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Sugestões culturais que não pode perder

O ensaísta José António Gomes faz sugestões culturais de Norte a Sul do País, das ilhas ao continente. Música, exposições, arquitectura, teatro, cinema, livros para aproveitar durante estas primeiras semanas de Agosto.

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Casa Museu Marta Ortigão Sampaio
Casa Museu Marta Ortigão SampaioCréditos

Paisagem e vinho, museus, pintura e livros – nos Açores

Quando observo o mappa mundi, assalta-me a estranha impressão de que há muito mais razões para dizer que o centro do mundo fica na Ilha do Pico do que para o situar na cidade de Lisboa. Ou na City. Ou em Nova York…

E é por isso que este roteiro começa, hoje, no meio do Atlântico. Conheço talvez dezena e meia de ilhas, se tanto, entre mar das Caraíbas, Norte da Europa, Mediterrâneo e Atlântico. É muito pouco, convenhamos. Mas não tenho dúvidas: das que visitei, o Pico é uma das mais belas. S. Miguel é outra pérola. Um roteiro pela Europa deveria começar talvez por essa espécie de paraíso natural a ocidente que são estas ilhas preciosas, povoadas de gente tão especial. E, claro está, com um livro de literatura na bagagem: Mau Tempo no Canal (1944), do grande Vitorino Nemésio (a edição BIS, Barata, ou outra), por alguns considerado o mais belo romance português do século XX. Com esta leitura seria imperdoável não visitar outras belezas insulares: Faial (a acção do romance começa na Horta), S. Jorge, Terceira…

No Pico, percorrer-se-á tudo: as verdes alturas, a zona de floresta e, tão diferente, a zona junto ao mar. Começar-se-á por essa região onde emergem, da terra negra, vinhas extraordinárias, arrumadas em quadrículas de terreno separadas por muretes de pedra solta, basáltica, que produzem um vinho tão especial. Na vila da Madalena, o Museu do Vinho tem pois de ser visto e, logo a seguir, tudo o que tenha que ver com a extraordinária cultura dos baleeiros: o Museu da Indústria Baleeira, em São Roque do Pico, e o Museu Regional dos Baleeiros, nas Lajes do Pico.

«O Pico é uma das mais belas. S. Miguel é outra pérola. Um roteiro pela Europa deveria começar talvez por essa espécie de paraíso natural a ocidente que são estas ilhas preciosas, povoadas de gente tão especial.»

Uma vez em S. Miguel, não se esqueça: quando estiver a abeirar-se do miradouro de onde se vê a Lagoa das Sete Cidades, repare no gigantesco edifício abandonado, à sua direita, que, não sei porquê, me traz sempre à memória o fantasmagórico hotel de The Shining (1980), o filme de Kubrick. É o Hotel Monte Palace, onde poderá ver agora o trabalho de Javier de Riba, jovem artista espanhol que criou uma pintura de tipo mural no chão, inspirado nos mosaicos hidráulicos de Barcelona, no âmbito da 6.ª edição do festival de artes «Walk & Talk». (O título tinha mesmo de ser em inglês, não é? Pergunto-me sempre: mas porquê? É porque em quase todo o lado é assim, em Portugal? É por causa da vaga turística? É porque simplesmente se tornou modernaço e favorece-a-comunicação-internacional? É porque não passa de uma esquisitice pensar em colonização política e linguística? Eu cá não acho, mas adiante.) Exposições de artes visuais, arte pública, performances, dança, teatro, artesanato, design, concertos, residências artísticas, conferências, projectos especiais – de tudo isto vive, neste momento, este marcante festival internacional de artes na Ilha de S. Miguel.

Capa da obra «Mau tempo no Canal» de Vitorino Nemésio, Editora BIS Créditos

Ah, mas já me esquecia: nos Açores, mais concretamente em Lajes do Pico, existe uma pequena editora, bem portuguesa e açoriana, que não é «mainstream» nem intoxica as livrarias de «bestsellers» (aqui, o inglês é intencional e as suas conotações nada abonatórias). Chama-se Companhia das Ilhas e publica autores açorianos e do continente. Edita sobretudo poesia, mas também ensaio, narrativa, texto dramático e até um engraçado livro infantil, muito popular no Reino Unido: A borbulha no rabo. Poemas terríveis para crianças terríveis (2013), de Gez Walsh, numa boa versão portuguesa de Helder Moura Pereira – que pode ler (ou dar a ler) aos seus miúdos.

