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Pode um país ficar refém de interesses privados?

A angústia dos trabalhadores da Groundforce e a incerteza relativamente ao futuro resultam da falta de vontade política de nacionalizar uma empresa essencial a um sector estratégico para o País.

Os trabalhadores da SPdH/Groundforce, após anos, conseguiram que fosse retomada a negociação da contratação colectiva
Créditos / Agência Lusa

Já vai longa a novela da maior empresa de handling em Portugal, de quem Alfredo Casimiro se tornou accionista maioritário em 2012, tendo recebido 7,6 milhões de euros em comissões de gestão antes de pagar 3,7 milhões de euros pela maioria de capital, em 2018. Mas, se o negócio foi bom para o fundador da transportadora Urbanos, o mesmo não podem afirmar os trabalhadores da Serviços Portugueses de Handling (SPdH)/Groundforce, cuja actividade é fundamental para o funcionamento da TAP e, consequentemente, para o desenvolvimento do País. 

No espaço de um ano, a empresa já despediu mais de mil trabalhadores que prestavam serviço através de contratos a termo ou empresas de trabalho temporário. O quotidiano dos que ficaram tem sido preenchido com atrasos no pagamento dos salários, apesar do aumento da actividade registado com o regresso da actividade aeroportuária. De forma unilateral, a empresa decidiu pagar o salário de Junho em 65% no devido tempo e o restante até 15 de Julho. Este fim-de-semana, os trabalhadores disseram basta aos vários incumprimentos e atropelos aos seus direitos.

A greve de dois dias ocupou os noticiários, mais com imagens referentes aos constrangimentos vividos pelos passageiros, do que com a justeza das reivindicações que levaram à paragem da actividade. Entretanto, o representante dos patrões do turismo, sector alicerçado por excelência na política de baixos salários e na precariedade, já veio dizer que esta greve «não podia ter acontecido» e que a marcada para o final do mês «não pode acontecer», independentemente da situação dos trabalhadores da Groundforce. 

Mais do que condicionar o direito à greve dos que vivem do seu salário, importa resolver os problemas de uma empresa cuja actividade, reconhece Francisco Calheiros, é fundamental para o sector do turismo, para além da ligação às comunidades portuguesas e da dinamização de outros sectores. Sendo estratégica para a economia nacional, apesar de agora o seu destino andar pelas mãos do Montepio, cabe ao Governo tomar a opção de a nacionalizar. Afinal de contas, porque há-de o País estar refém de interesses privados em matérias fundamentais para o seu desenvolvimento e soberania? 

Ouvido esta manhã no Parlamento, o ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, argumentou que o Governo não avançou com a nacionalização da Groundforce para evitar «o risco de litigância» e eventual indemnização. Mas a análise deve partir sempre de outros pressupostos, tendo em conta as garantias para os trabalhadores e para o País. Veja-se o exemplo da ANA Aeroportos, com centenas de milhões de euros de lucros anuais, que em vez de servirem a economia nacional vão para os cofres dos franceses da Vinci. Não faz sentido, pois não?

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