|Balanço do ano – 2016

Estados Desunidos de 2016

Os EUA são um país de notável diversidade, mas marcado por profundas desigualdades e divisões – subjacentes à hostilidade e à violência nas suas mais diversas formas. Os anos de presidência Obama têm-no demonstrado.

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Em 2004, quando se dirigiu à Convenção do Partido Democrata que nomearia John Kerry como candidato presidencial, Barack Obama era então apenas senador estadual de Illinois. Tinha ganho esse ano as primárias no seu estado para a corrida ao Senado federal. O seu discurso galvanizante na convenção trouxe-lhe reconhecimento geral e lançou a sua carreira política nacional, que o levou à Casa Branca, tornando-se o primeiro presidente negro dos EUA, ciclo político que está para terminar em breve. Nesse discurso Obama lançou a sua mensagem de esperança (hope) que haveria de caracterizar a sua campanha à presidência, assim como a ideia de unidade nacional: «Não existe uma América liberal e uma América conservadora – existem os Estados Unidos da América. Não existe uma América negra e uma América branca e América latina e América asiática – existem os Estados Unidos da América.»

O optimismo de Obama era, então e hoje, exagerado. Os EUA são um país de notável diversidade, mas marcado por profundas desigualdades e divisões. Não me refiro às divisões e diferenças desejáveis numa sociedade democrática e plural, mas sim às divergências profundas por detrás de hostilidade e violência nas suas mais diversas formas. Os anos de presidência Obama têm-no demonstrado: as divisões económicas e de classe, que estiveram na origem do movimento Occupy Wall Street (iniciado em 2011) e que em 2016 motivaram muitos jovens mobilizados pela candidatura de Bernie Sanders; as divisões raciais, entrecruzadas com as económicas, mas marcadas também por violência racial ou anti-islâmica, na origem do movimento Black Lives Matter (BLM; As Vidas Negras Importam) e no crescimento de grupos nacionalistas brancos; as divisões ideológicas, com uma constante polarização política e partidária (com o surgir de movimentos mais extremos como o Movimento Tea Party), alimentada pela influência do poder económico e financeiro sobre o poder político, e responsável pela incapacidade de progresso legislativo, patente por exemplo na falta de iniciativa legislativa em torno da compra e posse de armas de fogo, apesar dos inúmeros casos de violência armada, em particular em escolas. Estas divisões encontram-se demarcadas geograficamente, e são bem visíveis quando olhamos para os mapas eleitorais, ou quando se percorre uma grande avenida de uma metrópole e encontramos ilhas de luxo e guetos de indigência em relativa proximidade.

A recente capa da revista Time apontando Donald Trump como «pessoa do ano» é um recente indício desta divisão. A montagem da foto de Nadav Kander está recheada de mensagens subtis (por exemplo, a poltrona desgastada ou os cornos diabólicos traçados pelo «M») mas o subtítulo é muito claro: «Presidente dos Estados Desunidos da América».

«Os 17 membros já conhecidos do gabinete [Trump] totalizam uma fortuna – 9,5 mil milhões de dólares – que ultrapassa os rendimentos das 43 milhões de famílias menos ricas dos EUA. O futuro é promissor para os ultra-ricos.»

Trump foi uma figura divisiva – objecto de forte oposição e escárnio, mas também de apoio incondicional – e alimentou-se de movimentos divisivos – o nacionalismo branco, o nativismo, o anti-islamismo, a desconfiança da ciência (como as alterações climáticas ou as vacinas), etc. Os seus discursos, marcados pela retórica inflamada da divisão, do «nós» e «eles», é bem evocativo do discurso fascista: neles encontramos o hipernacionalismo, a glorificação da violência e militarismo, a misoginia, a invocação de uma época de ouro, a autodefinição por oposição, a teatralidade, a demagogia e a mentira. Para completar a caracterização fascista. Apresentando-se como alternativa aos políticos estabelecidos, querendo «drenar o pântano» de marasmo em Washington D.C., Trump já admitiu que tal foi uma manobra eleitoral e já o demonstrou através das suas nomeações, que incluíram elementos da elite industrial e financeira, e dos lóbis. Dois elementos parecem ser comuns à maioria dos nomeados: querem desmantelar os departamentos para os quais foram nomeados e ser ricos. Esta prepara-se para ser a administração «mais rica» da história moderna dos EUA. Só o nomeado para Secretário de Comércio, Wilbur Ross, é dez vezes mais rico que toda a anterior administração mais rica, sob George W. Bush. Os 17 membros já conhecidos do gabinete totalizam uma fortuna – 9,5 mil milhões de dólares – que ultrapassa os rendimentos das 43 milhões de famílias menos ricas dos EUA. O futuro é promissor para os ultra-ricos.

Além da corrida presidencial, que marcou todo o ano de 2016 nos EUA, um outro episódio ilustra bem as divisões internas nos EUA. Durante 2016, persistiram as mortes de negros por acção policial. A 5 de Julho, Alton Sterling foi repetidamente baleado por dois polícias brancos, no Louisiana, quando se encontrava já imobilizado no chão, após ser atingido com um taser. A 6 de Julho, no Minnesota, Philando Castile condizia com a sua namorada e filha de quatro anos quando foi parado pela Polícia e baleado quatro vezes quando se moveu para levantar os braços. A 7 de Julho, no final de um protesto pacífico do BLM, em Dallas, por estas mortes, Micah Johnson abriu fogo sobre a Polícia, matando cinco agentes e ferindo outros sete. Seguiram-se mais de uma centena de protestos pacíficos em dezenas de cidades.

Durante a pré-temporada, em Agosto, o jogador de futebol americano Colin Kaepernick permaneceu sentado durante o hino nacional, que nos EUA tipicamente precede qualquer evento desportivo e durante o qual os jogadores habitualmente se levantam. (Mais tarde passou a protestar de joelhos para reconciliar o seu protesto com respeito pelos membros das forças militares). O seu protesto silencioso não foi notado inicialmente. Após o terceiro jogo em que assim protestou, Kaepernick explicou a sua acção: «Não me vou levantar para mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isto é maior que o futebol e seria egoísta da minha parte olhar para o outro lado. Existem corpos nas ruas e pessoas a receber licença remunerada e a ficar impunes após assassinatos. (…) Vou continuar a protestar até que a bandeira represente o que é suposto representar.» A sua forma de protesto foi depois seguida por vários outros desportistas, apesar das fortes críticas e acusações de desrespeito, estupidez e traição. Contra quem opinou que deveria seguir as tradições, manter-se calado, não trazer política para a arena desportiva, através do seu protesto pacífico, Kaepernick evidenciou respeito pelos ideais fundamentais de igualdade e liberdade que os símbolos da bandeira e hino deveriam representar.

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