Últimos livros que li, deste estimável «caso» da nossa vida editorial: o interessante As sapatilhas de Usain Bolt & Outros tercetos (2015), de Francisco José Craveiro de Carvalho, que dialoga com a poética do haiku mas em que também ecoam as Euclidiennes, de Eugène Guillevic; e, de Inês Lourenço, as intensas micro-histórias de Ephemeras (2012) além da poesia de O segundo olhar (2015) – antologia bem organizada e posfaciada pelo poeta José Manuel Teixeira da Silva, que constitui um dos melhores livros de poesia editados em Portugal nos últimos anos.

Jazz em Viana, em Lisboa e também nos cinemas. E Shakespeare, claro, e um filme com grande música

Claro que as ilhas dos Açores têm por esta altura muitos festivais. Aliás, todo o Portugal está infestado de festivais de música pop(ular), bem suados e consequentemente regados, onde é possível caçar imensos pokemons. E assim todos se podem distrair/abstrair dos baixos salários, do desemprego, da precariedade, da democracia-tamanho-pokemon, dos problemas orçamentais, do BES e do Novo Banco, do BANIF, do que a direita fez (e quer fazer) à CGD, das ameaças dos senhores do Eurogrupo e da Comissão, do terrorismo e da obsessão securitária, do golpe no Brasil, da guerra na Síria, da Palestina ocupada e de todas essas «minudências» chatas.

Cartaz do Festival «Jazz na Praça da Erva» que decorrerá entre os dias 11 e 13 de Agosto na Praça da Erva em Viana do Castelo Créditos
Ora uma mania importada, e entre nós radicalizada, é a de propor festivais de jazz… sem músicos de jazz – isto é, só com rockeiros, fadistas ou quase, cantores brasileiros e eu sei lá quem mais. Pelos vistos, a palavra jazz é, por si só, mágica. Mas já menos mágico é desfrutar de verdadeiros espectáculos de jazz e música improvisada, porque eles escasseiam. É pois reconfortante saber que, em Viana do Castelo, na última noite (13 de Agosto) do Festival Jazz na Praça da Erva, pelas 22 horas, Émile Parisien subirá ao palco do Teatro Municipal Sá de Miranda, acompanhado por Joachim Kühn & Michel Portal, Emanuel Codjia, Simon Tailleu e Mário Costa, para um espectáculo desde já recomendável, com bons representantes do jazz que se faz por essa Europa. O festival é promovido pela autarquia.

Quanto ao Jazz em Agosto, em Lisboa (Gulbenkian, 4-14 de Agosto), a oferta é variada. Consulte o programa e decida por si. Entre a guitarra de Marc Ribot e a de Ava Mendoza, o sax de Tim Berne e os Z-Country Paradise, há muito por onde escolher, num programa que, no entanto, se afigura demasiado «white».

E já que falamos de jazz, uma sugestão: tente apanhar ainda nos ecrãs Miles Ahead (2016), o estimável filme – entre realidade e ficção – que é também tributo ao grande trompetista e génio musical (esse sim, afro-americano) que foi Miles Davis (1926-1991), assinado pelo actor e realizador Don Cheadle e produzido à margem dos grandes estúdios.

«Pelos vistos, a palavra jazz é, por si só, mágica. Mas já menos mágico é desfrutar de verdadeiros espectáculos de jazz e música improvisada, porque eles escasseiam.»

Em matéria de filmes, recomendo-lhe ainda vivamente a versão digital restaurada de Barry Lyndon (1975), obra-prima de Stanley Kubrick, cuja história decorre no final do século XVIII, em período já de crise da grande aristocracia. O protagonista é um pequeno nobre irlandês, autêntico aventureiro e arrivista social que termina mal a sua rocambolesca carreira – típico herói pré-romântico e pícaro, inicialmente saído da imaginação do escritor inglês oitocentista William Makepeace Thackeray (1811-1863), em romance que o realizador adaptou. O filme destaca-se por muitíssimas e boas razões. Saliento três. Primeira: a admirável banda sonora, escolhida a dedo pelo próprio Kubrick, um génio da sintonia imagem/música (nela pode escutar Bach, Vivaldi, Händel, Mozart, Schubert, música irlandesa…). Segunda: a estudadíssima e deslumbrante relação das imagens com a grande pintura do século XVIII. Terceira: as lentes especiais, concebidas pela NASA para a fotografia de satélite, a que Kubrick recorreu para rodar inesquecíveis cenas de interior à luz de velas.

