Entrevista a Cristina Paiva e Fernando Ladeira, da Andante

«Tirar rótulos às pessoas e à arte que fazem»

«Melhores leitores gerarão (em princípio) melhores cidadãos. Tomámos essa missão para nós.» À conversa com a Andante, de Cristina Paiva e Fernando Ladeira.

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«Afinal o Caracol», um dos espectáculos da Andante, apresentado na Chamusca
«Afinal o Caracol», um dos espectáculos da Andante, apresentado na ChamuscaCréditos

Dedicam-se, há dezoito anos, a montar espectáculos dirigidos aos mais jovens (e não só), espectáculos a que os adultos não conseguem resistir. Sobretudo os adultos que trabalham na promoção da leitura. É que com a Andante um mediador da leitura (educador, professor, bibliotecário, animador…) aprende sempre. Quase sem dar por isso, porque o que sente, em primeira instância, é essa arte de divertir fazendo pensar que caracteriza este projecto teatral. Um projecto apostado sempre em estimular a sensibilidade poética do público, em revelar o poder da palavra.

Fomos, por isso, ao encontro de Cristina Paiva e Fernando Ladeira, para uma conversa. Porque eles são as almas militantes da associação artística e grupo de teatro independente que é a Andante, muito voltada para o mundo das escolas, das bibliotecas, das autarquias, dos encontros sobre promoção da leitura. A Cristina é uma actriz talentosíssima e versátil; o Fernando um criativo luminotécnico, sonoplasta, fotógrafo e muito mais. E pertencem ambos à tribo dos imaginadores e dos semeadores e cultivadores de palavras. Escutemo-los.

Acabam de sair de uma série de representações de espectáculos vossos, um pouco por várias partes do país, na Semana da Leitura e nas anteriores. Que balanço fazem?

Muito positivo. Começámos pelas comemorações do Dia da Poesia (21 de Março), com o nosso espectáculo Aleatório. As bibliotecas de Vila Franca de Xira, Arraiolos e Sesimbra foram os palcos, todos eles pouco convencionais, pois sempre que possível privilegiamos a proximidade com os livros. Várias dezenas de amantes da poesia desafiaram as noites frias e chuvosas e vieram até à sua biblioteca para connosco celebrarem. Embora este seja um espectáculo para o público adulto, a bibliotecária de Arraiolos resolveu também organizar uma sessão para alunos do ensino secundário. É um prazer olhá-los e vê-los «ir» com as palavras.

Cristina Reis no espectáculo «Aleatório» Créditos / Fernando Ladeira

A partir de 27 de Março entrámos na semana da leitura com o nosso carro a abarrotar. Lá dentro quatro espectáculos. Afinal o Caracol e Afinal o Íbis, para bebés e meninos do Pré-Escolar; Andante(des)Concertante para alunos do 1.º Ciclo e Quem quer ser Saramago para alunos do Secundário. Os convites partiram de Penacova, Vila Nova de Poiares, Penedono, Chamusca e Trancoso. O resultado foram salas cheias e crianças muito satisfeitas a cantar e a brincar com poemas de Fernando Pessoa e João Pedro Mésseder, a rir a bandeiras despregadas com a cena dos moinhos de vento do D. Quixote da La Mancha feita por eles próprios, ou adolescentes a ouvir e a ler Saramago porque lhes mostrámos que afinal é muito fácil.

Foram pessoas de bibliotecas, de agrupamentos de escolas, de câmaras municipais que acreditam na importância que tem a promoção da leitura nas suas gerações futuras, que lutaram para nos ter lá. «Lutaram» pode parecer um palavra forte, mas é realmente uma luta conseguir organizar escolas, professores, turmas, horários, autocarros, de forma a que tudo corra pelo melhor.

Um dos traços que vos distingue enquanto associação artística/companhia teatral é o amor à literatura – e, diríamos nós, o conhecimento da literatura que revelam, em especial da poesia contemporânea, portuguesa e não só. Concordam? Alimentam-se muito da leitura literária? Que autores frequentam?

