|E o mundo é a nossa tarefa

Escrevo-te

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

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Richard Serra, Schunnemunk Fork, 1990-91
Richard Serra, Schunnemunk Fork, 1990-91CréditosRichard Serra

Escrevo-te

Escrevo-te de um país mergulhado no breu

E não se trata da noite.

Escrevo-te

Por causa deste escuro.

Escrevo-te sobre o muro

Que está ao fundo do escuro.

*

Há o escuro que me impele a escrever.

E há um muro sobre o qual escrevo

E é para ti.

Não sei o que seja este breu

Estou cá dentro

Escrevo-te sobre um muro ao fundo do escuro.

*

Sei que fora

Não arrepia o escuro.

*

Quase sempre o muro é direito,

Palpita-me que este ondula.

Quando refiro

Que ele está ao fundo do escuro,

É para me tranqulizar.

Evoco-o

Para que seja útil.

*

Se nunca leres sobre este muro

O que para ti escrevi

Talvez possas adivinhar

Aonde estava encerrado

*

Se todavia tivesse escrito

Sobre o teu muro

Sobre o muro ao fundo

Do bréu onde és

E tu não soubesses

Que aí escrevi para ti?

*

Conheço-te, sol,

Conheço-vos, macieiras.

Conheço a estranha

Variedade de escuro

A que se chama luz

No gume do seu reino estremeci.

*

Não tenho horizonte

Para lá desse muro

Sobre o qual te escrevo.

Não escreverei mais

Do que não possa saber.

*

Escrevo a verdade que suporta o muro

Ao fundo deste breu.

*

Fora impôr-se-ia um outro campo de acção,

A corneta onde soprar o dia mais forte do que ele,

Esse sopro de uma única labareda a nu sobre os caminhos,

Quando o meio-dia vem esporear

A face da terra permanente.

Mas fora, onde escrever-te

À falta deste muro?

*

Lá fora, mas eu não saberia mais

A quem escrever.

E quem será, lá fora,

No fogo e no vento,

Aquele que te deve escrever?

*

A menos que um dia –

Virá alguma vez esse dia? –

Nós saibamos estar juntos, quero-o muito,

Para o exterior e para o escuro.

Em nossa honra aí

Esbrasearão de luz,

Mas à nossa medida,

As macieiras, os rios.

Então escreverei sobre o que tu verás

Incendiar-se de ternura,

Sobre todas as coisas ao redor de nós

No exterior e no escuro.

E não terei mais necessidade

De procurar escrever-te

Sobre o muro inencontrável

Onde escrevo agora.

*

Que importa depois disso

Que ainda haja uma bainha de breu

No esplendor da luz,

Ao fundo da luz,

Se tu estarás lá

Para tactearmos juntos

E então escreverei na tela

Do teu corpo com os meus lábios

*

Em esperando escrevo

Sobre o muro que estará ao fundo no breu:

«Abençoo os teus joelhos,

«Penso no dia em que sob

«As minhas mãos eles tremerão

«Como fazem as folhagens

«Com menos razão.»

*

E nós galgaríamos

Rumo à luz curável.

Eugène Guillevic, tradução António Cabrita

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