A música barroca comparece também em Cimbelino, de Shakespeare, peça que subiu ao palco do Museu das Ruínas do Carmo, em Lisboa, no passado dia 3 de Agosto e ficará em cena até ao dia 13. Trata-se de uma encenação de António Pires, que trabalhou com Luísa Costa Gomes na adaptação do texto. Interpretações, a destacar, de Adriano Luz, Rita Loureiro, Ricardo Aibéo. O restante elenco é constituído por jovens alunos da ACT – Escola de Actores, que assim iniciam o seu percurso artístico. Não esqueça: tudo isto, também, porque este ano se assinalam os 400 anos da morte do genial dramaturgo isabelino.

Centro de Artes Nadir Afonso, Boticas Créditos

Vila Real e Chaves, A-Ver-o-Mar, Matosinhos, Porto e Gaia: um guia, uma escritora e um pintor transmontanos, e ainda uma grande artista portuense

Viaje. Se puder, viaje um pouco por este sedutor território português. De Viana siga para leste e para nordeste. Vá até à cidade onde nasceu, e viveu infância e juventude, Luísa Dacosta (1927-2015), mestra da crónica literária, do conto, da literatura autobiográfica, da escrita para a infância. Estilista singular, poeta da prosa, invulgar talento descritivista. A cidade de que falo é Vila Real, nos anos 40, que Luísa retratou. Mas acompanhe também, de modo orientado, a sua passagem pelo Porto, por Matosinhos, pela praia de A-Ver-o-Mar e por outros lugares. Faça-o pela mão conhecedora do crítico Ramiro Teixeira, que produziu Viajar com… Luísa Dacosta (DRCN/Opera Omnia, 2016), o mais recente dos guias que a Direcção Regional de Cultura do Norte tem vindo a publicar, numa colecção já com vários títulos dedicados a outros autores: Camilo, Eça, Aquilino, Régio, Torga, Ferreira de Castro. Iniciativa de louvar, que, no caso do guia em apreço, comporta uma cronologia, uma bibliografia seleccionada, referência a espaços de inspiração e à topografia literária, além de uma breve releitura crítica. Existe ainda certa dimensão antológica no que toca aos excertos escolhidos. Um volume profusamente ilustrado com belas fotografias, incluindo as de Luísa Dacosta, várias até agora inéditas.

Matosinhos e Porto – duas das cidades de eleição de Luísa – são precisamente os lugares onde poderá ver os dois pólos de «Aurélia, mulher artista», magnífica exposição que assinala o 150.º aniversário do nascimento de Aurélia de Sousa, figura maior da pintura portuguesa e fotógrafa (Valparaíso, 1866 – Porto, 1922). Trata-se de uma parceria da Câmara do Porto e da Câmara de Matosinhos patente até 30 de Outubro. Pode ser vista no Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira, Matosinhos, e na Casa Museu Marta Ortigão Sampaio, no Porto (conhece este pequeno museu, na Rua de N.ª Senhora de Fátima, ali mesmo ao lado do belo edifício classificado «Parnaso» (1956), dos arquitectos José Carlos Loureiro e Luís Pádua Ramos?). Se for ao Porto, vale a pena visitar tudo isto, um pouco à margem dos circuitos turísticos massificados. Marta Ortigão Sampaio era familiar de Aurélia de Sousa e a casa museu possui talvez a mais relevante colecção de obras da pintora – além das de outros artistas anteriores ao modernismo – e uma surpreendente colecção de jóias e de mobiliário.