É verdade, uma das nossas características distintivas é construir espectáculos de teatro com textos literários não teatrais. Na Andante trabalhamos com o objectivo principal da promoção da leitura, da sedução de leitores. Pensamos que melhores leitores gerarão (em princípio) melhores cidadãos, mais responsáveis, mais críticos, mais capazes de pensar e decidir pela sua própria cabeça. E tomámos essa missão para nós. Não é que o texto dramático não pudesse servir estes propósitos mas sentimos a necessidade de ser especialmente directos. E, assim, descobrimos que a poesia nos servia muito bem para revelar ao público o prazer da leitura (aí está uma utilidade da poesia, ela que tem mais inutilidades que utilidades). Porque a poesia é música, é emoção, é jogo cerebral, é imagem, é brincadeira, é jogo físico e estabelece uma rápida relação com a memória. Temos uma especial tendência para fugir aos estereótipos e por isso não construímos espectáculos para a infância com os autores «obrigatórios» ou mais usuais. Não que tenhamos algo contra esses autores, naturalmente, mas pensamos que é bom alargar o leque de referências e também contar com o efeito surpresa.

Há autores que são referência para nós desde o início, por exemplo no trabalho para a infância: Manuel António Pina, João Pedro Mésseder, Manoel de Barros, Matilde Rosa Araújo, entre muitos outros. Mas também gostamos de baralhar os rótulos e usar poemas que não foram escritos/publicados como sendo textos dirigidos a crianças. Elas não parecem importar-se muito com isso.

Outra das vossas singularidades é o vosso empenhado investimento – a nosso ver muito criativo – na criação de espectáculos diversificados para públicos diferenciados (alguns deles, como os mais pequeninos e os bebés, habitualmente pouco contemplados pela gente do teatro)… Mas o literário, digamos assim, está sempre lá… Bem como a palavra, o respeito pela palavra, a reinvenção poético-teatral da palavra.

A razão porque diversificámos tanto o nosso trabalho tem a ver com a diversidade de públicos que em grupos distintos assistem aos espectáculos. E com as solicitações que vamos tendo por parte das instituições. Por princípio pensamos que um espectáculo deveria servir a comunidade em geral, mas, como trabalhamos com grupos específicos, acabamos por fazê-los de forma mais «dedicada». Sempre com o mesmo objectivo: promover a leitura. Naturalmente, os textos que usamos são textos literários, bem construídos, que abrem caminhos novos na forma como olhamos para o mundo, para os outros homens, para a nossa condição. Não nos coibimos de usar Fernando Pessoa com os bebés, nem de usar Herman Melville com os alunos do 2.º Ciclo, nem de usar Jorge de Sena nas prisões, nem Boris Vian com o público em geral. A única regra que temos: não usamos textos de que não gostamos. De resto, apuramos teatralmente o melhor possível a forma de levar até àquele público aquelas palavras e esperamos sempre que no final nos perguntem: “quem escreveu aquilo?” – o que acontece a maior parte das vezes.

«Andante(des)Concertante» Créditos / Fernando Ladeira

Há ainda a preocupação, cremos nós, de, sem quererem ensinar nada a ninguém, darem contudo indirectamente pistas, nos vossos espectáculos, a educadores e professores sobre o como fazer, em matéria de animação/promoção da leitura e da literatura. E até sobre o como lidar com certas questões pedagógicas concretas, como, por exemplo, a necessária criação de silêncio em muitos momentos (estou a pensar, nomeadamente, em todo o desenvolvimento do espectáculo Andante (des)Concertante e em certos momentos em particular).

