintura, desenho, gravura, escultura, fotografia, objetos e documentação diversa. Integra-se no conjunto de eventos ligados à comemoração do centenário do nascimento de Ernesto de Sousa, à qual o Museu Nacional de Arte Contemporânea se quis associar, homenageando, assim, uma das mais relevantes personalidades da contemporaneidade portuguesa, cuja influência continua a ser atuante.

O Projeto é organizado por Isabel Alves, que se tem dedicado à preservação e divulgação do legado do artista. A exposição efetua o cruzamento entre documentação (correspondência, publicações, projetos) e as obras de arte que foram oferecidas a Ernesto de Sousa, ao longo da vida, por alguns dos mais relevantes artistas nacionais e internacionais, entre as décadas de 40 e 80 do século XX. «Do neorrealismo à década de 80, de Almada Negreiros a Wolf Vostell, do cinema ao mixed-media, da arte popular à Alternativa Zero, são apenas alguns exemplos de uma vasta rede de formas de intervenção artística, de cumplicidades e de reinvenção da arte e da vida, como o próprio sempre defendeu.»


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1. Fundação Oriente. Edifício Pedro Álvares Cabral, Doca de Alcântara (Norte), 1350-352 Lisboa. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 18h; sexta-feira, das 10h às 20h (entrada gratuita das 18h-20h).
  • 2. João Catarino nasceu em Lisboa, em 1965. É Licenciado em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL). Frequenta o Curso de Desenho no (Ar.co) e o Curso de Cinema de Animação no (CITEN) na Gulbenkian. Colabora regularmente no Jornal público. Blogue www.desenhosdodia.blogspot.com.
  • 3. José Josué nasceu em Lisboa, em 1977. Licenciou-se em Artes Plásticas na ESAD.CR (Caldas da Rainha) e frequentou o mestrado em Educação – Artes Visuais FBAUL (Lisboa). A sua prática artística incide principalmente na área do desenho, particularmente nos desenhos de viagem mas também na ilustração. Participou em projetos: Névoa Azul x Nomad, Edições Manifesto, Ilustração Voadora, Lisboa e Barcelona, Calendário edições Artefacto. Blogue: https://desenhosebicicleta.blogspot.com/
  • 4. Biblioteca José Saramago do Campus 2 (ESTG/ESSLei). Morro do Lena – Alto Vieiro, 2401-951 Leiria. Horário: das 9h às 23h.
  • 5. Centro Cultural de Cascais. Avenida Rei Humberto II de Itália, s/n, 2750-800 Cascais. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 18h.
  • 6. Joana Rebelo de Andrade (Rá) nasceu em 1983 em Lisboa, estudou arquitetura, desenho gráfico, pintura e tipografia, entre Portugal, França, Reino Unido e Estados Unidos. O seu trabalho está representado em coleções particulares em Portugal, Itália, Alemanha e EUA.
  • 7. MNAC - Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado. Rua Serpa Pinto n.º 4, 1200-444 Lisboa. Horário: terça-feira a sexta-feira, das 10h às 18h; sábado e domingo, 10h às 14h e das 15h às 18h. Entradas gratuitas: domingos e feriados até às 14h.
  • 8. Segundo a curadora Emília Tavares, Ernesto de Sousa foi, também, decisivo para a internacionalização da arte e dos artistas portugueses, ao mesmo tempo que manteve uma atualização e divulgação permanente do panorama artístico internacional, sendo uma referência estética, artística e histórica para as novas gerações.

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