«Matosinhos e Porto – duas das cidades de eleição de Luísa Dacosta – são precisamente os lugares onde poderá ver os dois pólos de "Aurélia, mulher artista", magnífica exposição que assinala o 150.º aniversário do nascimento de Aurélia de Sousa»

Já que falamos de pintura e arquitectura, um espaço que não lhe pode escapar, nos próximos tempos, é o novo Museu Nadir Afonso, em Chaves, recentemente inaugurado, obra emblemática desse outro grande artista que é Álvaro Siza. A exposição inaugural anda em torno da vida e obra do pintor e arquitecto flaviense, que chegou a trabalhar com Le Corbusier e Óscar Niemeyer e morreu aos 93 anos. O edifício, belíssimo, dispõe de salas de exposição, auditório, biblioteca, arquivo, espaços para o espólio do artista e um atelier, disponível para acolher temporariamente artistas de todo o mundo. É um conjunto que certamente atrairá muita gente, nos próximos tempos, à cidade de Chaves – até porque Nadir foi, de facto, um grande pintor moderno (além de artista que apreciava a reflexão teórica), singular no seu desenho, no seu polícromo geometrismo e na aparente oscilação entre figuração e abstracionismo.

Outra parte da obra é possível vê-la, neste momento, em Gaia, na Casa Museu Teixeira Lopes e no Convento Corpus Christi (ali mesmo na margem do Douro, belo e riquíssimo espaço patrimonial). Trata-se da «Retrospetiva: Só depois é amanhã», recentemente inaugurada.

Ainda Trás-os-Montes: o Intercéltico de Sendim

Se andar por terras transmontanas e durienses, não esqueça: tem, promovida pela Sons da Terra e com apoios da Câmara de Miranda do Douro e da Junta de Freguesia de Sendim, distrito de Bragança, a 17.ª edição do Festival Intercéltico de Sendim – uma histórica iniciativa ligada à música folk. Os irlandeses Full Set, os portugueses Andarilho 2.0, a Orquestra de Foles com a companhia de Pepe Vaamonde Grupo (Galiza), os Almez (Castilla-La Mancha), os mirandeses Trasga são a parte de leão do programa, que engloba numerosas actividades de animação.

Mais pintura e música (em Matosinhos, Lisboa e Tomar)

Obra de Julião Sarmento patente Galeria Municipal de Matosinhos integrada na exposição «No fio da respiração»

Registe ainda: Julião Sarmento tem uma exposição na Galeria Municipal de Matosinhos, «No fio da respiração»: 25 obras, duas nunca antes vistas em público. Em Lisboa, por seu lado, a Colecção Moderna da Gulbenkian apresenta a primeira exposição retrospectiva dedicada ao pintor José Escada (1934-1980), dando a conhecer, de acordo com o texto de apresentação do Museu Calouste Gulbenkian, «um artista que desenvolveu uma obra singular, num vai e vem constante entre abstracção e figuração, e que atravessa a pintura, o desenho, as colagens e os relevos recortados, a ilustração e a realização de murais, pintados e esgrafitados». 

Experimente ainda passar uma vista de olhos pelo programa do festival Bons Sons, a ter lugar em Cem Soldos, Tomar, de 12 a 15 de Agosto. Posso dizer-lhe, por exemplo, que Jorge Palma vai cantar, a 15 de Agosto, às 22h45, no Palco Lopes-Graça.

E mais livros novos em tempo de praia: bossa nova, Pina, Mário-Henrique Leiria

Por último, como estamos em mês de praia e de sol, talvez valha a pena lembrar que «Garota de Ipanema» foi interpretada pela primeira vez a 2 de Agosto de 1962, num clube do Rio de Janeiro, celebrando-se por estes dias 54 anos de uma canção que se tornou mundialmente conhecida. Nessa noite, estiveram no palco António Carlos Jobim (o autor da música), Vinícius de Moraes (o letrista), o cantor João Gilberto, o baterista Milton Banana e o contrabaixista Otávio Bailly. A música havia sido inspirada pela balançante visão da jovem e bela Heloísa Pinheiro (que todos hoje conhecem por Helô), actualmente com 71 anos. Vem tudo isto a propósito do excelente livro do brasileiro Ruy Castro, Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova (2016), edição cuidadíssima da Tinta da China. É um trabalho de história que se lê como um romance, escrito com arte e saber, repleto de anedotas vividas, cheio de graça. O esforço de arqueologia musical e a pesquisa documental são notáveis, as fotografias complementam o texto, mas são igualmente de valorizar as próprias análises que caracterizam, do ponto de vista técnico e estilístico, a expressão melódica, rítmica e vocal da bossa nova. Um movimento com raízes sobretudo na juventude da média burguesia branca do Rio de Janeiro, nos anos 50, e que cresceu depois no eixo Rio–S. Paulo. Tendo colhido influência do jazz e de alguns cantores da cena musical norte-americana (Sinatra, Bing Crosby…), haveria, ele próprio, de exercer considerável influência na América do Norte (Stan Getz, Chet Baker, Miles Davis, Cannonball Adderley, Sinatra, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e outros…).