Sim, é verdade que ao longo do tempo fomos detectando que as questões da promoção da leitura são muitas vezes muito complicadas até para quem trabalha com elas diariamente. Como nós trabalhamos com ferramentas, chamemos-lhes assim, um pouco específicas, como a interpretação, técnicas vocais, musicais, de expressão corporal, até algumas ferramentas técnicas de som e luz, pensamos que os espectáculos servem muitas vezes como uma montra para os professores e educadores. Há muitos profissionais da educação que não sabem sequer como abordar a poesia nas suas aulas (isto é confessado por eles próprios, não é preconceito nosso), ou sequer que é possível sossegar uma turma de crianças irrequietas e pô-las a ouvir, ou melhor, a viver uma experiência estética. No espectáculo Andante (des)Concertante trabalhamos particularmente esta questão do silêncio. Não por querermos crianças sem voz mas para lhes dar a hipótese de descansarem um pouco, de lhes mostrar que ficar em silêncio é também uma possibilidade e revelar aos professores que eles não se aborrecem com isso, antes pelo contrário. Vamos ao limite de perguntar no final do espectáculo às crianças se querem bater um recorde de silêncio. Dizem sempre que sim, entusiasmados com a ideia. Para já o nosso recorde de silêncio vai em 2,16 minutos. Imaginem um grupo de mais de cem crianças em silêncio durante mais de dois minutos no final de um espectáculo de uma hora.

Como surgiu a ideia, neste espectáculo, de introduzir também a língua gestual portuguesa (LGP)?

Nós usamos neste espectáculo um poema especial de João Pedro Mésseder que trabalhamos com as crianças no sentido de eles o aprenderem e apresentarem no final:

«Na árvore das palavras

há uma que rima com amo.

Amo

por isso

a palavra ramo.»

Para que esta ideia funcionasse fomos acrescentando estratégias: repetições do texto dito, repetições do texto cantado e finalmente movimento. Não poderíamos acrescentar uma coreografia que obrigasse as crianças a largar os seus lugares e de repente descobrimos que a palavra «árvore», em língua gestual portuguesa, é em si uma dança. Falámos com a Sofia Maúl, uma terapeuta da fala, tradutora e contadora de histórias, e perguntámos-lhe se ela achava possível traduzir o poema para LGP. Como qualquer tradução de poesia, não foi logo evidente quais os gestos que se deviam usar, mas foi um processo entusiasmante, e ver mais de cem crianças a cantar e a dançar este poema é uma emoção muito forte e nós temos a sorte de a poder experimentar e repetir.

De Pessoa a Saramago e a Margarida Vale de Gato

Como entra Saramago no vosso trabalho? E, por outro lado, os poetas contemporâneos? Como reagem os públicos (infantis, juvenis, adultos)?

Queríamos há muito fazer um espectáculo a partir da obra dele. Era um desafio e nós gostamos de desafios: trabalhar com prosa quando normalmente trabalhamos com poesia, o que usar ou deixar de fora numa obra tão vasta como é a de Saramago, como mostrar às pessoas que não é difícil de ler e não só aos alunos, mesmo aos professores. Encontrámos este modelo teatral de «concurso televisivo» como pretexto e estratégia para ir lançando os textos. A verdade é que toda a gente adere muito bem e no final há sempre alguém que pergunta: «de qual dos livros é aquela cena?» Ou que diz: «oh, assim é fácil!»

«Quem quer ser Saramago» Créditos / Alberto Monteiro

Quanto aos autores contemporâneos, vamos tentando acompanhar a edição, o que não é fácil. Quando descobrimos algum que nos toca de algum modo, tentamos usá-lo nos espectáculos. Ao público não importa muito quem são os autores, a não ser o público amante de poesia e de literatura em geral. A maior parte da nossa população não tem formação nem gosto por estas áreas. Esta é a verdade. O que fazemos é tentar apanhá-los desprevenidos, digamos assim. Quando as pessoas ouvem o poema «Intercidades» de Margarida Vale de Gato, no nosso espectáculo Aleatório, não sabem se se trata de um clássico que desconheciam ou de um poeta novo. Mas ficam a amá-la. E é isso que nós queremos. A nossa missão é ir mostrando para que vão conhecendo cada vez mais. Talvez seja bom referir que nós andamos a fazer espectáculos no país real e não em tertúlias literárias em Lisboa ou no Porto para conhecedores. Em bibliotecas de Trancoso, em juntas de freguesia no Alentejo, em prisões em Castelo Branco, em creches do Laranjeiro. A razão porque referimos isto é que às vezes vemos as pessoas ridicularizando a poesia de Fernando Pessoa só porque já é muito «batido» ou dizer que «já não se aguenta o Gedeão». Os «não convertidos» nunca ouviram falar do António Gedeão e do Fernando Pessoa, sabem que existiu, mas a palavra heterónimo soa-lhes mais a medicamento. Tirar rótulos às pessoas e à arte que fazem é também uma missão nossa.

