|Vale do Côa

Comissão de trabalhadores contra modelo de fundação para o Parque do Vale do Côa

A Comissão de Trabalhadores da Fundação Côa Parque manifestou-se hoje, no Parlamento, contra o modelo de fundação para o Parque Arqueológico do Vale do Côa, «que não funciona» por falta de investimento, afectando «de forma grave» a vigilância.

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Representação de animal numa pedra de xisto do complexo rupestre do Vale do Côa
Representação de animal numa pedra de xisto do complexo rupestre do Vale do CôaCréditosMarcos Borga / Agência Lusa

Dois membros daquela comissão de trabalhadores foram ouvidos na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República, onde alertaram para o desinvestimento na vigilância, que passou de 15 para seis guardas, quatro deles no museu e dois no exterior.

«O modelo de fundação já mostrou que falhou, porque os fundadores não investiam, e o parque não pode funcionar sem orçamento. Em 17 anos, nunca houve vandalismo», comentou André Santos, da comissão de trabalhadores, perante os deputados.

A Comissão de Trabalhadores (CT) foi uma das entidades ouvidas hoje no Parlamento sobre o acto de vandalismo perpetrado em Abril num dos núcleos do Parque do Côa e que levou à identificação de duas pessoas que confessaram a destruição. As audições de hoje foram requeridas pelo grupo parlamentar do PCP.

«O vandalismo é sempre estúpido, e daí a necessidade de o evitar. É essencial a segurança e a vigilância dos locais», defendeu André Santos.

O parque, com 17 quilómetros, foi inaugurado em 1996, e as gravuras estão classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade.

Além da falta de vigilantes, a CT falou na existência de um parque automóvel velho e da falta de uma direcção forte, «que defenda os interesses de protecção do conjunto de importância cultural mundial».

O representante dos trabalhadores revelou aos deputados que existe o risco de ser perdido, por razões administrativas, um apoio já aprovado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia para um projecto apresentado pelos investigadores que trabalham no parque.

«É preciso que o Estado defina um plano estratégico»

Na audição, foram ainda ouvidos a presidente da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS-Portugal), Maria Ramalho, que considerou a situação «grave, devido ao acumular de episódios que agravam os riscos para o património mundial no Côa».

O ICOMOS-Portugal enviou um relatório para o ICOMOS Internacional para que avalie a necessidade de uma perícia da situação por parte da UNESCO, que já remeteu a solução para o Ministério da Cultura de Portugal.

«Ainda não saíram os estatutos da Fundação, o director do parque aposentou-se e não foi substituído, falta um plano de gestão, não há pessoas no terreno a vigiar. É um acumular de elementos que exige medidas urgentes», disse a representante do ICOMOS.

Para o arqueólogo João Zilhão, que foi director do parque nos anos de 1990, também presente na audição, «se a UNESCO vier fazer uma avaliação no terreno, será realmente muito desprestigiante para o País».

Os dois responsáveis consideram que deve ser o Estado a pedir à UNESCO que se desloque ao terreno, para avaliar a situação: «De contrário terá de ser outro organismo a fazê-lo.»

Os deputados também ouviram, sobre o mesmo assunto, membros da direção da Comissão Portuguesa da Comissão Internacional de Museus (ICOM-Portugal), cuja posição manifestada foi de grande preocupação, defendendo uma «política estrutural» para a resolução dos problemas da Fundação Côa Parque e do próprio parque e do seu património.

«O Parque do Vale do Côa é o maior parque de arte rupestre ao ar livre do mundo. É preciso que o Estado português defina um plano estratégico que envolva as entidades locais e regionais», defendeu Mário Antas, da direcção do ICOM-Portugal.

Ao início da manhã, o presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses (AAP), José Morais Arnaud, afirmou que o Parque Arqueológico do Vale do Côa se encontra numa situação «insustentável», de «completa autogestão», sem administração nem trabalhadores.

A associação também alertou para o facto de a administração da Fundação do Côa ainda não ter tomado posse, o que, com a aposentação do director do parque, faz com que todo o conjunto – incluindo o museu – se encontre «à deriva».

Na semana passada, o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, revelou, no Parlamento, que a protecção das gravuras do Parque Arqueológico do Vale do Côa deverá passar pela instalação de um sistema de videovigilância e por um maior envolvimento da comunidade local.

Duas pessoas foram identificadas e constituídas arguidas, depois de terem confessado a autoria dos desenhos que danificaram o Painel Central de Arte Rupestre da Ribeira de Piscos, pertencente ao Parque do Vale do Côa, localizado no distrito da Guarda.

Vulgarmente conhecido pela representação do «Homem de Piscos», feito há cerca de 15 mil anos, o painel com as gravuras está classificado como monumento nacional e como Património Mundial pela UNESCO.

O Parque Arqueológico e o Museu são geridos pela Fundação Côa Parque, criada em 2011, e cujos estatutos foram alterados em Abril para passar a incluir, entre os representantes, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Quando foram conhecidos os actos de vandalismo, em Abril, na sequência do repúdio manifestado por várias entidades, Luís Filipe Castro Mendes disse que «toda a gente» se queixa de falta de vigilância: «Vivemos anos de cortes brutais em todas as estruturas da Cultura, seria impossível que num ano estivesse tudo remediado.»

Com Agência Lusa

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