A narrativa de Ruy Castro valoriza, sobretudo, aspectos psicológicos, pessoais e de carreira dos protagonistas, e alguns traços da moldura sociológica (a relacionada com a indústria musical, principalmente). Esperar-se-ia, talvez, uma contextualização sociopolítica mais apurada e menos jornalística, considerando a importância de certos acontecimentos dos anos 50 e 60. Castro não é, claramente, um homem das esquerdas (ainda que eventualmente disso se possa reclamar), o que se nota, em especial a partir do momento em que relata a evolução ideológica e politizante que alguma da bossa nova e da música brasileira em geral conheceram, no quadro da resistência à ditadura militar brasileira (1964-1985), designadamente com Carlos Lyra – compositor e músico comunista –, Nara Leão, Edu Lobo, Elis e outros. Por outro lado, seria interessante ficarmos a saber um pouco mais sobre protagonistas como Toquinho ou Marília Medalha. Marília, que tantas parcerias compositivas fez com Vinícius e que, no início de 1969 (ano em Vinícius foi também exonerado do serviço diplomático), viu o seu então marido, o escritor e teatrólogo Isaías Almada, ser preso pela ditadura militar, que entrara na sua fase mais dura. Este, no entanto, é um livro que valerá sempre a pena ler e debater – diverte, informa com elevado grau de rigor, problematiza e constitui peça central na bibliografia sobre o tema.

«O texto de 1979 [Lisboa ao voo do pássaro] é um poema que dialoga com uma série de fotos – dos mais belos que foram escritos em torno da Revolução portuguesa e dos anos subsequentes.»

Duas outras sugestões, a terminar: o excelente Manuel António Pina Dito em voz alta: entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo (2000-2012) (Documenta, 2016), organizado pelo ensaísta Sousa Dias – uma leitura que é também um modo de alimentar a nossa inteligência do mundo, a nossa cultura e até o nosso sentido de humor, «escutando» aquele que foi e será sempre um grande poeta, um grande cronista, um grande escritor de livros para a infância.

Mário-Henrique Leiria, (1923 — 1980), escritor surrealista

Por último, não perca – porque se vai divertir muito – Casos de direito galáctico e outros textos esquecidos, de Mário-Henrique Leiria (E-Primatur, 2016), volume que reúne Imagem devolvida: Poema Mito (1974), Casos de Direito Galáctico / O Mundo inquietante de Josela: Fragmentos (1975), Conto de Natal para crianças (1975) e Lisboa ao voo do pássaro (1979). O livro mantém as belas ilustrações originais de Cruzeiro Seixas e as fotos de João Freire, além de um prefácio de Cesariny ao primeiro dos livros aqui incluídos (alguns em fac-símile). O texto de 1979 é um poema que dialoga com uma série de fotos – dos mais belos que foram escritos em torno da Revolução portuguesa e dos anos subsequentes. O de 1974 – na verdade produzido muito antes – é um bom exemplo de um escrito surrealista; os de 1975 representam certa faceta interventiva do surrealismo que, em alguns casos, reconheça-se, fez mais pela luta pela liberdade e pela democracia do que muito romance engagé. Os Casos e Josela ilustram a presença da ficção científica (FC) na nossa literatura e na obra do autor, mais como moldura do que propriamente como propósito de fazer FC, até porque são, isso sim, exemplos de subversivo humor crítico. A não perder.

Tenha um bom Agosto – o mês em que se retemperam forças para enfrentar o que há-de vir.

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