«Ora, toda a gente sabe o que aconteceu aos dinheiros públicos do nosso país»

A Andante já tem um historial, um currículo merecedor de respeito, atenção e apreço artístico (um reportório de espectáculos variado, colaboração com autarquias, Gulbenkian, DGLAB…) que, aliás, vem tornando o vosso trabalho cada vez mais conhecido. Como se estrutura a Andante? Que balanço fazem, considerando o vosso tempo de vida como associação/grupo?

A Andante faz 18 anos este ano e somos uma companhia de dois a tempo inteiro. Já fomos mais mas as várias crises assim o determinaram. Quando fazemos uma nova produção chamamos mais criativos para trabalharem connosco: cenógrafos, figurinistas, encenadores, músicos. A Andante vive dos espectáculos que produz. Como trabalhamos na área da promoção da leitura, os nossos interlocutores são essencialmente instituições públicas: câmaras, escolas, creches, bibliotecas, teatros. Ora, toda a gente sabe o que aconteceu aos dinheiros públicos do nosso país. O valor do trabalho desceu muito e para nós, exponencialmente. Os nossos trabalhos custam menos agora do que quando começámos há 18 anos. Para não desistirmos, vamos tentando resistir, «inventando a pólvora» todos os dias: novos espectáculos, novos públicos, novos meios de divulgação. Mas a verdade é que a Andante subsiste porque um grupo grande de pessoas por este país fora conhece o nosso trabalho e o defende com unhas e dentes dos projectos políticos mercenários. A esse grupo grande de amigos temos de agradecer todos os dias.

«Que as instituições responsáveis pela promoção da leitura voltassem a ter capacidade económica para pôr em marcha projectos como o nosso»

Que dificuldades essenciais têm enfrentado e o que poderia contribuir para ajudar o vosso trabalho artístico (que também é, diríamos nós, educativo)? Que apoios há, que apoios faltam?

As dificuldades maiores são económicas e de reconhecimento público. A Andante tem apenas um apoio (mínimo) da Câmara de Alcochete.

Deixámos de concorrer a subsídios para estruturas teatrais quando, ao fim de muitos anos a preencher montanhas de papéis, nos responderam que o pedido que fizemos sobrevalorizava um recital. Deduz-se desta frase algumas coisas. O que pensam algumas pessoas em lugares de decisão de uma companhia que nunca viram e não está sedeada em Lisboa, e o que acham que é um recital!!!

Tentámos durante algum tempo conseguir que os privados se interessassem pelo nosso projecto para bebés. A ideia era que patrocinassem uma série de espectáculos para crianças que não poderiam pagar para assistir e que pagassem a edição de um livro com poemas de Fernando Pessoa para bebés. Disseram-nos, em geral, que era tudo muito interessante, mas não podiam. Nem vale a pena elencar as desculpas esfarrapadas usadas. Então decidimos assim: dois amigos, Joaquim Coelho, músico, e Mafalda Milhões, ilustradora, ofereceram o seu trabalho; nós oferecemos alguns espectáculos a alguns meninos que não podem pagar; mandámos fazer, do nosso bolso, um CD com os poemas ditos e cantados, que oferecemos às instituições onde vamos para que as crianças possam continuar a ouvir aquelas palavras que por momentos as encantaram.

Pensamos, às vezes, que devíamos propor à União Europeia um apoio ao nosso trabalho, um projecto que envolvesse artistas portugueses e de outros países, mas quando pensamos na energia que necessitaríamos para o fazer, percebemos que durante uns meses não poderíamos fazer mais nada. E nós precisamos de trabalhar para continuar a viver desta actividade. E a verdade é que não somos bons a preencher «papelada».

Precisávamos que as instituições responsáveis pela promoção da leitura voltassem a ter capacidade económica para pôr em marcha projectos como o nosso. Continuamos a esperar e a resistir, até podermos.

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